segunda-feira, janeiro 12, 2009

Leite indexado

Uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor é urgente para que sejam tratadas as questões verdadeiramente importantes para o sector, defende o professor do Departamento de Ciências Agrárias do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, José Matos, numa entrevista em que alerta para a necessidade de “falar verdade” à lavoura e para a ameaça vinda de Espanha.

Já defende uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor há vários anos. Recentemente foi anunciado que Governo Regional, associações agrícolas e indústria vão entrar em negociações para esse efeito. Espera que a fórmula vá de facto em frente?
Para mim essa não é uma grande questão, há outras bem mais importantes no sector. A minha sugestão foi sempre no sentido de afastar no caminho das questões importantes a discussão do preço, que é mais do que anual, é bianual. Essa discussão dos preços tem o condão, muitas vezes, de azedar o debate de temas importantes, que exigem que lavoura, Governo, indústria e até a Universidade dos Açores, estejam coesos na defesa de interesses comuns. Veja-se o que tem acontecido com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Tem sido esta questão que tem azedado aquilo que é importante fazer no âmbito deste centro.
Este é um problema quase eterno. Porque é que não se deu o passo para o resolver mais cedo?
É verdade. A questão do preço entre o comprador e o vendedor é uma questão eterna. O que vende quer receber mais. O que paga quer pagar menos. É o funcionamento do mercado, sempre foi assim. Nasci numa exploração leiteira, o meu pai era produtor de leite e também assisti desde pequeno a este debate. Não é nada de novo a guerra dos preços. O que há de anormal é que não se procure encontrar uma fórmula matemática de resolver este problema. Se é um problema que tem a ver sistematicamente com a flutuação dos preços no mercado, obviamente é possível através de uma equação matemática que essa flutuação de preços se repercuta no preço pago ao produtor. Umas vezes para bem, outras para mal, obviamente.
A lavoura pode cair em alguma armadilha nesta negociação de uma fórmula indexante?
Como tudo na vida e também nesta questão, há sempre um lado positivo e negativo. Com uma indexação, existirão também aspectos menos positivos. Há que garantir, quer para a indústria, como para o produtor, que os aspectos negativos não sejam muito pesados. Não queremos a indústria nem a produção falidas. É necessário que à volta desta questão da fórmula haja um debate muito sério.
A Universidade dos Açores tem um papel neste debate?
Alguns especialistas da UA, nomeadamente na área da matemática, podem tê-lo. Mas a intervenção dos investigadores da área agrícola até seria contraproducente.
Porquê?
É a velha questão que tem também a ver com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Os investigadores, os técnicos que podem dar apoio quer à produção como à indústria não devem estar envolvidos nesta questão do debate do preço. Isso é trazer algum elemento de desconfiança em relação a pessoas com as quais quer a lavoura como a indústria têm de manter uma relação de confiança absoluta.
Um representante da UNICOL já avançou que existe uma posição de princípio contra a fixação administrativa de preços…
Sei que há esse cepticismo e que isto é de certa forma julgado como uma fixação administrativa do preço do leite. Não é o que defendo. Cada fábrica pode defender a sua própria fórmula e garantir a concorrência. O que é certo é que nas nossas ilhas, muitas vezes, ou há monopólio ou não há possibilidade de fazer funcionar as regras do mercado. Seria bom que as regras do mercado funcionassem.
O que é exactamente esta fórmula indexante? Como funcionaria?
Pode funcionar em função de diversos factores, que podem contribuir para uma fórmula única. Mas essa fórmula seria depois ajustada em função da produção e transformação de cada indústria. Admito que numa indústria que tenha como transformação leite em pó a fórmula deva ter isso em consideração, como no caso de outra que produza leite líquido ou iogurtes. Não é isso que está em questão. São permitidas nuances quanto a ilhas e fábricas… Não é difícil, os matemáticos encarregar-se-ão disso.
Com esta fórmula a lavoura açoriana seria muito diferente?
Não. A fórmula é um factor menor. A lavoura açoriana seria muito mais beneficiada pela resolução de heranças do passado. A montante, a nível da produção há a questão da discussão da propriedade, a dispersão das explorações… Ainda mais tendo em conta que há uma dinâmica que leva à diminuição do número de produtores, o que ajuda a resolver estes problemas. Neste momento é mais necessário e mais fácil encará-los do que nunca, porque o número de produtores decresceu incomparavelmente e será mais fácil negociar, não há laços afectivos tão grandes à propriedade... Desde que temos quotas leiteiras, o número de produtores caiu para metade. Existem hoje perto de 800 produtores de leite na Terceira. Eu presumo que nos próximos 10 anos fiquemos apenas com metade dos que temos actualmente.
Este decréscimo é assustador ou pode, pelo contrário, ser positivo?
Não é nada assustador! No espaço de 15 anos a lavoura quintuplicou a produção de leite nos Açores, embora o número de produtores tenha baixado para metade. Existem explorações maiores, mais eficientes, mais empresariais, com outros tipos de tecnologias. A qualidade do leite tem melhorado e presumo que melhore ainda mais. O que é preocupante é que nalgumas ilhas, por problemas demográficos, de envelhecimento da população, a produção de leite esteja a desaparecer. É o caso do Pico, Flores, Faial. É pena que não existam políticas que tentem contornar este fenómeno, que é muito forte.
Mesmo com o esvaziamento destas ilhas, a produção de leite vai ser sempre o grande sector da economia açoriana?
Sem dúvida nenhuma. Acima de determinada altitude, a produção de pastagem, valorizada pela produção de leite, é a melhor aposta. Tendo isto em atenção, percebe-se que em algumas ilhas não haverá agricultura sem vaca leiteira. E sem agricultura não me parece muito fácil sustentar um determinado número populacional que justifique outras actividades económicas. É o caso do turismo. Não é possível ter turismo sem famílias. Os picarotos dedicavam-se à agricultura e à caça à baleia. Hoje, muitos dividem-se entre a agricultura e alguns serviços ao turismo. Não colocam os ovos todos no mesmo cesto… A agricultura é a base, a raiz do sustento da população. Agora, nalgumas ilhas, com o envelhecimento das populações, encaro com preocupação se, sem agricultura, vai ser possível manter outros serviços e actividades. Veja-se o que aconteceu no Continente. À medida que a agricultura foi desaparecendo do país, as populações migraram para os grandes centros. Nos Açores ainda se vai a tempo de se tentar travar este processo. Um dos aspectos importantes é garantir que a agricultura se mantenha viável.
O cenário que a lavoura traça nesta altura é muito negro. A Associação Agrícola da Ilha Terceira avisa que muitas explorações poderão entrar em falência. É mesmo assim ou trata-se apenas de uma fase?
Gostaria de prever que é apenas uma fase muito transitória. Há uma grande instabilidade dos mercados a nível mundial e os lacticínios estão nesse contexto. Em 2007 essa instabilidade fez com que os preços disparassem, com uma maior procura da China e Índia e menor produção da Nova Zelândia e a Austrália. Dessa euforia passou-se para a vaga de retorno. Há menor consumo nos mercados asiáticos e este ano a Austrália e Nova Zelândia já recuperaram. O ano de 2007 foi eufórico, mas o preço do leite em pó já desceu para metade. Isto tem impacto a nível global e local. O consumo diminuiu também…
Mas esta é uma fase ou é mesmo o cenário com que a lavoura tem de lidar?
Da mesma forma que 2007 foi eufórico, 2008 teve um dinamismo muito negativo. Penso que a meados deste ano as circunstâncias melhorem. Nunca veremos preços como os de 2007. Há no entanto outro elemento de instabilidade, que é a Política Agrícola Comum e o fim das quotas leiteiras em 2015. Achei sempre muito estranho que se defendesse que a quota acabasse, mas parece que agora todos acham que a quota é importante. Isto porque é fácil perceber que o nosso principal concorrente em termos de mercado é a Espanha que, quando negociou as suas quotas, negociou abaixo das suas necessidades. Os Açores fizeram o contrário, foram claramente beneficiados, o que permitiu o crescimento do sector. Espanha é agora obrigada a comprar leite em Portugal. No momento em que a quota acabar, os espanhóis vão tornar-se excedentários na produção de leite e vão invadir o mercado português, nomeadamente o mercado de Lisboa, que é o mais importante para os lacticínios dos Açores. Logo a seguir a esta crise deveremos ter outro embate e temos de cuidar muito da competitividade do nosso sector.
Está-se a fazer o suficiente?
O fim das quotas do espaço da União Europeia é já em 2015…Está-se a fazer algumas coisas. Os próprios produtores estão, por exemplo, a cuidar da rentabilidade do seu processo produtivo, tratando, assim, também da competitividade do sector. Agora, com a entrada de Espanha no jogo, os produtores açorianos terão de produzir mais barato, é preciso dizer isso desde já.
Essa é uma mensagem dura para a lavoura…
Certo que sim, mas estamos numa altura em que há necessidade de falar com verdade, não dourar a pílula. É preferíveis termos uma pílula amarga e defendermos o nosso sector, desde o Governo, lavoura, políticos e universitários, sabendo que vêm dias maus. Temos muitos problemas, nomeadamente a nível de transformação e inovação.
Os produtos transformados dos Açores não são aliciantes neste mercado que se avizinha?
Têm sido o garante do crescimento do sector nos Açores, mas penso que não o continuarão a ser. Na Nova Zelândia, que tem muitas características semelhantes às dos Açores, a maior cooperativa de produção de lacticínios do país invadia o mercado mundial com um queijo. Neste momento tem 10. Oferece bebidas, produtos fermentados, com vários aspectos. Muitas vezes é o mesmo produto, com outra imagem. Temos de diversificar e aproveitar tecnologias de marketing.
Que peso tem a marca Açores?
Tem um peso enorme. É conhecida a qualidade do nosso processo produtivo. Sabe-se que as vacas andam livres, em pastagem, que têm uma alimentação natural. Todos no Continente conhecem essa imagem. Falta jogar totalmente esse grande trunfo. Todos nós conhecemos os anúncios de uma empresa do Continente que vende leite líquido como sendo natural, com animais em pastagem, até se vêem algumas imagens que parecem filmadas nos Açores. Fomos claramente ultrapassados por essa campanha de marketing. Agora, se surgirmos com algo semelhante, será sempre uma imitação. Devíamos ter feito isto há uns cinco anos atrás. Há claramente aqui uma corrida atrás do tempo. Que é preciso fazer.
(In DI-Revista)

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domingo, novembro 23, 2008

Só o leite com erva garante sustentabilidade nos Açores

Está confirmado que as quotas leiteiras acabam na União Europeia em 2015. É um desastre ou uma oportunidade para os Açores? Sempre fui contrário ao aumento das quotas, mesmo quando muitos - e foram quase todos - achavam que a solução dos problemas da nossa pecuária passavam por aí! Sempre achei que um quadro de liberalização da produção nos poderia ser prejudicial, porque os países com grande capacidade de expansão da sua produção, como por exemplo a Espanha, poderiam passar rapidamente de uma situação de produtores deficitários - por lhes haver sido fixado uma quota inferior às necessidades do seu próprio mercado - para a de produtores excedentários, com a possibilidade de invadirem o mercado do Continente, dada a sua maior proximidade, mercado esse que tem sido fundamental para os lacticínios dos Açores. O segredo da sobrevivência da produção leiteira açoriana, neste novo quadro, necessariamente mais competitivo, passará pela maior valorização desse nosso grande recurso natural, a erva, produzindo-se leite de uma forma mais sustentável, fazendo-se menor recurso a imputes externos - a única forma de garantir a produção de leite e de lacticínios mais baratos e de uma qualidade diferenciada.
O fim das quotas leiteiras poderá, também, implicar o fim do modelo de produção e transformação de leite vigente nos Açores?
Não necessariamente, mas estou certo que implicará ajustes no actual modelo de produção, tornando-o mais auto-sustentável, o que passa por maximizar e optimizar o binómio pastagem/ vaca leiteira. Em alternativa a produzir mais, numa lógica produtivista, mais e mais, teremos de produzir melhor, com uma preocupação crescente de aumentar a rentabilidade do processo produtivo. No que respeita à transformação deveríamos apostar numa maior diversificação, em particular em produtos de maior valor acrescentado, nomeadamente em novas variedades de queijo.
Com a produção aberta, regiões como os Açores ver-se-ão obrigadas a procurar outros modelos económicas, designadamente virando-se para as produções agrícolas e eventualmente de auto-subsistência?
As condicionantes orográficas (a altitude) e climatéricas (o vento) dos Açores são mais favoráveis à pastagem e à sua transformação em leite, mas, existem de facto algumas oportunidades de diversificação que não devemos desperdiçar, nomeadamente hortaliças, alguns frutos e especialmente algumas flores exóticas. Há que garantir no entanto transportes a preços competitivos para o necessário escoamento deste tipo de produções, para que elas sejam competitivas.
Quem vai dominar o mundo do leite, à escala global, após 2015?
Os países que melhor se posicionam, neste momento, para dominarem o Mercado global dos lacticínios são a Nova Zelândia e os Estados Unidos, por uma razão muito simples - preços de produção de leite mais baixos. Segundo os últimos dados da LTO, Holanda, o preço médio de pagamento de leite à produção, nos últimos 12 meses, foi de 36.37 na Europa, 30.04 na Nova Zelândia, e 30.01 (preços em Euro/100Kg, para leite com, 4.2% de gordura, 3.4% proteína e 249,999 células somáticas). Por outro lado, o aumento de consumo de lacticínios, em particular na China e na Índia está muito ligado às cadeias de “Fast Food” que, como sabemos, são na sua maioria pertença de multinacionais americanas.

(In Diário Insular)

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segunda-feira, janeiro 07, 2008

Mercado e evolução do preço do leite

Foi há uns anos que escrevi sobre o temor crescente face às exportações chinesas. Nessa altura disse que só havia vantagens. Por um lado porque todos passámos a ter acesso a bens e serviços mais baratos. Por outro lado porque, mais tarde ou mais cedo, teríamos a oportunidade de vender produtos para a China pois o seu aumento do rendimento iria certamente reflectir-se num aumento de procura. Os resultados aí estão. Os preços do leite estão a aumentar e com eles aumenta também o rendimento da lavoura dos Açores e, pelo efeito multiplicador, também o rendimento e bem-estar de todos os açorianos. É verdade que a indústria têxtil e de calçado tem problemas no Norte de Portugal mas esse é o resultado incontornável dos sectores protegidos artificialmente pela desvalorização do escudo e pelos acordos de comércio preferencial com os países europeus que terminou há anos.
A lição a tirar é que outros sectores igualmente protegidos como os transportes aéreos e marítimos para os Açores também têm os dias contados mais tarde ou mais cedo. Não sei porque razão é que insistem em manter essas concessões se a única consequência que tem é reduzir o turismo e o rendimento dos açorianos e protelar a necessidade de reestruturação desse sector.
Mas voltemos ao leite. A verdade é que o aumento continuado do preço do leite também vem demonstrar que estavam bastante errados os que lutavam contra a monocultura e pela criação de um novo ciclo económico ligado ao turismo. Talvez agora já estejam arrependidos de estarem a destruir bom solo agrícola com mau ordenamento urbano e com enormes auto - estradas que implicam a destruição de muita terra boa. Os especialistas dizem que o aumento do preço de leite no mercado internacional tem várias causas. Primeiro o aumento da procura de lacticínios na China, na Rússia e na América Latina. Em segundo lugar a política de quotas implementada pela União Europeia desde 1984 e a incapacidade de aumentar de um momento para o outro a produção de leite de forma significativa. Em terceiro lugar a redução das exportações da Austrália devido às vagas de calor, e da Argentina e da Índia que impuseram limites à exportação de leite em pó. Finalmente o aumento do preço das rações que provocou uma redução da produção de leite já que o preço do leite ao produtor só veio a reagir mais tarde.
O que se verificará com o aumento do preço das rações e do preço do leite é que a produção passará a ser mais concentrada nas regiões com mais aptidão natural como os Açores. É assim previsível que o preço do leite aumente para os produtores para que estes consigam produzir mais e para que as fábricas possam aumentar a produção de leite em pó para vender para a China. É também normal que, neste ano, a qualidade do leite se tenha deteriorado pois os lavradores preferiram manter gado doente no rebanho em vez de o abater como teriam feito há um ano. Isto antes de se saber as boas notícias vindas do oriente sobre o aumento do preço do leite nos mercados internacionais.
A verdade é que o contexto mudou e que cabe agora redefinir a estratégia do sector, em vez de ficar à espera dos rendimentos que, sem esforço, nos vêm de fora. Na ilha Graciosa já se queixam de terem uma fábrica sem Torre de Secagem para leite em pó pois este tem agora mais saída que o queijo.
É assim fundamental saber quais são as condições de transporte e comercialização de queijo para a China? Qual a apetência dos chineses para os queijos produzidos nos Açores? E quais os melhores canais de distribuição? Também é importante atender às questões ambientais, agora que o preço relativo do leite face ao valor da água das lagoas e dos sistemas de abastecimento de água se altera. A passividade face às mudanças positivas provenientes do exterior é tão tola como a lamúria face às mudanças negativas vindas de fora.

(Prof. Tomaz Dentinho In A União)

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sábado, dezembro 22, 2007

Gases Poluentes

A maioria dos políticos portugueses consideram uma grande vitória a aceitação por parte da União Europeia do não pagamento das licenças de emissão de gases poluentes para os voos para os Açores que cumpram obrigações de serviço público. É um engano.
O engano é pensar que o não pagamento dessas licenças tem vantagens para os açorianos e consequentemente para a reeleição dos políticos. Não é assim. Na verdade o regulamento que atribui a isenção de pagamento de licenças ao serviço público não é possível de implementar sem a manutenção da concessão de monopólios de transporte. E todos já aprendemos à nossa custa que a concessão de monopólios de transporte conduz a tarifas mais elevadas do que aquelas que resultariam se houvesse concorrência, mesmo se os voos praticados em concorrência fossem obrigados ao pagamento de licenças. Verificamos assim que a isenção de pagamento de licenças de gases poluentes não é um benefício mas um malefício pois cristaliza um sistema que está a prejudicar o desenvolvimento dos Açores há alguns anos, ainda por cima com o argumento maquiavélico de que está a promover o crescimento de economias periféricas. É difícil imaginar maior aldrabice: roubar aos pobres dizendo que os estamos a ajudar.
Mas o mal não termina aí. Na verdade a existência de licenças de poluição transaccionáveis vai ter dois resultados aos quais os açorianos não vão ter acesso. Por um lado não vamos ter acesso a aviões menos poluidores e mais modernos. De facto o que irá acontecer é que os aviões mais poluidores serão transferidos para as rotas dos Açores uma vez que aqui não pagam licença e ganham a renda monopolista, enquanto que os aviões menos poluidores e mais modernos serão utilizados nas rotas mais concorrenciais. Por outro lado perderemos a vantagem de publicidade quando os que nos visitam souberem e verificarem a enorme poluição que os açorianos estão a causar com transportes que, apesar de terem preços altíssimos, são subsidiados, não pagam licenças e provocam muito mais poluição do que os outros.
A culpa desta acção é tanto do Governo como da Oposição. O Ministro do Ambiente, que deveria estar preocupado com aquilo para que foi nomeado, vangloria-se em os Açores terem a possibilidade de poluírem um pouco mais com a concentração nessas rotas de aviões velhos e poluidores. O problema é que esquecem-se todas as consequências daquilo que defenderem pensando que os açorianos também as esquecem. O resultado da sua política é a manutenção das tarifas altas de monopólios concessionados, a cristalização desses monopólios prejudiciais para os Açores, a atracção de aviões obsoletos e poluidores para as rotas das Ilhas, e a criação de uma péssima imagem para uma Região que se diz ser ambientalmente diferenciada.
O problema das políticas regionais é que partem de princípios errados que são cumulativos nos erros de política que criam. O serviço público de transporte para os Açores é traduzível em transporte barato, seguro e frequente. Se esse serviço é melhor provido por um mercado livre de rotas aéreas mesmo quando pagam as taxas de poluição, porque razão se há-de continuar a defender a concessão de monopólios agora mais cristalizados com a isenção de licenças poluidoras?
Só consigo admitir três razões. A primeira é uma teimosia ideológica e nefasta que assume que só é possível alcançar o bem comum com empresas públicas. A segunda razão é admitir que a igualdade nas tarifas para todas as ilhas resulta em maior bem-estar para as ilhas mais remotas; o que é falso pois os preços únicos e iguais são mais altos e concentram os lucros nos monopólios concessionados. A terceira razão é gostarem de gerir empresas grandes e ineficientes.

(Prof. Tomáz Dentinho In A União)

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segunda-feira, outubro 15, 2007

A valorização do leite açoriano

A Mestre Anabela Gomes, docente do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores em entrevista ao Diário Insular defende uma valorização do leite açoriano.

Diário Insular (DI)- O Presidente da República veio aos Açores dizer que o leite tem futuro (além de dizer que a Autonomia já tem poderes que cheguem, mas isso não vem agora para o caso…). Referia-se, certamente, ao valor económico do produto. Concorda?
Anabela Gomes (AG)- Concordo, porque a alimentação e a mão de obra são os parâmetros mais importantes da despesa de uma exploração leiteira. Nos Açores a mão de obra é maioritariamente familiar e as nossas condições de solo e clima são favoráveis ao pastoreio, que é uma forma barata de alimentar o gado. Para ser mais rentável a lavoura deve pedir ajuda para reduzir os custos de produção. A indústria tem que investir para aumentar o valor dos lacticínios em vez de ganhar dinheiro só à custa do aperto no preço de compra do leite. A lavoura açoriana continua a queixar-se de pouca valorização do seu leite, apesar dos aumentos recentes pressionados pelo mercado, onde o leite já começa a valer ouro, sobretudo devido à conjugação da explosão do consumo em mercados emergentes e na baixa produção em países tradicionais de grande produção (Austrália, Nova Zelândia, Brasil, entre outros).
DI- A lavoura tem razão?
AG- Pois tem, mas parte da valorização depende da qualidade do leite entregue na fábrica e isso é também da responsabilidade dos lavradores. A outra parte compete à indústria, que não tem sabido ou querido fazer um bom marketing, para valorizar as especificidades do leite quanto à origem e aos componentes.
DI- O leite açoriano e os lacticínios estão, em boa parte, em mãos externas, com particular destaque para a ilha Terceira, onde se vive uma situação de monopólio. O que motiva tais entidades a “abafarem” o sector nos Açores?
AG- Estamos a ser usados para satisfazer as necessidades das empresas do continente sem ter em atenção os interesses dos nossos lavradores e da Região. Mas como o dinheiro para construir e “modernizar” essas fábricas vem do nosso orçamento, é justo que se imponham as condições necessárias para acautelar a nossa economia e valorizar os lacticínios. Não se pense que é só a lavoura que perde dinheiro. O leite açoriano é pouco transformado em produtos de alto valor acrescentado, alguns deles vendidos hoje a altos preços e como produtos da linha de saúde. Sabe-se que o nosso leite é rico em componente úteis a tais segmentos.
DI- O que se passa?
AG- A investigação feita no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores prova cientificamente esse facto. A modernização dos lacticínios não é só betão e aço inox, mas é principalmente tecnologia alimentar...
(In Diário Insular)

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sexta-feira, setembro 07, 2007

Ainda o preço do Leite

O Prof. Tomaz Dentinho do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores afirma que não é por acaso que todos os dias os meios de comunicação nacionais e internacionais informam sobre a subida ou descida das taxas de juro de referência dos bancos centrais da América ou da Europa. É porque umas décimas de alteração têm repercussões importantes no bem-estar de muitas pessoas a curto, médio e longo prazo. Da mesma forma que as notícias sobre a lavoura dos Açores tem uma influencia marcante no bem-estar dos açorianos. Um cêntimo a mais no preço do leite representa mais 500 mil euros para os lavradores terceirenses por ano e, devido aos efeitos multiplicadores de rendimento, mais 1,25 milhões de euros para os cidadãos da Terceira todos os anos. Dez por cento de aumento de quota na Ilha Terceira – que mesmo assim ficaria muito aquém da capacidade produtiva da Ilha para as actuais condições de mercado - significa, grosso modo, um aumento de rendimento dos lavradores 2 milhões de euros por ano e, também pelos efeitos multiplicadores, um aumento do rendimento dos cidadãos terceirenses em 5 milhões de euros por ano. Acontece que o preço do leite não subiu apenas um cêntimo mas três cêntimos, e deveria subir algo mais caso se verificassem as condições de concorrência que cabe aos governos regular. Por outro lado sabe-se que a capacidade de produção de leite da Ilha Terceira não é mais 10% da actual quota mas sim mais 40% ou 50%. Quer isto dizer que não devemos ficar por aqui, se é que se deseja o pleno uso das capacidades produtivas dos Açores e dos açorianos associado à sua remuneração em sistema de mercado concorrencial e eficiente.
É fundamental antecipar a evolução dos mercados. Neste momento verifica-se uma subida acentuada do preço do leite devido ao aumento incrível da procura na China e na Índia. No entanto, da mesma forma como a descoberta chinesa da obtenção de celulose a partir de uma planta local fez descer o preço da madeira de eucalipto para menos de metade do valor anterior, também é expectável que a instalação na China e na Índia de sistemas de produção de leite, agora estimulado pelo aumento do preço internacional, possa vir a criar, num futuro mais ou menos próximo, novos desafios à produção de leite nos Açores.
Que fazer? Primeiro perspectivar o que irá acontecer, segundo regular os mercados de forma a promover a concorrência entre unidades industriais, terceiro inovar nos produtos e nos processos e, finalmente, preparar investimentos na China e na Índia na produção e transformação de leite.
(In A União)

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