quarta-feira, junho 17, 2009

Assessoria pode aumentar produção de leite

“Os agricultores estão sob uma enorme pressão, estão a perder dinheiro e só aqueles que tomarem o maior número possível de decisões correctas permanecem no meio com rentabilidade. Mas para isso, é preciso estabelecer objectivos, constituir equipas e pensar para lá das tradições”.
A afirmação é de Alan Bair, responsável pelo relacionamento com o sector dos lacticínios na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos da América. Este especialista está nos Açores, juntamente com Lisa Holden, sua colega no departamento de Ciências Agrárias, para sensibilizar os agricultores açorianos para as vantagens da criação de equipas de assessoria à produção de leite. É esta, aliás, a sua função nos EUA: fazer a ligação entre a universidade, a indústria e os produtores. Alan Bair e Lisa Holden iniciaram esta segunda-feira um Seminário sobre Extensão Rural, destinado a profissionais da área (é esperada terça-feira a presença de agricultores no Anfiteatro B da Universidade, a partir das 10h30), primeiro em Ponta Delgada - dias 15 e 16 - e depois em Angra do Heroísmo, nos dias 17 e 18, numa organização da Universidade dos Açores, com patrocínio americano. “O veterinário vai à exploração para cuidar da saúde dos animais; o engenheiro agrónomo olha para as culturas; o contabilista para as finanças... Mas o importante é que todos se juntem para avaliar os factores que influenciam realmente a rentabilidade da exploração. O importante é olhar para a exploração como um todo e não apenas para a especialidade de cada um”, explica Alan Bair, em entrevista ao Açoriano Oriental. Mas introduzir a figura da consultoria na exploração agrícola parece, à primeira vista, algo inatingível para um sector tradicionalmente pouco escolarizado e muito habituado a depender apenas de si próprio. Contudo, nos Estados Unidos da América, as experiências da Universidade da Pensilvânia (embora a realidade americana não seja directamente comparável à açoriana), revelaram que é possível ganhar até cerca de 200 euros por vaca no fim do ano, se certas medidas de gestão da exploração forem tomadas em equipa e não apenas individualmente.
(In Açoriano Oriental)

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domingo, junho 14, 2009

Sustentabilidade da produção leiteira nos Açores (2)

José Estevam da Silveira Matos (*)


CAPÍTULO II - A DIMENSÃO ECONÓMICA (EFICIÊNCIA, COMPETITIVIDADE)
Embora os Açores apresentem uma estrutura de produção menos diversificada do que o resto do país, esta assenta nas suas vantagens naturais para a produção animal, através da pastagem. Como a vaca leiteira é o animal que melhor é capaz de transformar erva em alimento para os humanos, leite e carne, não espanta por isso que os Açores produzam cerca de 30% do leite nacional e que nele existam cerca de 100.000 vacas leiteiras e que o número total de bovinos ultrapasse o número de humanos – um caso raro no mundo.
Os ruminantes são capazes de utilizar dietas ricas em componentes fibrosos (forragens e subprodutos), não utilizáveis na alimentação humana. De entre todos os ruminantes o que transforma a erva da pastagem em proteína de elevado valor biológico com maior rentabilidade é, sem dúvida, a vaca leiteira. Este facto situa estas espécies numa posição muito vantajosa dentro dos sistemas de produção animal. Para além disso, existem razões geográficas, orográficas, climatéricas e económicas - diríamos que também culturais - para a opção pecuária e pela especialização na produção de leite nos Açores.
A produtividade da indústria regional de lacticínios representava apenas 61% da média nacional, facto que pode ser explicado em grande pela especialização da região em produtos com baixo valor acrescentado: essencialmente queijo flamengo e leite em pó.
Como factores limitantes à sustentabilidade do sector, na vertente económica, apontamos este facto, o de a maioria dos lacticínios produzidos terem um baixo valor acrescentado, havendo ainda uma insuficiente promoção e valorização nos mercados de consumo das muitas virtudes dos produtos lacticínios regionais. Destas virtudes salientam-se aspectos da composição química do leite influenciados pela dieta natural das vacas criadas nos Açores, em liberdade, num sistema mais de acordo com as novas regras do bem-estar animal.
No entanto velhas debilidades tardam em ser resolvidas: demasiada pulverização da propriedade falta de abastecimento de água potável e energia, refrigeração do leite, qualidade do leite etc.
Os tempos de instabilidadeOs tempos que correm caracterizam-se do ponto de vista económico por uma grande incerteza e instabilidade, fruto em primeiro lugar de uma grave crise financeira, que persiste, e que dá mesmo sinais de poder vir a agravar-se. Esta instabilidade tem vindo a repercutiu-se no mercado do leite, com diminuições acentuadas dos consumos, principalmente do queijo e do leite em pó, com descidas acentuadas do preço do leite ao produtor. Os preços médios do leite pagos ao produtor na União Europeia atingiram mesmo o patamar mais baixo dos últimos 10 anos. Esta situação diminui a margem de competitividade dos lacticínios açorianos face à concorrência europeia e global e a manter-se a tendência verificada nos preços internacionais tal só poderá significar uma baixa acentuada dos preços do leite à produção no futuro mais próximo.
A RESPOSTA POSSÍVEL E DESEJÁVELUM MODELO SUSTENTÁVEL DE PRODUÇÃO A APOSTA NA DIFERENCIAÇÃO E NA DIVERSIFICAÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO
Tenho vindo a defender, junto da lavoura açoriana, a necessidade de esta apostar num modelo mais sustentável da produção de leite, baseada principalmente na erva das nossas pastagens, em detrimento de uma produção de leite feita com concentrados, necessariamente importados, cujo preço não controlamos. Uma vez que vaca leiteira entrou hoje em competição directa com os automóveis e a razão preço do leite pago ao produtor, preço do concentrado, e a resposta produtiva esperada em função dos suplementos de cereais, faz com que esta nossa defesa ganhe hoje mais força ainda.
A vaca é um ruminante (por vezes esquecemos este pequeno grande detalhe!), uma máquina de 4 estômagos perfeita para transformar aquilo que não conseguimos comer, erva, em alimentos ricos e saborosos, leite e carne, aproveitando assim, indirectamente a energia solar captada pelas plantas através da fotossíntese.
Para que se disponibilize aos animais o máximo de erva possível e ao preço mais baixo, há que manejar melhor a pastagem, escolhendo-se as cultivares melhor adaptadas, mais ricas do ponto de vista energético (com mais açúcares), em pastagem consociada com leguminosas, garantindo-se o máximo de fixação natural de azoto, usando-se bactérias melhor adaptadas aos nossos solos ácidos.
Mas a produtividade e o rendimento são o produto de uma trilogia:PRODUTIVIDADE = GENÉTICA X ALIMENTAÇÃO X MANEIO
A exploração de animais melhor adaptados à produção de leite a partir da erva deve condicionar as opções genéticas, numa lógica de maximização da produção de sólidos por hectare em detrimento da produção individual, maximizando-se o encabeçamento. A opção por raças produtoras de maior quantidade de sólidos, ou de cruzamentos destas com a raça "holstein", garantem não só uma maior produção por hectare, através de um maior encabeçamento, mas também, no caso dos animais híbridos, a avaliar pelo exemplo da Nova Zelândia, um maior rendimento, fruto também de uma maior longevidade dos animais, maior resistência às doenças, maior fertilidade, maior rusticidade, maior eficiência económica.
Vender melhor ou produzir mais?Mais do procurar aumentar o rendimento dos agricultores incentivando-os a produzir mais, numa lógica produtivista, feita à custa de imputes importados, cujos preços não controlamos e nem sempre geradores de maiores rendimentos para o agricultor, importa vender melhor, produtos de elevada qualidade e de maior valor acrescentado, aumentando a rentabilidade dos sistemas mais sustentáveis de produção, através de mais conhecimento e de tecnologias apropriadas, numa lógica de sustentabilidade. Mais que a produção física, o sector precisa de intensificar o seu valor, apostando na diferenciação, na inovação ao nível da oferta e na comercialização dos produtos, na qualificação dos recursos e na sustentabilidade.
Os produtos com selo, com garantia de uma origem controlada, ilustram a formalização de novo paradigma na produção alimentar. Em nossa opinião os produtos da nossa agricultura e da nossa pesca, deveriam ser comercializados com a identificação de “Produzido nos Açores” defendendo-se a todo o custo que este rótulo esteja sempre ligado a uma imagem de qualidade, de mais natural, de segurança, de mais nutritivo. Mas, com maior agressividade, fazendo uso de técnicas de marketing modernas, explorando bem os mercados que nos ficam mais à mão: Lisboa; Madeira; Canárias e o mercado da saudade.
E porque estamos em ilhas, forçoso será pensar em transportes a preços mais acessíveis, bem organizados, pensados também numa lógica de exportação dos nossos produtos e não apenas da importação dos bens de consumo. Mais do que subsidiar a importação de cereais e adubo de outras paragens, importará mais fazer o inverso, subsidiando o transporte dos bens a exportar. Este é o grande desafio a colocar à comunidade europeia na negociação do POSEIMA.
E SEMPRE A QUALIDADE DA MATÉRIA-PRIMA
Os indicadores de qualidade apontam para níveis de cumprimento relativamente aos parâmetros de higiene do leite satisfatórios, embora em algumas das ilhas haja que fazer um maior esforço nesta vertente. Destacamos pela positiva o caso da Ilha de S. Jorge, que produz um leite de excelente qualidade, talvez o melhor leite do país, graças ao esforço efectuado pelas cooperativas locais, produtoras do queijo DOP S. Jorge. Este deveria ser claramente um exemplo a seguir pelas restantes ilhas.
O POTENCIAL DE DIVERSIFICAÇÃO PELA INOVAÇÃO
Como referimos anteriormente os lacticínios açorianos tem baixo valor acrescentado, havendo ainda uma insuficiente promoção e valorização dos seus produtos de referência com qualidade diferenciada, como os 2 queijos regionais DOP, a manteiga e o leite líquido UHT. O queijo S. Jorge representa, em quantidade, cerca de 60% da produção total nacional de queijos DOP, mas é aquele que apresenta a menor cotação no mercado, ao que não será alheio o facto de ser um queijo de vaca, tradicionalmente menos valorizado que os queijos fabricados com leites de cabra e ovelha. O “Queijo do Pico”, não tem registado, infelizmente, produção e comercialização, o que o coloca à beira da extinção, justificando-se um esforço especial e urgente no sentido de o preservar.
Um dos dramas da comercialização dos lacticínios dos Açores é - uma vez que cerca de 87% do leite é constituído por água - fazer face aos custos de transporte para os seus principais mercados, sobretudo para Lisboa. Daí que a opção seja a concentração em matéria sólida e que não seja de espantar que mais 80% dos lacticínios dos Açores sejam constituídos por sólidos do leite: queijo (52,6%), essencialmente queijo flamengo, e leite em pó (27,5%), o mais pobre dos lacticínios em termos de valor acrescentado e o mais dependente de energia fóssil. Será isto sustentável? Claro que não! Aumentos bruscos do preço da energia, como recentemente aconteceu, poderão colocar em causa de um dia para o outro a sustentabilidade económica desta indústria.


Ora, uma forma de absorver no produto os custos de transporte será acrescentar-lhe mais valor, inovando, diversificando, fraccionando-o. Existe certamente um grande potencial para produzir novas variedades de queijo, produtos fermentados do leite, sobremesas, leites modificados, gelados, lacticínios destinados a grupos específicos de consumidores: pediátricos, geriátricos, para grávidas, jovens em crescimento, atletas, etc.
Os gelados, considerados em alguns países um produto “dairy”, são o lacticínio com maior taxa de crescimentos no seu consumo e maior valor acrescentado Dada a preocupação com o fenómeno da obesidade e com as doenças nutricionais, há a necessidade de desenvolver novas variedades “light”, por exemplo, a partir do iogurte, do soro em pó, com incorporação de frutos locais, com flora activa - mais adequados a uma nutrição equilibrada, em particular dos jovens, sem lhe retirar o prazer no momento de consumo.
O consumo de leites suplementados ou modificados, pela adição de minerais (Cálcio); ácidos gordos (omega3; CLA); vitaminas (Ex.:vitamina D); com flora activa (Por ex. Lactobacillus acidophilus, no leite dito acidófilo); extracto de plantas (aloés); leite achocolatado, rico em proteínas do soro (lactoalbumina; lactoglobulina; lactoferrina) tem vindo aumentar nos últimos anos. Estes processamentos tendem a acrescentar muito valor à matéria-prima, viabilizando o suporte dos custos a grandes distâncias.
Outra forma de acrescentar valor será através de novas embalagens, mais apelativas, fraccionando-se o produto, em doses individuais, adequadas à confecção de pratos rápidos. São exemplos o queijo fatiado; ripado; ralado; os iogurtes bicompartimentados; o leite chocolatado enriquecido, em embalagem em dose individual e de fácil consumo.
Os produtos com selo DOP ou IGP (Indicação Geográfica Protegida) acrescentam valor comercial aos alimentos, pois o consumidor relaciona facilmente estes produtos com a imagem cultural e ambiental de uma determinada região, garantia de virtudes relacionadas com as origens, as raízes, uma certa forma de fazer mais natural, por isso mais genuína! O conceito, recente, de Indicação Geográfica Protegida (IGP) denominada “Carne dos Açores”, deveria, com mais propriedade, ser aplicado ao “Leite dos Açores”, o que daria um contributo importante para uma maior valorização do nosso leite possibilitando níveis de organização e integração destas duas fileiras- de si intimamente relacionadas ao nível da produção - essenciais à afirmação de uma imagem no mercado que permita a qualificação e valorização destes produtos ao nível do seu próprio mérito. A este respeito a recente abertura na baixa lisboeta de uma loja gourmet de produtos açorianos é de louvar e incentivar.
(*) Professor Catedrático da Universidade dos Açores
Síntese baseada numa comunicação apresentada ao 9º Encontro de Química dos Alimentos QUALIDADE E SUSTENTABILIDADE - UMA ABORDAGEM INTEGRADA. Angra do Heroísmo. 29 de Abril a 2 de Maio 2009

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sexta-feira, junho 12, 2009

Sustentabilidade da Produção Leiteira nos Açores

José Estevam da Silveira Matos(*)


A noção de sustentabilidade, aplicada aos processos de produção agrícola, tem vindo a impor novos desafios ao desenvolvimento da pecuária, tornando-se mesmo determinante das estratégias do seu desenvolvimento. Importará então saber – com base numa noção de sustentabilidade construída a partir de 3 diferentes dimensões: social (Capital Humano, cultural e a política); económica (eficiência, competitividade); ambiental (solo, água, qualidade do ar; biodiversidade, paisagem) - se o actual modelo de produção leiteira praticado nos Açores é, ou não, sustentável a médio-longo prazo - face às mudanças de paradigma associadas à globalização dos mercados, à grande instabilidade económica, à emergência de novos mercados, às novas energias, etc.Abordaremos cada uma destas dimensões em capítulos separados.
CAPÍTULO I - A DIMENSÃO SOCIALO CAPITAL HUMANOAs práticas da agricultura, em particular a produção leiteira, são mão-de-obra intensiva, exigentes em mão-de-obra jovem e saudável, dada a exigência de uma actividade física intensa, 365 dias por ano, quase sempre sobre condições adversas no caso dos Açores.Um dos factores de instabilidade no sector é representado pelo franco envelhecimento da população agrícola e a diminuição drástica do número de agricultores, com a eventual deslocação das explorações para zonas mais populosas, “mais favoráveis”, com a consequente desertificação das regiões mais remotas. Embora a diminuição do número de produtores de leite tenha sido acompanhado pelo aumento da dimensão média das explorações e o aumento da produção de leite por exploração, há que garantir que as explorações leiteiras do futuro sejam geridas por profissionais agricultores mais jovens e mais qualificados e que os recursos disponíveis, nomeadamente os solos e as pastagens, sejam explorados de forma sustentável , quer o sejam através da vaca leiteira quer da dos bovinos de carne ou através dos pequenos ruminantes: a cabra e a ovelha.
Comparativamente com o todo Nacional, os Açores têm uma maior percentagem de jovens; e uma menor percentagem de idosos mas com uma menor percentagem de indivíduos em idade activa (dos 15 aos 64 anos). Mas, as médias podem ser enganadoras uma vez que os Açores são, também neste aspecto, 9 realidades territoriais diferentes.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (Estimativas da População Residente, de 2006) indicam que entre 2005 e 2006, o Índice de Envelhecimento da população açoriana voltou a aumentar, passando de 63,4 para 64,4, mesmo assim, este indicador é inferior ao do país, que é de 111,7. Mas analisando o que se passa nas diversas ilhas, a perspectiva é bastante menos animadora, pois, algumas ilhas estão a envelhecer acentuadamente (Quadro 1). A média Regional é claramente influenciada pela população da Ilha de S. Miguel, que constitui a maior percentagem da população das ilhas.
QUADRO 1. População residente nos Açores e seu envelhecimento – comparação com o todo Nacional TOTAL 2001 Índice de envelhecimento1991-2001
PORTUGAL 10,5 milhões 111,7AÇORES 243.018 64,4Corvo 468 193,2Lajes das Flores 1.513 133,3Santa Cruz das Flores 2.546 113,0Lajes do Pico 4.772 148,5São Roque do Pico 3.776 136,4Madalena 6.258 135,2Calheta 3.906 126,9Velas 5.598 108,1Santa Cruz da Graciosa 4.838 137,2Horta 15.426 86,4Angra do Heroísmo 35.115 78,3Vila da Praia da Vitória 20.582 72,4Povoação 6.771 72,5Nordeste 5.276 96,4Vila Franca do Campo 11.089 50,2Ponta Delgada 64.384 49,2Lagoa 15.139 41,3Ribeira Grande 30.012 34,6Vila do Porto 5.549 68,0FONTE: INE, Estimativas da População Residente - 2006
Mais preocupante ainda se torna se analisarmos a variação percentual da população por grupos etários (Quadro 2). Destacamos aqui nesta análise o grupo dos mais jovens (0-14 anos), acentuando o facto da variação ocorrida entre o censos de 1991 e 2001 ser negativa em todas as ilhas, mais acentuadamente em S. Jorge (-28,5%); Flores (-28,3%); Santa Maria (-27,3%); Graciosa (-23,5%); Corvo (-22,9%); Faial (-22,6%). Apenas S. Miguel apresenta uma evolução percentual um pouco melhor do que a Nacional (-16%), embora também negativa (-15%).
QUADRO 2. Variação Percentual da População Residente por grupos etários (1991/2001)
GRUPOS ETÁRIOS 0-14 15-24 25-64 >=65PORTUGAL -16 -8,1 11,8 26,1AÇORES -17,6 2,9 11,6 5,5CORVO -22,9 47,9 22,3 15,6FLORES -28,3 -1,7 1,5 -11,0PICO -20,9 0,2 3,5 -0,6S.JORGE -28,5 -2,0 0,5 9,3GRACIOSA -23,5 1,3 -5,6 -3,2FAIAL -22,6 7,2 13,1 -5,4TERCEIRA -18,4 5,5 6,3 6,6S.MIGUEL -15 2 18 9,7SANTA MARIA -27,3 8,1 -0,8 5,9
Este envelhecimento da população tem levado algumas das ilhas a optarem por sistemas de produção pecuária muito extensivos, por exemplo por produção de carne, com produtividades menores - diríamos que mesmo por sistemas de semi-abandono das terras.
Apesar do número de explorações leiteiras não ter cessado de diminuir nos últimos anos nos Açores, passando de 9712, em 1985, para 3.537, em 2007/08, a produção de leite aumentou substancialmente, de cerca de 381.000 toneladas, em 1996/97, para 538.000, em 2007/08 (+41,2%), concentrando-se esta produção essencialmente nas Ilhas de S. Miguel e da Terceira (87%).
Acresce ao problema da desertificação e do envelhecimento dos agricultores o baixo nível de instrução e da sua formação profissional, embora exista nas ilhas de S. Miguel e Terceira uma franja importante de agricultura profissionalizada, com lavouras prósperas, tecnicamente evoluídas.
CONSEQUÊNCIAS AMBIENTAiS DA DESERTIFICAÇÃO

O nosso ambiente, dito “natural”, não passa de um imenso jardim, amanhado por várias gerações, que levantaram paredes, muitas vezes à luz do luar, roçaram silvados e outras ervas daninhas. Sem estes amanhos constantes as tão admiradas hortênsias (Hidrangea macrophyla), o incenso (Pittosporum undulatum) e a roca-de-velha (Hedychium gardnerarum) - que são plantas exóticas, mas que por cá se dão excepcionalmente bem - seriam pragas ainda mais generalizadas. A multiplicação, desgovernada destas espécies, estranhas, é responsável pela extinção de espécies endémicas, já hoje raras, e que fazem parte do nosso património natural.
A diminuição da população agrícola, conjugada com o seu relativo envelhecimento, a continuar nos próximos anos, inviabilizará, por exemplo, qualquer política da recuperação das vinhas da Ilha do Pico, classificadas como Património Mundial pela UNESCO. A recuperação destas vinhas só será então possível com o recurso a mão de obra imigrante.
CONSEQUÊNCIAS CULTURAISA forte ruralidade da RAA está bem patente na identidade cultural do povo açoriano, na ocupação do território e nas paisagens características das ilhas – aspecto também relevante para o desenvolvimento do emergente sector do turismo.
As grandes referências cultura açoriana, como as festas do Divino Espírito Santo (a grande festa da partilha da abundância gerada pela terra), o Carnaval da Terceira, o folclore, a tourada à corda, tradições cuja matriz é profundamente rural, terão a perder com a desertificação humana da agricultura de algumas das nossas ilhas.
Também, por isso mesmo, o turismo que queremos tanto desenvolver será também prejudicado pois, quer os aspectos ambientais, quer os culturais, lhe dizem respeito.
Há portanto que entender que a actividade agrícola é mais do que simplesmente um sector económico, percebendo-se a riqueza do conceito da sua multifuncionalidade, a importância que ela tem para potenciar o desenvolvimento de outros sectores da actividade económica; como o turismo, a preservação da paisagem, enquanto valor cultural, a conservação dos recursos naturais (água, solo, biodiversidade e outros), a segurança alimentar, das próprias famílias e da sociedade. Para que o sector continue a desempenhar estas diversas funções, todas igualmente úteis e importantes, existem grandes desafios para a sua continuidade, na busca de um equilíbrio entre a tradição e a constante necessidade de inovação e que os fenómenos de desertificação e envelhecimento demográfico de algumas das ilhas acarretarão consigo mais do que a perca de produção de uns milhares de litros de leite ou toneladas de carne.
OS DESAFIOS POLÍTICOSAS INCERTEZAS DA PAC A possibilidade de as quotas acabarem em 2015, ou mesmo antes (?!!!), a demora na definição de um prazo exacto, a indefinição no regime de transição, na maior ou menor “suavidade na aterragem”, coloca os produtores de leite europeus perante uma grande dificuldade de planeamento das suas explorações a médio/longo prazo, uma vez que estes se adaptam com grande dificuldade a mudanças súbitas de rumo, dada o grande compasso dos ciclos naturais com que tem que lidar. Certo é que o fim da quota leiteira, num quadro de maior competição global, e de retracção dos consumos, terá como consequência previsível um aumento da produção de leite na União Europeia, um aumento da dimensão das explorações e obviamente a uma diminuição substancial dos preços do leite ao produtor. Este sector é, por tradição, muito dinâmico nas respostas, ou na exploração de novas oportunidades, tendo mesmo sido vítima no passado do seu próprio dinamismo.
(*) Professor Catedrático da Universidade dos Açores
Síntese baseada numa comunicação apresentada ao 9º Encontro de Química dos Alimentos QUALIDADE E SUSTENTABILIDADE - UMA ABORDAGEM INTEGRADA. Angra do Heroísmo. 29 de Abril a 2 de Maio 2009

(in Diário Insular)

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domingo, maio 03, 2009

“Vêm aí coisas más” para o sector do leite

“Cem quilos de leite padrão são pagos, nos Açores, a 28 euros e 23 cêntimos, enquanto o preço médio praticado na Europa é de 28 euros e 84 cêntimos. Com preços bastante mais baixos praticados nos Estados Unidos e na Nova Zelândia, vêm aí coisas más para o nosso sector do leite. Esperam-se mais baixas de preço, para manter a competitividade, ao longo deste ano”. As palavras são do professor da Universidade dos Açores, José Matos, que falava, ontem, no “9º Encontro de Química dos Alimentos”. De acordo com o especialista em matérias ligadas ao sector do leite, os produtores podem mesmo esperar “descidas de preço ainda mais graves” que as verificadas até ao momento.Na comunicação que apresentou no encontro, José Matos defendeu várias medidas para fortalecer o sector de leite nos Açores, nomeadamente a aposta na criação de um leite de Identificação Geográfica Protegida e até a comercialização de leite biológico. Matos lembra que o modelo de produção em vigor nos Açores já se “aproxima muito do biológico”. Para a implementação deste tipo de leite no mercado português, seria necessário, segundo o especialista, investir em estratégias de marketing, criar incentivos financeiros e serviços de inspecção eficazes, entre outras medidas.Além disso, o professor universitário defende a transformação do leite em produtos com valor acrescentado, direccionados para mercados específicos, como o geriátrico ou o pediátrico.

(in Diário Insular)

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quinta-feira, abril 23, 2009

São as pequenas fábricas que produzem gourmet

ANABELA GOMES: “Não se pode continuar a permitir que o leite (…) (sem qualidade) contamine o leite dos lavradores que o produzem com qualidade”

Considera oportuno o aparecimento de uma nova marca de lacticínios nos Açores (em particular na Terceira)?

Todas as iniciativas que tenham por finalidade criar uma maior diversificação de produtos e de maior valor acrescentados são bem vindas. São as pequenas fábricas que realmente podem criar produtos gourmet para nichos de mercado mais exigentes.

Considera então que os produtores que aderirem a esta nova linha de lacticínios têm perspectivas de ver o seu leite melhor pago?

Para me poder pronunciar sobre o sucesso de uma iniciativa deste género teria que saber qual o nível de tecnologia da nova unidade e qual o plano de projecção nos mercados. Não se fazem produtos de elevada qualidade sem que toda a cadeia de produção esteja altamente sensibilizada para o conceito de qualidade e sem que haja pessoas muito competentes a apoiar o processo, cujas opiniões sejam respeitadas.

Do que tem ouvido na comunicação social, que conclusões pode tirar sobre as características da nova unidade?

Que quer produzir produtos de elevado valor acrescentado para poder pagar melhor aos produtores. Mas querer não é poder… A grelha de classificação do leite em vigor tem uma particularidade, só os produtores que produzem leite de qualidade, com elevada quantidade de sólidos e elevados padrões de higiene têm o leite bem pago, os outros nem por isso. Sei de um produtor que o ano passado recebeu leite a 32,76 cêntimos, se incluirmos o subsídio de refrigeração e adicional, chegou a 36,16 cêntimos. Este é um bom preço. Agora baixou cerca de 4,5 cêntimos, mas também o gasóleo e as rações baixaram de preço, embora outros produtos, como por exemplo os adubos, continuem muito caros e vão ter que ser usados com maior critério.

Podemos concluir o quê?

Que os promotores da nova linha de produção estão descontentes com o preço do leite e que de alguma forma esperam melhorá-lo. Mas uma coisa é certa, lacticínios de qualidade só se fazem se o leite chegar à fábrica com qualidade. Dentro da fábrica não há nenhum processo que melhore a qualidade do leite.

Que recomendações faria aos lavradores?

Que ter o leite melhor pago está nas suas mãos. Se não conseguem produzi-lo com a qualidade adequada devem pedir ajuda urgentemente ou pensar numa saída. Não se pode continuar a permitir que o leite destes contamine o leite dos lavradores que o produzem com qualidade. E que contribua para a menor qualidade dos nossos produtos. Hoje em dia a segurança alimentar é fundamental.

(in Diário Insular)

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quinta-feira, março 05, 2009

Lavoura responsável

António Almeida
A natural polémica que acontece sempre que se discute o preço de leite aos produtores é sempre propícia ao aprofundamento das questões relativas ao sector de lacticínios dos Açores, acrescentando mais informação sobre a situação dos agricultores, das indústrias transformadoras e do funcionamento dos mercados. Numa economia que funciona a formação dos preços resulta de um vasto conjunto de factores e acompanha os fenómenos externos à vontade dos protagonistas onde o mercado mundial dita regras muitas vezes difíceis de contrariar. Saber estar nesse mercado de forma equilibrada e justa não é uma tarefa fácil. A compreensão manifestada pelas cooperativas associadas da Unileite e pelos fornecedores de leite face ao ajustamento dos preços decorrente da sazonalidade, com a redução para o preço de verão, é certamente uma atitude responsável, de quem está informado e compreende o funcionamento do mercado. O facto dos actuais dirigentes da Unileite terem assumido sempre, perante os associados e fornecedores, o discurso verdadeiro e condicionado ao aumento quanto o mercado justifica e a reduzir quando o mercado obriga e disponibilizando toda a informação que permita entender as circunstâncias a cada momento tem permitido contribuir para o fortalecimento de uma atitude responsável num sector com a sensibilidade que a produção de leite e lacticínios têm nos Açores. Segundo indicadores actuais disponibilizados na recente reunião da Unileite o preço de leite está ao nível dos valores praticados na União Europeia o que significa um grande esforço de convergência, que nem sempre é exequível face aos condicionalismos regionais. Se todas as partes cumprirem com a sua responsabilidade, com a lavoura a produzir leite de qualidade, mas com a indústria a pagar de forma justa essa qualidade apenas importa que o governo disponibilize os fundos da União Europeia com a eficácia necessária para acelerar o processo de reestruturação e modernização das explorações leiteiras, das indústrias e também na promoção e valorização dos produtos lácteos no mercado.Por outro lado os apoios e o esforço financeiro e técnico dedicado à investigação e inovação são reduzidos face à importância do sector para os Açores e aos desafios que enfrenta. Nesta matéria ainda existem muitos degraus a subir quer através do recurso a instituições como a Universidade dos Açores quer estimulando a realização de estudos técnicos participada por entidades externas de reconhecida idoneidade. Diálogo permanente e verdadeiro, procurando disponibilizar toda a informação que justifica as boas e as mais difíceis decisões são a melhor receita para manter a estabilidade e para procurar as soluções adequadas para os problemas emergentes dos lacticínios dos Açores. Situação que parece acontecer apenas quando o preço do leite está em discussão. É preciso começar a entender que a competitividade da produção e da indústria deve também ser medida e conseguida através de outros factores para além do preço da matéria prima.
(In Açoriano Oriental)

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

Leite indexado

Uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor é urgente para que sejam tratadas as questões verdadeiramente importantes para o sector, defende o professor do Departamento de Ciências Agrárias do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, José Matos, numa entrevista em que alerta para a necessidade de “falar verdade” à lavoura e para a ameaça vinda de Espanha.

Já defende uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor há vários anos. Recentemente foi anunciado que Governo Regional, associações agrícolas e indústria vão entrar em negociações para esse efeito. Espera que a fórmula vá de facto em frente?
Para mim essa não é uma grande questão, há outras bem mais importantes no sector. A minha sugestão foi sempre no sentido de afastar no caminho das questões importantes a discussão do preço, que é mais do que anual, é bianual. Essa discussão dos preços tem o condão, muitas vezes, de azedar o debate de temas importantes, que exigem que lavoura, Governo, indústria e até a Universidade dos Açores, estejam coesos na defesa de interesses comuns. Veja-se o que tem acontecido com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Tem sido esta questão que tem azedado aquilo que é importante fazer no âmbito deste centro.
Este é um problema quase eterno. Porque é que não se deu o passo para o resolver mais cedo?
É verdade. A questão do preço entre o comprador e o vendedor é uma questão eterna. O que vende quer receber mais. O que paga quer pagar menos. É o funcionamento do mercado, sempre foi assim. Nasci numa exploração leiteira, o meu pai era produtor de leite e também assisti desde pequeno a este debate. Não é nada de novo a guerra dos preços. O que há de anormal é que não se procure encontrar uma fórmula matemática de resolver este problema. Se é um problema que tem a ver sistematicamente com a flutuação dos preços no mercado, obviamente é possível através de uma equação matemática que essa flutuação de preços se repercuta no preço pago ao produtor. Umas vezes para bem, outras para mal, obviamente.
A lavoura pode cair em alguma armadilha nesta negociação de uma fórmula indexante?
Como tudo na vida e também nesta questão, há sempre um lado positivo e negativo. Com uma indexação, existirão também aspectos menos positivos. Há que garantir, quer para a indústria, como para o produtor, que os aspectos negativos não sejam muito pesados. Não queremos a indústria nem a produção falidas. É necessário que à volta desta questão da fórmula haja um debate muito sério.
A Universidade dos Açores tem um papel neste debate?
Alguns especialistas da UA, nomeadamente na área da matemática, podem tê-lo. Mas a intervenção dos investigadores da área agrícola até seria contraproducente.
Porquê?
É a velha questão que tem também a ver com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Os investigadores, os técnicos que podem dar apoio quer à produção como à indústria não devem estar envolvidos nesta questão do debate do preço. Isso é trazer algum elemento de desconfiança em relação a pessoas com as quais quer a lavoura como a indústria têm de manter uma relação de confiança absoluta.
Um representante da UNICOL já avançou que existe uma posição de princípio contra a fixação administrativa de preços…
Sei que há esse cepticismo e que isto é de certa forma julgado como uma fixação administrativa do preço do leite. Não é o que defendo. Cada fábrica pode defender a sua própria fórmula e garantir a concorrência. O que é certo é que nas nossas ilhas, muitas vezes, ou há monopólio ou não há possibilidade de fazer funcionar as regras do mercado. Seria bom que as regras do mercado funcionassem.
O que é exactamente esta fórmula indexante? Como funcionaria?
Pode funcionar em função de diversos factores, que podem contribuir para uma fórmula única. Mas essa fórmula seria depois ajustada em função da produção e transformação de cada indústria. Admito que numa indústria que tenha como transformação leite em pó a fórmula deva ter isso em consideração, como no caso de outra que produza leite líquido ou iogurtes. Não é isso que está em questão. São permitidas nuances quanto a ilhas e fábricas… Não é difícil, os matemáticos encarregar-se-ão disso.
Com esta fórmula a lavoura açoriana seria muito diferente?
Não. A fórmula é um factor menor. A lavoura açoriana seria muito mais beneficiada pela resolução de heranças do passado. A montante, a nível da produção há a questão da discussão da propriedade, a dispersão das explorações… Ainda mais tendo em conta que há uma dinâmica que leva à diminuição do número de produtores, o que ajuda a resolver estes problemas. Neste momento é mais necessário e mais fácil encará-los do que nunca, porque o número de produtores decresceu incomparavelmente e será mais fácil negociar, não há laços afectivos tão grandes à propriedade... Desde que temos quotas leiteiras, o número de produtores caiu para metade. Existem hoje perto de 800 produtores de leite na Terceira. Eu presumo que nos próximos 10 anos fiquemos apenas com metade dos que temos actualmente.
Este decréscimo é assustador ou pode, pelo contrário, ser positivo?
Não é nada assustador! No espaço de 15 anos a lavoura quintuplicou a produção de leite nos Açores, embora o número de produtores tenha baixado para metade. Existem explorações maiores, mais eficientes, mais empresariais, com outros tipos de tecnologias. A qualidade do leite tem melhorado e presumo que melhore ainda mais. O que é preocupante é que nalgumas ilhas, por problemas demográficos, de envelhecimento da população, a produção de leite esteja a desaparecer. É o caso do Pico, Flores, Faial. É pena que não existam políticas que tentem contornar este fenómeno, que é muito forte.
Mesmo com o esvaziamento destas ilhas, a produção de leite vai ser sempre o grande sector da economia açoriana?
Sem dúvida nenhuma. Acima de determinada altitude, a produção de pastagem, valorizada pela produção de leite, é a melhor aposta. Tendo isto em atenção, percebe-se que em algumas ilhas não haverá agricultura sem vaca leiteira. E sem agricultura não me parece muito fácil sustentar um determinado número populacional que justifique outras actividades económicas. É o caso do turismo. Não é possível ter turismo sem famílias. Os picarotos dedicavam-se à agricultura e à caça à baleia. Hoje, muitos dividem-se entre a agricultura e alguns serviços ao turismo. Não colocam os ovos todos no mesmo cesto… A agricultura é a base, a raiz do sustento da população. Agora, nalgumas ilhas, com o envelhecimento das populações, encaro com preocupação se, sem agricultura, vai ser possível manter outros serviços e actividades. Veja-se o que aconteceu no Continente. À medida que a agricultura foi desaparecendo do país, as populações migraram para os grandes centros. Nos Açores ainda se vai a tempo de se tentar travar este processo. Um dos aspectos importantes é garantir que a agricultura se mantenha viável.
O cenário que a lavoura traça nesta altura é muito negro. A Associação Agrícola da Ilha Terceira avisa que muitas explorações poderão entrar em falência. É mesmo assim ou trata-se apenas de uma fase?
Gostaria de prever que é apenas uma fase muito transitória. Há uma grande instabilidade dos mercados a nível mundial e os lacticínios estão nesse contexto. Em 2007 essa instabilidade fez com que os preços disparassem, com uma maior procura da China e Índia e menor produção da Nova Zelândia e a Austrália. Dessa euforia passou-se para a vaga de retorno. Há menor consumo nos mercados asiáticos e este ano a Austrália e Nova Zelândia já recuperaram. O ano de 2007 foi eufórico, mas o preço do leite em pó já desceu para metade. Isto tem impacto a nível global e local. O consumo diminuiu também…
Mas esta é uma fase ou é mesmo o cenário com que a lavoura tem de lidar?
Da mesma forma que 2007 foi eufórico, 2008 teve um dinamismo muito negativo. Penso que a meados deste ano as circunstâncias melhorem. Nunca veremos preços como os de 2007. Há no entanto outro elemento de instabilidade, que é a Política Agrícola Comum e o fim das quotas leiteiras em 2015. Achei sempre muito estranho que se defendesse que a quota acabasse, mas parece que agora todos acham que a quota é importante. Isto porque é fácil perceber que o nosso principal concorrente em termos de mercado é a Espanha que, quando negociou as suas quotas, negociou abaixo das suas necessidades. Os Açores fizeram o contrário, foram claramente beneficiados, o que permitiu o crescimento do sector. Espanha é agora obrigada a comprar leite em Portugal. No momento em que a quota acabar, os espanhóis vão tornar-se excedentários na produção de leite e vão invadir o mercado português, nomeadamente o mercado de Lisboa, que é o mais importante para os lacticínios dos Açores. Logo a seguir a esta crise deveremos ter outro embate e temos de cuidar muito da competitividade do nosso sector.
Está-se a fazer o suficiente?
O fim das quotas do espaço da União Europeia é já em 2015…Está-se a fazer algumas coisas. Os próprios produtores estão, por exemplo, a cuidar da rentabilidade do seu processo produtivo, tratando, assim, também da competitividade do sector. Agora, com a entrada de Espanha no jogo, os produtores açorianos terão de produzir mais barato, é preciso dizer isso desde já.
Essa é uma mensagem dura para a lavoura…
Certo que sim, mas estamos numa altura em que há necessidade de falar com verdade, não dourar a pílula. É preferíveis termos uma pílula amarga e defendermos o nosso sector, desde o Governo, lavoura, políticos e universitários, sabendo que vêm dias maus. Temos muitos problemas, nomeadamente a nível de transformação e inovação.
Os produtos transformados dos Açores não são aliciantes neste mercado que se avizinha?
Têm sido o garante do crescimento do sector nos Açores, mas penso que não o continuarão a ser. Na Nova Zelândia, que tem muitas características semelhantes às dos Açores, a maior cooperativa de produção de lacticínios do país invadia o mercado mundial com um queijo. Neste momento tem 10. Oferece bebidas, produtos fermentados, com vários aspectos. Muitas vezes é o mesmo produto, com outra imagem. Temos de diversificar e aproveitar tecnologias de marketing.
Que peso tem a marca Açores?
Tem um peso enorme. É conhecida a qualidade do nosso processo produtivo. Sabe-se que as vacas andam livres, em pastagem, que têm uma alimentação natural. Todos no Continente conhecem essa imagem. Falta jogar totalmente esse grande trunfo. Todos nós conhecemos os anúncios de uma empresa do Continente que vende leite líquido como sendo natural, com animais em pastagem, até se vêem algumas imagens que parecem filmadas nos Açores. Fomos claramente ultrapassados por essa campanha de marketing. Agora, se surgirmos com algo semelhante, será sempre uma imitação. Devíamos ter feito isto há uns cinco anos atrás. Há claramente aqui uma corrida atrás do tempo. Que é preciso fazer.
(In DI-Revista)

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quinta-feira, janeiro 08, 2009

LEITE BIOLÓGICO E UHT - Lavradores querem construir nova fábrica de lacticínios

A Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT) está a preparar um estudo económico para avançar com a construção de uma fábrica de lacticínios para produzir leite biológico e UHT.
O recente abaixamento no preço ao produtor terceirense e “a necessidade de se criarem novos produtos com o nome da ilha” levam a Associação a ponderar seriamente a hipótese de entrar no “negócio”.Paulo Simões Ferreira, presidente da AAIT, julga ser possível criar novos produtos e apostar na marca “Açores” e na qualidade do leite da ilha. Esta associação de agricultores garante que já encontrou eventuais mercados para quantidades projectadas.Apesar do projecto ainda estar numa “fase embrionária”, a AAIT já definiu que o leite biológico será vendido no mercado nacional e o leite UHT será comercializado preferencialmente no mercado internacional. Neste projecto, os agricultores contam com o apoio da Comunidade Europeia e do governo regional. Contudo vão tentar sensibilizar a Universidade dos Açores para prestarem o apoio técnico. “Queremos vender o melhor que o Açores produzem e criar novos canais para escoar os produtos da ilha”, referiu, ao nosso jornal, Paulo Simões. A capacidade científica do Departamento de Ciências Agrárias, da Universidade dos Açores, “é reconhecida e num projecto desta natureza é fundamental”. A universidade já, por várias vezes, admitiu ter "capacidades técnicas" para desenvolver estudos e trabalhos que contribuem para a modernização da actividade agro-pecuária.Além do trabalho de avaliação, este Departamento universitário tem ainda capacidade de apresentar “propostas para a introdução de inovações e diversificação das produções que valorizem os produtos regionais”. Segundo conseguimos apurar, a Associação Agrícola já começou a reunir com algumas entidades para apurar a viabilidade deste investimento.Entretanto, os representantes da agricultura açoriana e Governo Regional vão reunir para discutirem o Plano Anual para 2009 e as orientações a médio prazo para o período 2008-2012.O reforço dos apoios à agricultura açoriana será uma das questões a abordar neste encontro. A Federação Agrícola dos Açores já defendeu a necessidade de um aumento substancial nas verbas destinadas a apoiar os investimentos na lavoura açoriana.
IFAP já pagou apoios da campanha
O IFAP - Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas já efectuou pagamentos aos agricultores de 494 milhões de euros referentes à campanha 2008-2009, segundo dados disponíveis no site do instituto.A informação, actualizada a 29 de Dezembro, aponta para a transferência de ajudas no continente num total de 494,079 milhões de euros, sendo a maior parcela a da primeira parte do Regime de Pagamento Único (RPU), com 301,591 milhões de euros.Este pagamento do RPU foi efectuado a 23 de Dezembro, dentro do prazo estipulado no calendário divulgado pelo IFAP - Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas.A maior parte dos pagamentos já realizados foi concretizada durante Dezembro.Para a manutenção da actividade agrícola em zonas desfavorecidas, o IFAP já pagou um adiantamento (até 70 por cento) de 73,2 milhões de euros.O adiantamento de 60 por cento da ajuda a vacas aleitantes, efectuada, segundo a informação do IFAP, no início de Dezembro, atingiu 41,4 milhões de euros, enquanto o primeiro pagamento aos produtores de ovinos e caprinos chegou aos 21,9 milhões de euros. O prémio específico ao arroz foi de 8,6 milhões de euros.O calendário apresentado pelo IFAP revela também que o último pagamento efectuado foi a ajuda transitória ao tomate, a 26 de Dezembro, num montante de cerca de 11 milhões de euros.

(In A União)

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terça-feira, janeiro 06, 2009

Leite precisa de concorrência

Para o presidente da AAIT, a Pronicol (que transforma o leite produzido na Terceira) é “o parente pobre do grupo Lactogal”. Daí que as mais-valias reconhecidas ao leite terceirense não estejam a ser rentabilizadas. Paulo Simões diz que é tempo deste modelo ser repensado. E que são necessárias alternativas. No leite. Mas também na carne.
Os lavradores terceirenses não têm qualquer influência na comercialização do leite que produzem. Há, em sua opinião, alguma forma de garantir aos produtores mais alguns ganhos, que, hoje, se perdem entre a transformação e a comercialização?
Existem várias formas. Penso, aliás, que é tempo de se começar a pensar noutras soluções para o leite da ilha Terceira, que não a que temos actualmente. Temos duas queijarias privadas na ilha, que, pelo que sabemos, têm a sua produção vendida. Mas o grosso da produção é absorvido pela Pronicol, através de uma parceria de venda com a Unicol. Essa produção resulta em produtos sem marca que poucas valias trazem. Penso que a própria Unicol terá de repensar a sua posição junto da Pronicol e começar a avançar para uma produção com a marca Açores, uma marca que vende lá fora. Sabemos que os produtos produzidos na Região e com a marca Açores são alvo de apoios importantes, sobretudo ao nível do transporte. Sendo tudo isto mais-valias que não estão a ser aproveitadas.
O que falta para isso acontecer?
Falta aparecer outra empresa que queira transformar leite da Terceira da mesma forma que o faz a Lactaçores, que absorve leite produzido em São Miguel, em São Jorge e no Faial.
Houve algum episódio de quem tenha manifestado intenção de explorar uma unidade de produção na Terceira, para lá da Pronicol?
Há uns anos, tivemos cá empresários que manifestaram a intenção de construir na Terceira uma unidade de transformação de leite. Mas, na altura, o que travou o processo foi a inexistência de produtores que abastecessem essa fábrica. Pelo que sei, terá sido dito por alguém com ligações à Unicol que quem deixasse de vender o seu leite à cooperativa que se as coisas corressem mal não havia regresso. A experiência ficou por aí, porque nenhum produtor quis arriscar.
Seria viável uma solução em que um grupo de produtores se associasse e, através de uma parceria público-privada, um conjunto de gestores profissionais orientasse a transformação e, sobretudo, a comercialização?
A ideia poderia vingar. Mas duvido da eficácia de uma parceria público-privada num projecto dessa natureza. Acredito mais na possibilidade de uma solução cooperativa ou privada.
Falta concorrência na transformação e na comercialização dos produtos agrícolas da ilha?
Pode-se dizer que sim. Mas também não nos podemos esquecer que a Unicol é uma cooperativa…


E funciona como tal?
Mais ou menos. Penso que a Unicol tem feito um bom trabalho junto dos agricultores, garantindo-lhes factores de produção a preços razoáveis. Não nos podemos esquecer desse seu papel. Relativamente ao leite, a Unicol, em boa verdade, faz o que pode. Percebo a sua direcção, que se encontra numa posição ingrata: fazem parte da empresa que lhes compra o leite e não têm a maioria nela, sujeitando-se à vontade de outros…
Voltando à falta de concorrência…
É o que lhe dizia: pode dizer-se que a falta de concorrência da transformação causa problemas ao sector. Mas a situação é complexa…
A Associação Agrícola da Terceira poderia ter uma palavra a dizer na transformação e comercialização?
Por que não? A Associação tem vindo a firmar-se como uma prestadora de serviços. E já foi contactada diversas vezes para servir como fornecedora de produtos agrícolas. Daí que já tenhamos pensado em avançar por esse trilho…
Mas a AAIT teria capacidade de se colocar no mercado como uma alternativa comercial?
Acho que poderia ter um papel nesse circuito. Poderia começar-se de baixo, com um pequeno projecto produtivo, aproveitando as estruturas que existem na ilha. Quer para a carne quer para o leite. Estas infra-estruturas existem, mas não estão a dar a resposta esperada pelos produtores. E a AAIT pode inverter essa situação.
Como?
Por exemplo, a associação poderia formar uma pequena cooperativa que comprasse leite e, recorrendo à aquisição de um tanque de frio, uma máquina de pasteurização e outra de empacotamento, poderia colocar no mercado um produto com uma marca diferenciada, que reflectisse as mais valias do leite produzido na ilha. Há apoios governamentais para estas estruturas. E poderíamos avançar para uma comercialização num trajecto de dentro para fora. E esse fora deveria ser para lá da Europa, nomeadamente para África, que procura leite e carne. É uma ideia. Temos conversado na AAIT sobre ela. Claro que falamos aqui numa ajuda, um complemento, e não numa alternativa ao que existe.
Porque a Terceira perdeu as suas marcas?
Perdeu-as a partir do dia em que a Unicol fez a parceria com o grupo Lactogal, através da empresa Pronicol. A Unicol detém 49 por cento da Pronicol, não tendo, por isso, poder dentro da estrutura decisiva. Esta solução apareceu numa altura em que a Unicol atravessava graves problemas financeiros, com muitos lavradores a esperarem seis e sete meses pelos pagamentos do leite. Reconheço que, daí para cá, nunca mais se assistiu a um atraso no pagamento. Mas a permanência num grupo muito mais vasto, que leva à produção de produtos sem marca, não está, actualmente, a garantir mais rendimentos aos produtores da ilha. Somos o parente pobre da Lactogal, porque a Pronicol é a empresa mais pequena do grupo. A empresa todos os anos dá prejuízo, e sabemos porque assim é.
Seria possível a Pronicol manter-se associada ao grupo Lactogal, mas produzir marcas diferenciadas?
Penso que esse seria o caminho mais adequado. Acho que a Unicol tem condições para tal. Não conheço ao pormenor o acordo entre a Pronicol e a Unicol, sobretudo se esta é obrigado a vender todo o leite à Pronicol. Mas parece-me que a Unicol, com algum do leite que compra na ilha, poderia enveredar por produtos de marca e colocá-los no mercado. Aliás, essa colocação poderia até ser feita internacionalmente para evitar concorrência com os produtos da Lactogal.
Isso obrigaria a uma nova fábrica?
Não. As fábricas existem. É uma questão de se acertar a utilização das infra-estruturas já existentes. Porque nãos e pode produzir leite UHT, leite biológico, queijo de marca da ilha e todo um conjunto de produtos que seriam colocados no mercado, garantindo mais algum rendimento. Parece-me ser uma opção mais sensata do que insistir-se na produção de leite em pó, que poucos ganhos significam para os produtores locais.
Tem falado, nos últimos tempos, do leite biológico. Há condições para tal na Terceira?
Sim. Acredito que sim. Aliás, parece-me que, neste momento, há lavradores na ilha a produzir leite biológico sem o saberem. Este leite é produzido à base de erva e silagens de milho e erva e com pouca ração. Ora, isso é a prática comum cá. Estes lavradores podem é não ter cuidado com os fertilizantes que colocam nas pastagens. Mas seria possível regular esta situação e, a partir daí, enveredar por este tipo de produção, que é muito bem aceite nos mercados mundiais…
E há outros produtos?
Exacto. Temos o queijo e a manteiga, produtos reconhecidos pelos consumidores. Tínhamos, por exemplo, o queijo Castelinho, que quase não se vê no mercado. Assim, há derivados que podemos produzir cá que, quase de certeza, terão aceitação no mercado nacional e internacional.
As explorações agrícolas da Terceira estão organizadas como empresas? Ou ainda se aplica aquela ideia de que o agricultor arruma as facturas e demais papelada num saco de plástico…
A grande maioria das explorações na ilha funciona como empresas. Temos uma geração de agricultores nova – até aos 40/50 anos – que evoluiu muito e que vê a Agricultura como um sector produtivo que deve ser gerido num formato de empresas. Aliás, hoje em dia, as pessoas deixaram de ser agricultores e passaram a ser empresários agrícolas. Portanto, essa mentalidade está a enraizar-se cada vez mais. Claro que ainda há uma pequena franja de produtores que não faz contas: paga o que deve e o que sobrar é seu. Mas, como lhe disse, trata-se de um número muito diminuto, porque a maioria conta ao cêntimo os seus custos e os seus ganhos, e sabem onde ganham e perdem dinheiro na sua exploração.
E é esse o caminho?
Sem qualquer dúvida. Quem não funciona como empresário agrícola acabará por sair do sector a médio prazo. Porque não vão conseguir sobreviver sem o rigor contabilístico que se exige actualmente na gestão de uma exploração agrícola, tal como em qualquer negócio.
Fala-me de uma geração nova a singrar hoje na Agricultura terceirense. Mas diz tratar-se de gente até na casa dos 40/50 anos. A lavoura interessa aos jovens? Ou é um negócio de gerações?
Há gente nova interessada, mas são sempre filhos de lavradores a continuarem o negócio dos pais. Aliás, duvido que possa ser de outra forma, porque sem o apoio dos pais e sem a transferência de terras, máquinas agrícolas e gado, é muito difícil começar uma exploração do zero. É quase impossível.
A maior parte das explorações agrícolas no mundo reflecte o cuidado de dimensionamento das infra-estruturas e do parque de máquinas à produção que ela desenvolve. Nota que esse cuidado também existe cá?
Ainda há alguns exageros, sobretudo ao nível da potência das máquinas agrícolas. Aliás, penso que, actualmente, temos máquinas agrícolas a mais na ilha Terceira. Há quem tenha estes recursos, mas os utilize em períodos muitos curtos no ano. No entanto, como a maior parte dos empresários agrícolas está a fazer contas à vida, é natural que comecem a perceber que, muitas vezes, é preferível pagar a uma empresa de prestação de serviços – e, felizmente, já existem várias na ilha e trabalham a preços razoáveis – do que possuir máquinas que são pouco rentabilizadas. Acredito também que esta é a tendência adequada para o sector.
A extensão rural seria uma mais-valia para a Terceira?
Penso que seria uma grande valia…
O que falta para ela ser implementada?
Não sei se vontade política.
O relacionamento entre os lavradores e a Universidade dos Açores acontece? É regular? Ou ainda se encontram muito de costas voltadas?
Não diria que estão totalmente de costas voltadas. Mas, por vezes, caminham sem sentido contrário. Por isso, entendo que há mais a fazer para que as partes gerem sinergias entre elas. De qualquer modo, posso garantir-lhe que, no que diz respeito á Associação Agrícola da Terceira, o Departamento de Ciências Agrárias tem demonstrado grande abertura para cooperar connosco. Acho que, algumas vezes, os produtores não procuram os universitários. Assim, a investigação acaba por não estar tão próxima da produção como deveria estar. Aliás, acho que neste sector a investigação, a produção e o Governo Regional deviam manter uma permanente cooperação. O que não acontece. O que é mau, na minha perspectiva. Tem que haver um maior aprofundamento nesta relação entre produção, investigação e decisores políticos.
A médio prazo, qual é a grande necessidade do lavrador terceirense?
O abastecimento de água e de electricidade nas explorações. Há anos que esta situação se arrasta. Muito tem sido feito, mas ainda há muito por fazer. Estamos bem servidos em termos de estradas, mas esta infra-estruturação é fundamental para que cada empresário agrícola possa melhorar a sua produção.
O emparcelamento é uma solução importante?
Sim. Tem-se feito algum, mas a um ritmo muito pequeno. Só em aquisições de terrenos é que temos verificado essa prática. As trocas são quase inexistentes. Esta é uma solução que devia ter uma concretização mais célere.
O Centro de Leite e de Lacticínios, anunciado pelo Governo Regional, traz alguma valia ao sector?
Interesse tem e muito. Na última reunião em que se abordou o assunto, assistimos a um impasse – e não sei se é ele que trava o processo: na formação dos corpos sociais, a indústria pretendia 50 por cento e os produtores os restantes 50 por cento. A Associação Agrícola da Terceira propôs que deve existir uma terceira entidade no processo, a investigação. Mas nunca mais houve contactos connosco sobre este assunto. Penso que são politiquices o que está a suster esse projecto. O Governo Regional diz que o projecto não anda porque os industriais e os produtores não querem. Mas não sei se é bem assim. Se a ideia partiu do executivo, ele devia levá-la até ao fim.
E o parque de exposições da Terceira…
É uma necessidade urgente. Não só pela feira anual, mas sobretudo pelo mercado agrícola semanal. São muitas centenas de pessoas que frequentam esse mercado e este parque de exposições daria melhores condições a essa realidade.
O mercado agrícola devia ser alargado e potenciado?
Sem dúvida. De qualquer forma, entendo que o formato de funcionamento deve ser o que existe hoje. São necessárias melhores condições e, eventualmente, um alargamento do horário. Em vez de funcionar um só dia, poderia funcionar dois. Aquele mercado representa uma fonte de rendimento importante para quem lá vende. E uma boa oportunidade para quem compra. Aquele espaço não deve ser visto como uma coisa paralela, mas como um espaço de actividade económica importante para o sector agrícola.
Que expectativas existem para 2009 no sector agrícola? Será um ano de crise?
Pode não ser, porque os gasóleos têm vindo a descer consideravelmente. As rações também, uma vez que houve uma grande descida no preço dos cereais. Espera-se também que, nos próximos tempos, o preço dos adubos tenha uma descida na ordem dos 30 por cento. Daí que as expectativas sejam positivas. Se a descida no adubo se verificar e não ocorrer mais nenhuma descida no preço do leite pago ao produtor, teremos um ano razoável e equilibrado. Se bem que, dificilmente, será tão bom como 2008.
Porque 2008 foi um bom ano agrícola?
O primeiro semestre, é certo, foi mau. Os cereais, o gasóleo e os adubos subiram consideravelmente de preço. Mas o leite também subiu 15 escudos. No último trimestre, verificou-se uma descida das rações e do gasóleo e o leite manteve o seu preço. Ou seja, tivemos três meses a compensar o primeiro semestre. O que resulta num saldo positivo para os lavradores. Embora a notícia do abaixamento do preço do leite a partir de 01 de Janeiro de 2009 tenha vindo estragar este sentimento.
Actualmente, essa profissão compensa? Manter uma exploração com 30 ou 40 cabeças de gado leiteiro garante um rendimento decente?
Se esse agricultor não tiver muitas rendas a pagar, é viável. Mas se o terreno em uso for todo arrendado e se esse agricultor tiver um compromisso financeiro, a sua vida fica em maus lençóis.
Qual o sentimento dos agricultores terceirenses com o futuro?
Há vários que estão optimistas. Mas os mais pessimistas não acreditam que este sector de actividade tenha futuro. Reconheço que as coisas não estão fáceis. Basta haver uma variação negativa no poder de compra de muitos lavradores para que uma parte considerável deles entre em falência.
Há uma noção de quantas explorações agrícolas na Terceira estão, actualmente, no fio da navalha da sobrevivência?
Penso que uma descida do preço do leite para lá da prevista e a manutenção dos preços dos adubos podem atirar para a falência cerca de 100 explorações agrícolas na ilha. E acredito que durante 2009 alguns lavradores sairão do sector.
Hoje em dia, quantas explorações agrícolas funcionam na Terceira?
Na produção de leite, o número não chega às oito centenas. Em 2009, se o preço do leite baixar mais e o preço do adubo não descer, ficaremos com menos de 700 explorações agrícolas a funcionar na ilha, certamente.
Isso é um problema?
Há quem diga que o número aceitável de explorações na ilha, tendo por base critérios de rentabilidade, é de 500 unidades. Continuo a acreditar que quanta mais gente estiver nesta actividade, melhor para ela. Mas é cada vez mais aceite a teoria de que as explorações agrícolas na Terceira, para serem rentáveis, têm de ser redimensionadas. Os defensores desta visão alegam que o mínimo aceitável no efectivo leiteiro é de 30 a 40 animais por exploração, sendo difícil a sobrevivência abaixo desse número. Embora saibamos que, na ilha, existem explorações com 20 vacas em que o agricultor consegue um bom rendimento. Como existem explorações com mais de 60 cabeças de gado onde o proprietário está em sérias dificuldades financeiras. Mas, durante este quadro comunitário de apoio, os objectivos esperados é conseguir explorações com uma produção de 250 mil litros ao ano, ocupando uma área entre os 25 mil e os 150 e os 200 alqueires de terreno.
Estão previstos mais resgates leiteiros na ilha?
No último Conselho Regional da Agricultura, o secretário regional do sector anunciou um resgate leiteiro em 2010. Penso que ele será aproveitado por vários lavradores na ilha.
Com o abaixamento anunciado do preço do leite na Terceira, há uma noção do seu impacto no rendimento dos agricultores?
As nossas contas indicam que cada agricultor perderá mais de 15 mil euros no seu rendimento anual. Em alguns casos, essa perda pode ascender aos 50 mil ou 75 mil euros. Falo aqui de explorações agrícolas com as suas contas estabilizadas.
Os lavradores conseguem aguentar essas perdas?
Não têm outro remédio senão aguentar. A expectativa é que as coisas não se agravem mais do que o previsto. A tendência dos mercados é de o preço do leite continuar a descer, nomeadamente na Europa, mas não acreditamos que desça muito mais, senão muita gente na Europa ficará no desemprego.
Durante 2008, os lavradores da Terceira, além dos problemas vindos de fora, viveram a braços com a falta de água…
Exacto. O que trouxe mais custos. Não tenho dados que me permitam dizer qual o impacto real nos custos de cada exploração. Mas é certo que houve impacto. Embora não nos possamos esquecer que o Instituto Regional do Ordenamento Agrícola (IROA) e as câmaras municipais, sobretudo a de Angra do Heroísmo, fizeram um grande esforço para atenuar a falta de água na lavoura. Houve camiões-cisterna a carregar água para alguns postos de abastecimento constantemente. Portanto, houve custos, mas nada se podia fazer outra coisa senão isto. Foi uma despesa que não tínhamos previsto, mas teve de ser.
Com o fim da quota leiteira a partir de 2015, como fica o sector?
O Governo tem estado a procurar minimizar esse impacto. Segundo sabemos, a ideia, actualmente, é tentar transformar a quota em POSEI, ou seja, continuar, após 2015, a vinda dos apoios financeiros das quotas sob outro formato. Se isso for conseguido, parece-me que o desaparecimento da quota leiteira não terá grande impacto nos Açores. Se tal não for possível, assistiremos um impacto enorme, porque não temos condições para competir com as grandes potências produtoras da Europa.
É comum dizer-se que a Agricultura é um dos sectores mais dependentes dos apoios governamentais e comunitários. Há quem garanta que, em algumas explorações, 70 por cento do seu rendimento é administrativo. Este é um sector que não consegue existir sem esses apoios?
A lavoura açoriana consegue sobreviver sem esses dinheiros. Os nossos colegas no Continente têm mais custos de produção do que nós, que conseguimos fazer leite com base na pastagem e nas silagens de milho e erva. E com pouco concentrado. Ao invés, no Continente, tudo é comprado. Fazer leite no Continente é mais caro do que o fazer aqui. Daí conseguirmos sobreviver a qualquer crise…
Mas uma exploração cá consegue sobreviver sem esses fundos?
Penso que sim. Mas tal implica um aumento da produção. O que não é possível actualmente, perante os preços tão baixos no mercado. De qualquer forma, convém explicar que os apoios da União Europeia não existem para sustentar os agricultores. Existem para manter os produtos básicos a preços baixos para toda a população. Esse é que é o objectivo dos subsídios comunitários. A Agricultura é acusada de ser uma “papa-subsídios”, mas a verdade é que o sector nunca pediu esses apoios. É uma política da União Europeia. Apenas isso.
A produção de carne continua a não descolar…
Penso que a carne IGP está no seu primeiro ano de comercialização. Tem mercado, embora junto do agricultor não tenha tido o reflexo esperado em termos financeiros. Ela é paga a três euros ao produtor e é vendida a mais de 12 euros, havendo casos em que o seu preço ronda os 20 euros. Quer isto dizer que há valor que poderia ser redistribuído de outra forma, porque ela surgir no mercado com 600 por cento de acréscimo ao seu preço de aquisição ao produtor é errado. Talvez a carne IGP padeça do mesmo mal que o leite: precise de concorrência, ou, pelo menos, de uma alternativa. Parece-me que elas podem aparecer em breve.
De onde? Do seio dos produtores?
Sim…
Num sistema cooperativo?
Sim. Ou mesmo através de outra empresa existente. Independentemente do modelo, entendo que é saudável existir concorrência. Ninguém deve estar sozinho do mercado.

(In DI - Revista)

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sexta-feira, janeiro 02, 2009

Preço do leite vai ter “fórmula indexante”

Associações agrícolas, industriais, e Governo Regional vão arrancar, “em breve”, com negociações para a criação de uma fórmula indexante ao preço do leite pago ao produtor na Região. A informação foi tornada pública em nota publicada pelo Gabinete de Apoio à Comunicação Social do Governo Regional, onde se avança que o objectivo é que os preços pagos aos produtores de leite evoluam em conformidade com o mercado do Continente e Europeu. A notícia foi bem acolhida no seio da lavoura terceirense. O presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira, Paulo Simões Ferreira, avança que esta medida pode ser o princípio do fim da desconfiança da lavoura em relação à indústria.“O Governo Regional tem de intervir para dar alguma moralidade ao mercado do leite. Esta medida pode vir a fazer com que os agricultores não se sintam enganados. Existem sempre dúvidas em relação ao facto de os industriais poderem ou não praticar determinado preço ao produtor. Com uma fórmula matemática, acabam-se as dúvidas. Perceber-se-ão os contornos reais que levam o preço do leite a subir ou a baixar”, adianta, em declarações prestadas ontem ao Rádio Clube de Angra. Opinião semelhante tem o professor do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, José Estevam de Matos, que tem vindo a defender a criação desta fórmula indexante. “Finalmente acordou-se para o facto desta medida ser muito positiva para o sector”, disse, em declarações ao DI, considerando que pode ser o fim “ da guerra a que se assiste todos os anos em torno do preço do leite”.
A fórmula
Na opinião do professor da UA, são vários os indicadores que podem ser utilizados para indexar o preço do leite ao produtor praticado no arquipélago. “O preço do leite nos Açores poderá entrar em linha de conta com os preços médios praticados na Europa. Por exemplo, a LTO, uma organização holandesa, disponibiliza todos os meses, inclusive na Internet, os preços pagos pelas principais empresas aos produtores”, explica. Outros indicadores, adianta José Matos, podem ser os preços praticados no mercado em relação a produtos como o queijo ou leite em pó ou de venda ao público de produtos que são produzidos em quantidade considerável “como o queijo de bola- o flamengo- ou a manteiga”. Para José Matos importa também encontrar uma “margem de manobra” que tenha em conta o factor do custo de transporte e mantenha o leite açoriano competitivo, sobretudo num cenário em que se aproxima cada vez mais o fim das quotas leiteiras no espaço comunitário. Paulo Simões Ferreira concorda, mas afirma não querer voltar a assistir a “absurdos, como no ano passado em que o leite no Continente era pago ao produtor 30 escudos acima do de cá”. “Isso tem um nome que prefiro nem dizer”, lança. Já o líder da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, que falava à RDP, acredita na adopção desta fórmula indexante, mas desconfia que a indústria a aceite de “braços abertos”.
Os industriais
A suspeita do líder da Federação Agrícola dos Açores pode vir a confirmar-se. Por agora, Mancebo Soares, da UNICOL, recusa-se a prestar declarações aprofundadas até conhecer a proposta que irá às negociações entre lavoura, Governo e indústria, mas adianta que, “a este respeito, a UNICOL tem uma posição de princípio”. “Não acreditamos em preços administrativos, pensamos que são coisas do passado. A economia actual não se compadece com preços fixados de forma administrativa, que se revelam depois prejudiciais para os utilizadores”, afirma. Já Costa Leite, da Insular, em declarações à RDP/Açores, afirma que esta fórmula dificilmente se poderia aplicar a todas as empresas das várias ilhas, visto que estas diferem muito no tipo de produtos que fabricam.
(In Diário Insular)

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domingo, novembro 23, 2008

Só o leite com erva garante sustentabilidade nos Açores

Está confirmado que as quotas leiteiras acabam na União Europeia em 2015. É um desastre ou uma oportunidade para os Açores? Sempre fui contrário ao aumento das quotas, mesmo quando muitos - e foram quase todos - achavam que a solução dos problemas da nossa pecuária passavam por aí! Sempre achei que um quadro de liberalização da produção nos poderia ser prejudicial, porque os países com grande capacidade de expansão da sua produção, como por exemplo a Espanha, poderiam passar rapidamente de uma situação de produtores deficitários - por lhes haver sido fixado uma quota inferior às necessidades do seu próprio mercado - para a de produtores excedentários, com a possibilidade de invadirem o mercado do Continente, dada a sua maior proximidade, mercado esse que tem sido fundamental para os lacticínios dos Açores. O segredo da sobrevivência da produção leiteira açoriana, neste novo quadro, necessariamente mais competitivo, passará pela maior valorização desse nosso grande recurso natural, a erva, produzindo-se leite de uma forma mais sustentável, fazendo-se menor recurso a imputes externos - a única forma de garantir a produção de leite e de lacticínios mais baratos e de uma qualidade diferenciada.
O fim das quotas leiteiras poderá, também, implicar o fim do modelo de produção e transformação de leite vigente nos Açores?
Não necessariamente, mas estou certo que implicará ajustes no actual modelo de produção, tornando-o mais auto-sustentável, o que passa por maximizar e optimizar o binómio pastagem/ vaca leiteira. Em alternativa a produzir mais, numa lógica produtivista, mais e mais, teremos de produzir melhor, com uma preocupação crescente de aumentar a rentabilidade do processo produtivo. No que respeita à transformação deveríamos apostar numa maior diversificação, em particular em produtos de maior valor acrescentado, nomeadamente em novas variedades de queijo.
Com a produção aberta, regiões como os Açores ver-se-ão obrigadas a procurar outros modelos económicas, designadamente virando-se para as produções agrícolas e eventualmente de auto-subsistência?
As condicionantes orográficas (a altitude) e climatéricas (o vento) dos Açores são mais favoráveis à pastagem e à sua transformação em leite, mas, existem de facto algumas oportunidades de diversificação que não devemos desperdiçar, nomeadamente hortaliças, alguns frutos e especialmente algumas flores exóticas. Há que garantir no entanto transportes a preços competitivos para o necessário escoamento deste tipo de produções, para que elas sejam competitivas.
Quem vai dominar o mundo do leite, à escala global, após 2015?
Os países que melhor se posicionam, neste momento, para dominarem o Mercado global dos lacticínios são a Nova Zelândia e os Estados Unidos, por uma razão muito simples - preços de produção de leite mais baixos. Segundo os últimos dados da LTO, Holanda, o preço médio de pagamento de leite à produção, nos últimos 12 meses, foi de 36.37 na Europa, 30.04 na Nova Zelândia, e 30.01 (preços em Euro/100Kg, para leite com, 4.2% de gordura, 3.4% proteína e 249,999 células somáticas). Por outro lado, o aumento de consumo de lacticínios, em particular na China e na Índia está muito ligado às cadeias de “Fast Food” que, como sabemos, são na sua maioria pertença de multinacionais americanas.

(In Diário Insular)

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segunda-feira, maio 26, 2008

Investigação científica precisa-se

A investigação que se faz na nossa terra merece ser acarinhada e incentivada, porquanto são poucos os investigadores e reduzidos são os meios que dispõem os organismos que se dedicam à investigação. O futuro dos Açores deve passar também por mais investigação e mais conhecimento e a ideia reducionista de que somos pequenos e não podemos competir com os grandes centros é uma falácia, que importa banir das nossas atitudes e das nossas posturas do dia a dia. A investigação que fazemos nos Açores ainda é muito pouca, mas pode ser de excelência, se tivermos em conta os resultados e o prestígio que temos vindo a granjear no exterior. Alguns domínios relacionados com o mar, com o leite, com as energias alternativas, ou com as novas tecnologias, como a telemedicina, ou ainda com a preservação do ambiente ou com a educação, podem ser uma referência positiva. O Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular do Hospital de Angra do Heroísmo, por exemplo, associado ao Grupo do IBMC - Instituto de Biologia Molecular e Celular, da responsabilidade do médico Jácome Armas, é um exemplo do quo se faz, designadamente no diagnóstico laboratorial de doenças, com aplicação de técnicas de genética molecular e da investigação epidemiológica no âmbito da imunologia e biologia molecular. Apesar dos poucos recursos, o SEEBMO tem desempenhado um papel que prestigia os Açores. Realça-se o trabalho que o Prof. Oldemiro Rego do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores tem desenvolvido no âmbito da investigação do leite açoriano, tendo já chegado a conclusões cientificas de que o produto açoriano é muito melhor do que o do continente, pelo simples facto das manadas da Região serem criadas nas pastagens. Por outro lado, o responsável pelo Parque Tecnológico do Laboratório de Ambiente Marinho e Tecnologia da Praia da Vitória, Eng.º Emanuel Barcelos, veio demonstrar pelos estudos que tem vindo a empreender, que no ano de 2015 haverá potencial para auto-suficiência energética nos Açores. Para já não falar no Departamento de Oceanografia e Pescas, na Horta, cujos trabalhos de investigação têm repercussões positivas a nível internacional. Muitas das suas actividades partem à descoberta do fundo do mar, no âmbito de projectos científicos que envolvem instituições nacionais e internacionais, onde se abordam temas relacionados com arqueologia, biologia, geologia marinhas e aplicações tecnológicas para o estudo do oceano. A Universidade dos Açores deve assumir um papel charneira nesta área e adoptar medidas que apoiem toda a investigação que aqui e ali se faz na Região. É evidente que os meios que possui não servem de modelo.

Autor: António Pedro Costa
(In Correio dos Açores)

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quarta-feira, abril 30, 2008

Workshop: Sustentabilidade da produção de leite

Workshop Sustentabilidade do sistema de produção de leite nos Açores

Este evento vai decorrer no auditório das instalações do Campus da Universidade dos Açores, ao Pico da Urze.
O workshop está marcado para o dia 25 de Junho e vai debruçar-se sobre o tema Indicadores de sustentabilidade em agricultura. A acção enquadra-se num projecto conjunto das universidades dos Açores, Tuscia (Viterbo, Itália) e Wageningen (Holanda), financiado pelo governo italiano, estando presentes os investigadores responsáveis daquelas instituições. Pretende-se discutir a eficiência da utilização directa ou indirecta de combustíveis fósseis na produção de leite, comparando os resultados obtidos na ilha Terceira, com os da região italiana de Tuscia. Para além disso, discutir-se-ão outros aspectos ligados à sustentabilidade do sector, recorrendo ao conhecimento acumulado por professores e investigadores do Departamento de Ciências Agrárias.

Programa provisório

10:00 horas - Sessão de abertura

10:30 - 12:00 - Apresentação e discussão dos resultados do projecto conjunto com a Universidade de Tuscia

14:00 - 16:30 - Sustentabilidade do sistema de produção de leite nos Açores - Intervenção sectorial

16:30 - 17:00 - Discussão final

17:00 - 17:30 - Sessão de encerramento.
(In Universia)

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terça-feira, abril 15, 2008

WORKSHOP – SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO DE LEITE NOS AÇORES

No próximo dia 25 de Junho de 2008, realiza-se no auditório das instalações do Campus da Universidade dos Açores, ao Pico da Urze, um workshop acerca do tema "Indicadores de sustentabilidade em agricultura". A acção enquadra-se num projecto conjunto das universidades dos Açores, Tuscia (Viterbo, Itália) e Wageningen (Holanda), financiado pelo governo italiano, estando presentes os investigadores responsáveis daquelas instituições. Pretende-se discutir a eficiência da utilização directa ou indirecta de combustíveis fósseis na produção de leite, comparando os resultados obtidos na ilha Terceira, com os da região italiana de Tuscia. Para além disso, discutir-se-ão outros aspectos ligados à sustentabilidade do sector, recorrendo ao conhecimento acumulado por professores e investigadores do Departamento de Ciências Agrárias.


Programa provisório
10:00 horas - Sessão de abertura
10:30 - 12:00 - Apresentação e discussão dos resultados do projecto conjunto com a Universidade de Tuscia
14:00 - 16:30 - "Sustentabilidade do sistema de produção de leite nos Açores" - Intervenção sectorial
16:30 - 17:00 - Discussão final
17:00 - 17:30 - Sessão de encerramento.
(In Azores Digital)

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terça-feira, março 25, 2008

Vacas "Low Tech"

DEFENDEM JOSÉ MATOS, DA UNIVERSIDADE DOS AÇORES, E ANTÓNIO VENTURA, ANTIGO PRESIDENTE DA AAIT: Lavoura deve regressar ao gado alimentado a erva.
Escalada no preço das rações preocupa produtores de leite açorianos. Os investigadores põem em causa as vacas de elevado rendimento e sugerem o regresso a animais alimentados apenas com erva.

As vacas de alto rendimento (melhoradas geneticamente para produções maiores de leite) estão a revelar-se um quebra-cabeças para os produtores açorianos, confirmou DI. O aumento do preço das rações – das quais depende a produtividade destes animais – fez reduzir os lucros das explorações agrícolas. E, sendo certa a tendência de crescimento do custo dos concentrados, o futuro não é risonho. “Os lavradores estão numa encruzilhada: apostaram no melhoramento genético para conseguirem produções em quantidade e, agora, perante o preço das rações, vêem-se em apuros para conseguir manter esses animais. E não podem reduzir os concentrados porque essas vacas precisam deles para produzir e viver”, explica António Ventura, antigo presidente da Associação Agrícola da Terceira. “Vai ser necessário voltar-se às vacas de produções inferiores, na casa dos 20 litros ao dia, que se alimentam de erva e silagem. Este tipo de animais garante, contudo, um leite de melhor qualidade”, sugere José Matos, professor do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, em declarações ao DI. “Em meu entender, só há duas soluções: aqueles que apostaram muito no melhoramento genético e que se encontram num patamar que impossibilita o retrocesso, devem procurar alternativas que lhes garantam a matéria-prima para os concentrados, nomeadamente o milho; as explorações onde seja possível a reconversão para um efectivo de rendimento médio, na casa dos 20 litros diários por animal, devem enveredar por aí, apostando na erva, na silagem e na selecção genética destes animais”, sublinha António Ventura.“Os produtores que possuam terras a baixa altitude podem, com o devido acompanhamento, apostar na produção de milhos, que podem usar para silagens de elevada qualidade, capazes de servir como suplemento para a alimentação dos seus animais. Esses poderão manter a alta rentabilidade dos seus animais”, alega José Matos.
MÁQUINAS DE LEITE
Nos últimos 40 anos, a palavra de ordem no sector agrícola insular foi “produzir muito”. As políticas governamentais e comunitárias encaminhavam nessa direcção, incentivando o produtor a melhorar o seu efectivo bovino para a excelência na produção em quantidade.“Apostou-se na raça Holstein-frísia. Estes animais tornaram-se verdadeiras máquinas de produzir leite”, refere António Ventura.“Estes animais exigem um complemento de nutrientes, assegurado pelos concentrados, as rações. Uma vaca que produz 30 litros de leite por dia necessita de, pelo menos, dez quilos de concentrados por dia”, explica o antigo presidente da AAIT e actual deputado na Assembleia Legislativa, integrado na bancada do PSD/Açores. Em 2007, o preço dos concentrados subiu 45 por cento. O mercado mundial está a ser influenciado pela enorme procura dos cereais, muito por culpa da crise energética derivada da escalada do preço do petróleo (que está acima dos 100 dólares), que fez voltar as atenções para o bio-combustível. Nesta equação, o preço do milho tem vindo a subir consideravelmente, já que o produto é importante para a produção de etanol, uma alternativa à gasolina.Prevê-se que a utilização de etanol triplique até 2012 nos EUA. Muitos agricultores optaram por se concentrar na produção de milho, desviando-se da produção de trigo e soja, e contribuindo para a enorme subida dos preços destes cereais. Na Europa, os Governos pretendem que os biocombustíveis representem 10 por cento dos combustíveis utilizados em transportes, até 2020. Em termos globais, para serem atingidos os objectivos de aumento de produção de biocombustíveis até 2015, os terrenos adicionais necessários para a produção de cereais seriam de 80 milhões de hectares, uma área superior a França, Portugal e Suíça juntos.
PRODUZIR MILHO
Esta conjuntura afectou o preço das rações, recaindo sobre os produtores açorianos, na sua maioria sem grande capacidade financeira para enfrentar as flutuações do mercado.“Com o valor a tender para a equivalência com o preço que o produtor recebe por cada litro de leite produzido, é óbvio que as explorações que possuem estes animais enfrentam um problema muito complicado. A erva e a silagem de boa qualidade – que temos capacidade para produzir - afiguram-se como as melhores alternativas para a resolução deste problema. Essa, a meu ver, é a melhor opção para a Lavoura açoriana”, refere José Matos.“Além disso, a produção de leite com base na erva e em silagens de qualidade permite leite de melhor qualidade, com mais proteínas, caseína e gorduras, elementos que contribuem para uma melhor classificação do leite no arquipélago”, sublinha o professor da Universidade dos Açores."Os Açores têm óptimas condições para que a alimentação das vacas tenha como base, a erva", refere João Batista, investigador do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, citado pelo Diário dos Açores, em Janeiro deste ano.“Outra das alternativas é conseguirmos, no arquipélago, produzir milho em grão, que nos permita diminuir a dependência do exterior. Já existem experiências em curso cá [a experiência afecta 700 alqueires de campo agrícola]. Se forem aproveitadas para esse fim as terras que deixaram de ser usadas para produção de leite por via dos resgates leiteiros, poderemos ter aí uma forma de contribuir para o abaixamento do preço dos concentrados”, refere António Ventura.

(In Diário Insular)

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segunda-feira, março 17, 2008

Especialistas açorianos discutiram o futuro do leite

Vários investigadores da Universidade dos Açores participaram num seminário organizado pelo Comité Nacional do Leite sobre o estado actual do sector e desafios futuros. A iniciativa, que se realizou em Lisboa nos dias 14 e 15 de Março, contou com a participação de José Matos, investigador Universidade dos Açores (UA); de Maria Cabral, do IAMA; de Oldemiro Rego (UA) e de Félix Rodrigues, também da universidade açoriana.
No primeiro dia de trabalhos, Arlindo Cunha, antigo ministro da agricultura e docente da Universidade Católica, proferiu uma conferência sobre "o Sector Leiteiro na Encruzilhada do Debate sobre a PAC após 2013 e das Negociações da Ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio". A segunda conferência foi sobre "a Produção de Leite Perante a Mudança de Paradigma Energético" e foi apresentada por José Matos do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores em Angra do Heroísmo (DCA). Finalmente, a "Estrutura e Inovação na Produção Primária - Aplicação de Metodologia Prospectiva" (Susana Beira); a "Segurança Alimentar na Produção Primária" (João Niza Ribeiro) e os "Perigos Químicos no Leite e Repercussões na Segurança Alimentar" (Berta São Braz) foram os outros temas do primeiro dia de trabalhos. As outras duas intervenções do primeiro dia de trabalhos pertenceram a Maria Cabral, do IAMA, que versou sobre "Evolução da Qualidade do Leite nos Açores" e a Oldemiro Rego, do DCA, que abordou a "Influência da Dieta sobre a Composição de Ácidos Gordos da Gordura do Leite.
A "Gestão dos Nutrientes nas Explorações Leiteiras e o Ambiente" (Nuno Moreira) e o "Bem-estar Animal das Explorações de Leite - critérios e Factores de Risco" ( George Stilwell) foram as duas conferências que abriram o segundo dia de trabalhos, onde interveio ainda Félix Rodrigues, do DCA, com uma conferência sobre o "Regime Jurídico do Licenciamento das Explorações Bovinas da Região Autónoma dos Açores - Teoria, Prática e Legislação", a qual encerrou os trabalhos do seminário.
(In Confederação dos Agricultores de Portugal)

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quarta-feira, março 12, 2008

Resgate Leiteiro

Sessenta e sete lavradores da Terceira vão abandonar a produção de leite no decorrer deste ano.Num total de 105 candidaturas ao resgate da quota lançado pelo governo no final de 2007, apenas 67 candidatos foram aprovados.Para a Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT) este é um sinal claro de que a produção de leite deixou de ser atractiva para a lavoura. Paulo Simões Ferreira, presidente da AAIT, assegura que, em princípio, toda a quota será entregue e absorvida pelos produtores terceirenses no activo, porém, não deixa de ser impressionante, alerta, a quantidade de produtores que mostraram disponibilidade em abandonar a profissão. “ Apesar dos aumentos verificados no preço de leite, a fileira está em dificuldades” – refere. Segundo este dirigente agrícola, a subida do preço de leite à produção em 2007, compensou os aumentos dos preços das rações e do gasóleo, no entanto o aumento verificado no preço do adubo é vertiginoso e difícil de suportar. “Um saco de adubo que custava 14 euros no início de 2007, custa agora 23”, exemplifica, alegando que muitas explorações ainda têm dificuldades em suportar os custos de produção.Na região, 310 produtores de leite candidataram-se à venda de direitos de produção num volume global de 27 mil toneladas. Segundo o governo, cerca de 65 por cento dos candidatos à entrega de quota são de idade superior a 40 anos, tendo 113 produtores de S. Miguel concorrido à operação com uma oferta de direitos de produção de 13 mil toneladas.No Faial 30 produtores pretendem vender direitos de produção num total de 1,8 mil toneladas e na Terceira estava em causa uma quota global de 8,7 mil toneladas.Em S. Jorge o volume de quota candidata a resgate atinge 1,8 mil toneladas, na Graciosa as 932 toneladas e no Pico e Flores 704 e 38 toneladas, respectivamente.Em contrapartida, cerca de 1.320 produtores da Região solicitaram ao Governo direitos de produção num total de 144 mil toneladas.Os números mais recentes na posse do Executivo indicam que o número de titulares de direitos de produção leiteira baixou nos Açores de 3.840 para 3.617, entre 2006 e 2008.Tal redução deverá ter que ver com a permanente reestruturação em curso no sector e com o reajustamento da referência às explorações principais dos produtores.O governo justifica este resgate leiteiro como uma reorganização do sector agrícola, possibilitando que alguns empresários se retirem “de forma digna” da fileira do leite.Para a tutela da agricultura esta reestruturação será processada de forma planeada e “sem perder de vista as questões sociais e económicas dos produtores que são resgatados”.Por outro lado, face às ilhas envolvidas neste resgate, os responsáveis governativos asseguram que vai haver perigo de desertificação, “porque os valores resgatados são muito inferiores aos valores de pedidos de quota que existem nessas ilhas”. “O montante de leite resgatado em cada ilha será distribuído pela mesma ilha, significando que não haverá quebras na sustentabilidade da produção e das indústrias associadas”, alega a secretaria da Agricultura.SeminárioA fileira do leite na região volta a estar em destaque esta semana. Vários investigadores da Universidade dos Açores vão participar num seminário organizado pelo Comité Nacional do Leite sobre o estado actual do sector e eventuais desafios futuros.A iniciativa, na oitava edição, conta com a participação de José Matos, investigador Universidade dos Açores (UA); de Maria Cabral, do IAMA; de Oldemiro Rego (UA) e Félix Rodrigues, também da universidade açoriana. Este encontro, que se realiza em Lisboa, nos dias 14 e 15 de Março, vai proporcionar uma discussão técnica sobre temáticas como: “a economia e políticas”; “higiene e segurança alimentar” e “produção de leite, ambiente e licenciamento”.
(In A União)

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