quarta-feira, maio 06, 2009

Fim das quotas leiteiras compensado nos Açores

Emiliana Silva, docente do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e candidata ao Parlamento Europeu defende um estudo que determine o impacto do fim das quotas leiteiras no rendimento dos produtores açorianos. A partir dele, diz, devem definir-se apoios.
A candidata açoriana do CDS-PP/Açores às eleições para o Parlamento Europeu (PE) defende a criação de um programa de apoios para os produtores de leite açorianos que lhes permita enfrentar o fim do regime de quotas leiteiras.
Em conferência de imprensa, ontem de manhã, em Angra do Heroísmo, Emiliana Silva explicou que esses apoios devem ser atribuídos em função da perda de rendimento, que deve ser calculada com base num estudo ao impacto do fim das quotas leiteiras nos ganhos dos produtores.

“Este apoio permitirá a subsistência de muitas explorações leiteiras e da economia regional, dada a importância deste sector no contexto açoriano”, alega a candidata.
Emiliana Silva pretende que este apoio, “ainda que possa ser transitório para potenciar a competitividade”, seja avaliado “após um estudo sério, que apure se o rendimento dos agricultores [sem a quota leiteira] lhes permite viver com dignidade”.
A candidata do CDS-PP/Açores (que surge no quarto lugar da lista nacional) defende ainda a extensão dos fundos do POSEI à comercialização dos produtos hortícolas, lacticínios, leite e carne açorianos.
“Será preocupação ainda a continuidade da produção da beterraba sacarina, assim como de todos os produtos tradicionais, caso do queijo, ananás, chá e vinho”, adiantou.
No caso das pescas, a sua intervenção terá como objectivo “a recuperação das 100 milhas da zona económica exclusiva e a criação de condições adequadas ao respeito pela diversidade marinha nas milhas que a região ainda detém”.
Emiliana Silva, que é doutorada em economia agrícola, pretende igualmente “transparência na comercialização do pescado ao longo da sua cadeia de valor, bem como na segunda comercialização, para tornar mais justa a remuneração dos pescadores”.
Manifestando-se contra a liberalização dos transportes aéreos e marítimos, defendeu a sua “utilidade pública, para que as ilhas possam ligar-se a mais baixos custos e igualdade de oportunidades”.
A candidata do CDS/PP, anunciou ainda a intenção de apresentar propostas para “o reforço dos equipamentos de telemonitorização das ilhas onde não estão assegurados os cuidados mínimos de saúde”.
Antes da sua intervenção, o líder do CDS-PP/Açores, Artur Lima, sublinhou que Emiliana Silva “é a melhor escolha para os açorianos”, frisando que, pelo facto de ser mulher, “não precisou de quota para entrar nas listas”.


(in Diário Insular)

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domingo, maio 03, 2009

“Vêm aí coisas más” para o sector do leite

“Cem quilos de leite padrão são pagos, nos Açores, a 28 euros e 23 cêntimos, enquanto o preço médio praticado na Europa é de 28 euros e 84 cêntimos. Com preços bastante mais baixos praticados nos Estados Unidos e na Nova Zelândia, vêm aí coisas más para o nosso sector do leite. Esperam-se mais baixas de preço, para manter a competitividade, ao longo deste ano”. As palavras são do professor da Universidade dos Açores, José Matos, que falava, ontem, no “9º Encontro de Química dos Alimentos”. De acordo com o especialista em matérias ligadas ao sector do leite, os produtores podem mesmo esperar “descidas de preço ainda mais graves” que as verificadas até ao momento.Na comunicação que apresentou no encontro, José Matos defendeu várias medidas para fortalecer o sector de leite nos Açores, nomeadamente a aposta na criação de um leite de Identificação Geográfica Protegida e até a comercialização de leite biológico. Matos lembra que o modelo de produção em vigor nos Açores já se “aproxima muito do biológico”. Para a implementação deste tipo de leite no mercado português, seria necessário, segundo o especialista, investir em estratégias de marketing, criar incentivos financeiros e serviços de inspecção eficazes, entre outras medidas.Além disso, o professor universitário defende a transformação do leite em produtos com valor acrescentado, direccionados para mercados específicos, como o geriátrico ou o pediátrico.

(in Diário Insular)

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

Leite indexado

Uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor é urgente para que sejam tratadas as questões verdadeiramente importantes para o sector, defende o professor do Departamento de Ciências Agrárias do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, José Matos, numa entrevista em que alerta para a necessidade de “falar verdade” à lavoura e para a ameaça vinda de Espanha.

Já defende uma fórmula indexante para o preço do leite ao produtor há vários anos. Recentemente foi anunciado que Governo Regional, associações agrícolas e indústria vão entrar em negociações para esse efeito. Espera que a fórmula vá de facto em frente?
Para mim essa não é uma grande questão, há outras bem mais importantes no sector. A minha sugestão foi sempre no sentido de afastar no caminho das questões importantes a discussão do preço, que é mais do que anual, é bianual. Essa discussão dos preços tem o condão, muitas vezes, de azedar o debate de temas importantes, que exigem que lavoura, Governo, indústria e até a Universidade dos Açores, estejam coesos na defesa de interesses comuns. Veja-se o que tem acontecido com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Tem sido esta questão que tem azedado aquilo que é importante fazer no âmbito deste centro.
Este é um problema quase eterno. Porque é que não se deu o passo para o resolver mais cedo?
É verdade. A questão do preço entre o comprador e o vendedor é uma questão eterna. O que vende quer receber mais. O que paga quer pagar menos. É o funcionamento do mercado, sempre foi assim. Nasci numa exploração leiteira, o meu pai era produtor de leite e também assisti desde pequeno a este debate. Não é nada de novo a guerra dos preços. O que há de anormal é que não se procure encontrar uma fórmula matemática de resolver este problema. Se é um problema que tem a ver sistematicamente com a flutuação dos preços no mercado, obviamente é possível através de uma equação matemática que essa flutuação de preços se repercuta no preço pago ao produtor. Umas vezes para bem, outras para mal, obviamente.
A lavoura pode cair em alguma armadilha nesta negociação de uma fórmula indexante?
Como tudo na vida e também nesta questão, há sempre um lado positivo e negativo. Com uma indexação, existirão também aspectos menos positivos. Há que garantir, quer para a indústria, como para o produtor, que os aspectos negativos não sejam muito pesados. Não queremos a indústria nem a produção falidas. É necessário que à volta desta questão da fórmula haja um debate muito sério.
A Universidade dos Açores tem um papel neste debate?
Alguns especialistas da UA, nomeadamente na área da matemática, podem tê-lo. Mas a intervenção dos investigadores da área agrícola até seria contraproducente.
Porquê?
É a velha questão que tem também a ver com o Centro do Leite e dos Lacticínios. Os investigadores, os técnicos que podem dar apoio quer à produção como à indústria não devem estar envolvidos nesta questão do debate do preço. Isso é trazer algum elemento de desconfiança em relação a pessoas com as quais quer a lavoura como a indústria têm de manter uma relação de confiança absoluta.
Um representante da UNICOL já avançou que existe uma posição de princípio contra a fixação administrativa de preços…
Sei que há esse cepticismo e que isto é de certa forma julgado como uma fixação administrativa do preço do leite. Não é o que defendo. Cada fábrica pode defender a sua própria fórmula e garantir a concorrência. O que é certo é que nas nossas ilhas, muitas vezes, ou há monopólio ou não há possibilidade de fazer funcionar as regras do mercado. Seria bom que as regras do mercado funcionassem.
O que é exactamente esta fórmula indexante? Como funcionaria?
Pode funcionar em função de diversos factores, que podem contribuir para uma fórmula única. Mas essa fórmula seria depois ajustada em função da produção e transformação de cada indústria. Admito que numa indústria que tenha como transformação leite em pó a fórmula deva ter isso em consideração, como no caso de outra que produza leite líquido ou iogurtes. Não é isso que está em questão. São permitidas nuances quanto a ilhas e fábricas… Não é difícil, os matemáticos encarregar-se-ão disso.
Com esta fórmula a lavoura açoriana seria muito diferente?
Não. A fórmula é um factor menor. A lavoura açoriana seria muito mais beneficiada pela resolução de heranças do passado. A montante, a nível da produção há a questão da discussão da propriedade, a dispersão das explorações… Ainda mais tendo em conta que há uma dinâmica que leva à diminuição do número de produtores, o que ajuda a resolver estes problemas. Neste momento é mais necessário e mais fácil encará-los do que nunca, porque o número de produtores decresceu incomparavelmente e será mais fácil negociar, não há laços afectivos tão grandes à propriedade... Desde que temos quotas leiteiras, o número de produtores caiu para metade. Existem hoje perto de 800 produtores de leite na Terceira. Eu presumo que nos próximos 10 anos fiquemos apenas com metade dos que temos actualmente.
Este decréscimo é assustador ou pode, pelo contrário, ser positivo?
Não é nada assustador! No espaço de 15 anos a lavoura quintuplicou a produção de leite nos Açores, embora o número de produtores tenha baixado para metade. Existem explorações maiores, mais eficientes, mais empresariais, com outros tipos de tecnologias. A qualidade do leite tem melhorado e presumo que melhore ainda mais. O que é preocupante é que nalgumas ilhas, por problemas demográficos, de envelhecimento da população, a produção de leite esteja a desaparecer. É o caso do Pico, Flores, Faial. É pena que não existam políticas que tentem contornar este fenómeno, que é muito forte.
Mesmo com o esvaziamento destas ilhas, a produção de leite vai ser sempre o grande sector da economia açoriana?
Sem dúvida nenhuma. Acima de determinada altitude, a produção de pastagem, valorizada pela produção de leite, é a melhor aposta. Tendo isto em atenção, percebe-se que em algumas ilhas não haverá agricultura sem vaca leiteira. E sem agricultura não me parece muito fácil sustentar um determinado número populacional que justifique outras actividades económicas. É o caso do turismo. Não é possível ter turismo sem famílias. Os picarotos dedicavam-se à agricultura e à caça à baleia. Hoje, muitos dividem-se entre a agricultura e alguns serviços ao turismo. Não colocam os ovos todos no mesmo cesto… A agricultura é a base, a raiz do sustento da população. Agora, nalgumas ilhas, com o envelhecimento das populações, encaro com preocupação se, sem agricultura, vai ser possível manter outros serviços e actividades. Veja-se o que aconteceu no Continente. À medida que a agricultura foi desaparecendo do país, as populações migraram para os grandes centros. Nos Açores ainda se vai a tempo de se tentar travar este processo. Um dos aspectos importantes é garantir que a agricultura se mantenha viável.
O cenário que a lavoura traça nesta altura é muito negro. A Associação Agrícola da Ilha Terceira avisa que muitas explorações poderão entrar em falência. É mesmo assim ou trata-se apenas de uma fase?
Gostaria de prever que é apenas uma fase muito transitória. Há uma grande instabilidade dos mercados a nível mundial e os lacticínios estão nesse contexto. Em 2007 essa instabilidade fez com que os preços disparassem, com uma maior procura da China e Índia e menor produção da Nova Zelândia e a Austrália. Dessa euforia passou-se para a vaga de retorno. Há menor consumo nos mercados asiáticos e este ano a Austrália e Nova Zelândia já recuperaram. O ano de 2007 foi eufórico, mas o preço do leite em pó já desceu para metade. Isto tem impacto a nível global e local. O consumo diminuiu também…
Mas esta é uma fase ou é mesmo o cenário com que a lavoura tem de lidar?
Da mesma forma que 2007 foi eufórico, 2008 teve um dinamismo muito negativo. Penso que a meados deste ano as circunstâncias melhorem. Nunca veremos preços como os de 2007. Há no entanto outro elemento de instabilidade, que é a Política Agrícola Comum e o fim das quotas leiteiras em 2015. Achei sempre muito estranho que se defendesse que a quota acabasse, mas parece que agora todos acham que a quota é importante. Isto porque é fácil perceber que o nosso principal concorrente em termos de mercado é a Espanha que, quando negociou as suas quotas, negociou abaixo das suas necessidades. Os Açores fizeram o contrário, foram claramente beneficiados, o que permitiu o crescimento do sector. Espanha é agora obrigada a comprar leite em Portugal. No momento em que a quota acabar, os espanhóis vão tornar-se excedentários na produção de leite e vão invadir o mercado português, nomeadamente o mercado de Lisboa, que é o mais importante para os lacticínios dos Açores. Logo a seguir a esta crise deveremos ter outro embate e temos de cuidar muito da competitividade do nosso sector.
Está-se a fazer o suficiente?
O fim das quotas do espaço da União Europeia é já em 2015…Está-se a fazer algumas coisas. Os próprios produtores estão, por exemplo, a cuidar da rentabilidade do seu processo produtivo, tratando, assim, também da competitividade do sector. Agora, com a entrada de Espanha no jogo, os produtores açorianos terão de produzir mais barato, é preciso dizer isso desde já.
Essa é uma mensagem dura para a lavoura…
Certo que sim, mas estamos numa altura em que há necessidade de falar com verdade, não dourar a pílula. É preferíveis termos uma pílula amarga e defendermos o nosso sector, desde o Governo, lavoura, políticos e universitários, sabendo que vêm dias maus. Temos muitos problemas, nomeadamente a nível de transformação e inovação.
Os produtos transformados dos Açores não são aliciantes neste mercado que se avizinha?
Têm sido o garante do crescimento do sector nos Açores, mas penso que não o continuarão a ser. Na Nova Zelândia, que tem muitas características semelhantes às dos Açores, a maior cooperativa de produção de lacticínios do país invadia o mercado mundial com um queijo. Neste momento tem 10. Oferece bebidas, produtos fermentados, com vários aspectos. Muitas vezes é o mesmo produto, com outra imagem. Temos de diversificar e aproveitar tecnologias de marketing.
Que peso tem a marca Açores?
Tem um peso enorme. É conhecida a qualidade do nosso processo produtivo. Sabe-se que as vacas andam livres, em pastagem, que têm uma alimentação natural. Todos no Continente conhecem essa imagem. Falta jogar totalmente esse grande trunfo. Todos nós conhecemos os anúncios de uma empresa do Continente que vende leite líquido como sendo natural, com animais em pastagem, até se vêem algumas imagens que parecem filmadas nos Açores. Fomos claramente ultrapassados por essa campanha de marketing. Agora, se surgirmos com algo semelhante, será sempre uma imitação. Devíamos ter feito isto há uns cinco anos atrás. Há claramente aqui uma corrida atrás do tempo. Que é preciso fazer.
(In DI-Revista)

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quinta-feira, janeiro 08, 2009

LEITE BIOLÓGICO E UHT - Lavradores querem construir nova fábrica de lacticínios

A Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT) está a preparar um estudo económico para avançar com a construção de uma fábrica de lacticínios para produzir leite biológico e UHT.
O recente abaixamento no preço ao produtor terceirense e “a necessidade de se criarem novos produtos com o nome da ilha” levam a Associação a ponderar seriamente a hipótese de entrar no “negócio”.Paulo Simões Ferreira, presidente da AAIT, julga ser possível criar novos produtos e apostar na marca “Açores” e na qualidade do leite da ilha. Esta associação de agricultores garante que já encontrou eventuais mercados para quantidades projectadas.Apesar do projecto ainda estar numa “fase embrionária”, a AAIT já definiu que o leite biológico será vendido no mercado nacional e o leite UHT será comercializado preferencialmente no mercado internacional. Neste projecto, os agricultores contam com o apoio da Comunidade Europeia e do governo regional. Contudo vão tentar sensibilizar a Universidade dos Açores para prestarem o apoio técnico. “Queremos vender o melhor que o Açores produzem e criar novos canais para escoar os produtos da ilha”, referiu, ao nosso jornal, Paulo Simões. A capacidade científica do Departamento de Ciências Agrárias, da Universidade dos Açores, “é reconhecida e num projecto desta natureza é fundamental”. A universidade já, por várias vezes, admitiu ter "capacidades técnicas" para desenvolver estudos e trabalhos que contribuem para a modernização da actividade agro-pecuária.Além do trabalho de avaliação, este Departamento universitário tem ainda capacidade de apresentar “propostas para a introdução de inovações e diversificação das produções que valorizem os produtos regionais”. Segundo conseguimos apurar, a Associação Agrícola já começou a reunir com algumas entidades para apurar a viabilidade deste investimento.Entretanto, os representantes da agricultura açoriana e Governo Regional vão reunir para discutirem o Plano Anual para 2009 e as orientações a médio prazo para o período 2008-2012.O reforço dos apoios à agricultura açoriana será uma das questões a abordar neste encontro. A Federação Agrícola dos Açores já defendeu a necessidade de um aumento substancial nas verbas destinadas a apoiar os investimentos na lavoura açoriana.
IFAP já pagou apoios da campanha
O IFAP - Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas já efectuou pagamentos aos agricultores de 494 milhões de euros referentes à campanha 2008-2009, segundo dados disponíveis no site do instituto.A informação, actualizada a 29 de Dezembro, aponta para a transferência de ajudas no continente num total de 494,079 milhões de euros, sendo a maior parcela a da primeira parte do Regime de Pagamento Único (RPU), com 301,591 milhões de euros.Este pagamento do RPU foi efectuado a 23 de Dezembro, dentro do prazo estipulado no calendário divulgado pelo IFAP - Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas.A maior parte dos pagamentos já realizados foi concretizada durante Dezembro.Para a manutenção da actividade agrícola em zonas desfavorecidas, o IFAP já pagou um adiantamento (até 70 por cento) de 73,2 milhões de euros.O adiantamento de 60 por cento da ajuda a vacas aleitantes, efectuada, segundo a informação do IFAP, no início de Dezembro, atingiu 41,4 milhões de euros, enquanto o primeiro pagamento aos produtores de ovinos e caprinos chegou aos 21,9 milhões de euros. O prémio específico ao arroz foi de 8,6 milhões de euros.O calendário apresentado pelo IFAP revela também que o último pagamento efectuado foi a ajuda transitória ao tomate, a 26 de Dezembro, num montante de cerca de 11 milhões de euros.

(In A União)

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terça-feira, janeiro 06, 2009

Leite precisa de concorrência

Para o presidente da AAIT, a Pronicol (que transforma o leite produzido na Terceira) é “o parente pobre do grupo Lactogal”. Daí que as mais-valias reconhecidas ao leite terceirense não estejam a ser rentabilizadas. Paulo Simões diz que é tempo deste modelo ser repensado. E que são necessárias alternativas. No leite. Mas também na carne.
Os lavradores terceirenses não têm qualquer influência na comercialização do leite que produzem. Há, em sua opinião, alguma forma de garantir aos produtores mais alguns ganhos, que, hoje, se perdem entre a transformação e a comercialização?
Existem várias formas. Penso, aliás, que é tempo de se começar a pensar noutras soluções para o leite da ilha Terceira, que não a que temos actualmente. Temos duas queijarias privadas na ilha, que, pelo que sabemos, têm a sua produção vendida. Mas o grosso da produção é absorvido pela Pronicol, através de uma parceria de venda com a Unicol. Essa produção resulta em produtos sem marca que poucas valias trazem. Penso que a própria Unicol terá de repensar a sua posição junto da Pronicol e começar a avançar para uma produção com a marca Açores, uma marca que vende lá fora. Sabemos que os produtos produzidos na Região e com a marca Açores são alvo de apoios importantes, sobretudo ao nível do transporte. Sendo tudo isto mais-valias que não estão a ser aproveitadas.
O que falta para isso acontecer?
Falta aparecer outra empresa que queira transformar leite da Terceira da mesma forma que o faz a Lactaçores, que absorve leite produzido em São Miguel, em São Jorge e no Faial.
Houve algum episódio de quem tenha manifestado intenção de explorar uma unidade de produção na Terceira, para lá da Pronicol?
Há uns anos, tivemos cá empresários que manifestaram a intenção de construir na Terceira uma unidade de transformação de leite. Mas, na altura, o que travou o processo foi a inexistência de produtores que abastecessem essa fábrica. Pelo que sei, terá sido dito por alguém com ligações à Unicol que quem deixasse de vender o seu leite à cooperativa que se as coisas corressem mal não havia regresso. A experiência ficou por aí, porque nenhum produtor quis arriscar.
Seria viável uma solução em que um grupo de produtores se associasse e, através de uma parceria público-privada, um conjunto de gestores profissionais orientasse a transformação e, sobretudo, a comercialização?
A ideia poderia vingar. Mas duvido da eficácia de uma parceria público-privada num projecto dessa natureza. Acredito mais na possibilidade de uma solução cooperativa ou privada.
Falta concorrência na transformação e na comercialização dos produtos agrícolas da ilha?
Pode-se dizer que sim. Mas também não nos podemos esquecer que a Unicol é uma cooperativa…


E funciona como tal?
Mais ou menos. Penso que a Unicol tem feito um bom trabalho junto dos agricultores, garantindo-lhes factores de produção a preços razoáveis. Não nos podemos esquecer desse seu papel. Relativamente ao leite, a Unicol, em boa verdade, faz o que pode. Percebo a sua direcção, que se encontra numa posição ingrata: fazem parte da empresa que lhes compra o leite e não têm a maioria nela, sujeitando-se à vontade de outros…
Voltando à falta de concorrência…
É o que lhe dizia: pode dizer-se que a falta de concorrência da transformação causa problemas ao sector. Mas a situação é complexa…
A Associação Agrícola da Terceira poderia ter uma palavra a dizer na transformação e comercialização?
Por que não? A Associação tem vindo a firmar-se como uma prestadora de serviços. E já foi contactada diversas vezes para servir como fornecedora de produtos agrícolas. Daí que já tenhamos pensado em avançar por esse trilho…
Mas a AAIT teria capacidade de se colocar no mercado como uma alternativa comercial?
Acho que poderia ter um papel nesse circuito. Poderia começar-se de baixo, com um pequeno projecto produtivo, aproveitando as estruturas que existem na ilha. Quer para a carne quer para o leite. Estas infra-estruturas existem, mas não estão a dar a resposta esperada pelos produtores. E a AAIT pode inverter essa situação.
Como?
Por exemplo, a associação poderia formar uma pequena cooperativa que comprasse leite e, recorrendo à aquisição de um tanque de frio, uma máquina de pasteurização e outra de empacotamento, poderia colocar no mercado um produto com uma marca diferenciada, que reflectisse as mais valias do leite produzido na ilha. Há apoios governamentais para estas estruturas. E poderíamos avançar para uma comercialização num trajecto de dentro para fora. E esse fora deveria ser para lá da Europa, nomeadamente para África, que procura leite e carne. É uma ideia. Temos conversado na AAIT sobre ela. Claro que falamos aqui numa ajuda, um complemento, e não numa alternativa ao que existe.
Porque a Terceira perdeu as suas marcas?
Perdeu-as a partir do dia em que a Unicol fez a parceria com o grupo Lactogal, através da empresa Pronicol. A Unicol detém 49 por cento da Pronicol, não tendo, por isso, poder dentro da estrutura decisiva. Esta solução apareceu numa altura em que a Unicol atravessava graves problemas financeiros, com muitos lavradores a esperarem seis e sete meses pelos pagamentos do leite. Reconheço que, daí para cá, nunca mais se assistiu a um atraso no pagamento. Mas a permanência num grupo muito mais vasto, que leva à produção de produtos sem marca, não está, actualmente, a garantir mais rendimentos aos produtores da ilha. Somos o parente pobre da Lactogal, porque a Pronicol é a empresa mais pequena do grupo. A empresa todos os anos dá prejuízo, e sabemos porque assim é.
Seria possível a Pronicol manter-se associada ao grupo Lactogal, mas produzir marcas diferenciadas?
Penso que esse seria o caminho mais adequado. Acho que a Unicol tem condições para tal. Não conheço ao pormenor o acordo entre a Pronicol e a Unicol, sobretudo se esta é obrigado a vender todo o leite à Pronicol. Mas parece-me que a Unicol, com algum do leite que compra na ilha, poderia enveredar por produtos de marca e colocá-los no mercado. Aliás, essa colocação poderia até ser feita internacionalmente para evitar concorrência com os produtos da Lactogal.
Isso obrigaria a uma nova fábrica?
Não. As fábricas existem. É uma questão de se acertar a utilização das infra-estruturas já existentes. Porque nãos e pode produzir leite UHT, leite biológico, queijo de marca da ilha e todo um conjunto de produtos que seriam colocados no mercado, garantindo mais algum rendimento. Parece-me ser uma opção mais sensata do que insistir-se na produção de leite em pó, que poucos ganhos significam para os produtores locais.
Tem falado, nos últimos tempos, do leite biológico. Há condições para tal na Terceira?
Sim. Acredito que sim. Aliás, parece-me que, neste momento, há lavradores na ilha a produzir leite biológico sem o saberem. Este leite é produzido à base de erva e silagens de milho e erva e com pouca ração. Ora, isso é a prática comum cá. Estes lavradores podem é não ter cuidado com os fertilizantes que colocam nas pastagens. Mas seria possível regular esta situação e, a partir daí, enveredar por este tipo de produção, que é muito bem aceite nos mercados mundiais…
E há outros produtos?
Exacto. Temos o queijo e a manteiga, produtos reconhecidos pelos consumidores. Tínhamos, por exemplo, o queijo Castelinho, que quase não se vê no mercado. Assim, há derivados que podemos produzir cá que, quase de certeza, terão aceitação no mercado nacional e internacional.
As explorações agrícolas da Terceira estão organizadas como empresas? Ou ainda se aplica aquela ideia de que o agricultor arruma as facturas e demais papelada num saco de plástico…
A grande maioria das explorações na ilha funciona como empresas. Temos uma geração de agricultores nova – até aos 40/50 anos – que evoluiu muito e que vê a Agricultura como um sector produtivo que deve ser gerido num formato de empresas. Aliás, hoje em dia, as pessoas deixaram de ser agricultores e passaram a ser empresários agrícolas. Portanto, essa mentalidade está a enraizar-se cada vez mais. Claro que ainda há uma pequena franja de produtores que não faz contas: paga o que deve e o que sobrar é seu. Mas, como lhe disse, trata-se de um número muito diminuto, porque a maioria conta ao cêntimo os seus custos e os seus ganhos, e sabem onde ganham e perdem dinheiro na sua exploração.
E é esse o caminho?
Sem qualquer dúvida. Quem não funciona como empresário agrícola acabará por sair do sector a médio prazo. Porque não vão conseguir sobreviver sem o rigor contabilístico que se exige actualmente na gestão de uma exploração agrícola, tal como em qualquer negócio.
Fala-me de uma geração nova a singrar hoje na Agricultura terceirense. Mas diz tratar-se de gente até na casa dos 40/50 anos. A lavoura interessa aos jovens? Ou é um negócio de gerações?
Há gente nova interessada, mas são sempre filhos de lavradores a continuarem o negócio dos pais. Aliás, duvido que possa ser de outra forma, porque sem o apoio dos pais e sem a transferência de terras, máquinas agrícolas e gado, é muito difícil começar uma exploração do zero. É quase impossível.
A maior parte das explorações agrícolas no mundo reflecte o cuidado de dimensionamento das infra-estruturas e do parque de máquinas à produção que ela desenvolve. Nota que esse cuidado também existe cá?
Ainda há alguns exageros, sobretudo ao nível da potência das máquinas agrícolas. Aliás, penso que, actualmente, temos máquinas agrícolas a mais na ilha Terceira. Há quem tenha estes recursos, mas os utilize em períodos muitos curtos no ano. No entanto, como a maior parte dos empresários agrícolas está a fazer contas à vida, é natural que comecem a perceber que, muitas vezes, é preferível pagar a uma empresa de prestação de serviços – e, felizmente, já existem várias na ilha e trabalham a preços razoáveis – do que possuir máquinas que são pouco rentabilizadas. Acredito também que esta é a tendência adequada para o sector.
A extensão rural seria uma mais-valia para a Terceira?
Penso que seria uma grande valia…
O que falta para ela ser implementada?
Não sei se vontade política.
O relacionamento entre os lavradores e a Universidade dos Açores acontece? É regular? Ou ainda se encontram muito de costas voltadas?
Não diria que estão totalmente de costas voltadas. Mas, por vezes, caminham sem sentido contrário. Por isso, entendo que há mais a fazer para que as partes gerem sinergias entre elas. De qualquer modo, posso garantir-lhe que, no que diz respeito á Associação Agrícola da Terceira, o Departamento de Ciências Agrárias tem demonstrado grande abertura para cooperar connosco. Acho que, algumas vezes, os produtores não procuram os universitários. Assim, a investigação acaba por não estar tão próxima da produção como deveria estar. Aliás, acho que neste sector a investigação, a produção e o Governo Regional deviam manter uma permanente cooperação. O que não acontece. O que é mau, na minha perspectiva. Tem que haver um maior aprofundamento nesta relação entre produção, investigação e decisores políticos.
A médio prazo, qual é a grande necessidade do lavrador terceirense?
O abastecimento de água e de electricidade nas explorações. Há anos que esta situação se arrasta. Muito tem sido feito, mas ainda há muito por fazer. Estamos bem servidos em termos de estradas, mas esta infra-estruturação é fundamental para que cada empresário agrícola possa melhorar a sua produção.
O emparcelamento é uma solução importante?
Sim. Tem-se feito algum, mas a um ritmo muito pequeno. Só em aquisições de terrenos é que temos verificado essa prática. As trocas são quase inexistentes. Esta é uma solução que devia ter uma concretização mais célere.
O Centro de Leite e de Lacticínios, anunciado pelo Governo Regional, traz alguma valia ao sector?
Interesse tem e muito. Na última reunião em que se abordou o assunto, assistimos a um impasse – e não sei se é ele que trava o processo: na formação dos corpos sociais, a indústria pretendia 50 por cento e os produtores os restantes 50 por cento. A Associação Agrícola da Terceira propôs que deve existir uma terceira entidade no processo, a investigação. Mas nunca mais houve contactos connosco sobre este assunto. Penso que são politiquices o que está a suster esse projecto. O Governo Regional diz que o projecto não anda porque os industriais e os produtores não querem. Mas não sei se é bem assim. Se a ideia partiu do executivo, ele devia levá-la até ao fim.
E o parque de exposições da Terceira…
É uma necessidade urgente. Não só pela feira anual, mas sobretudo pelo mercado agrícola semanal. São muitas centenas de pessoas que frequentam esse mercado e este parque de exposições daria melhores condições a essa realidade.
O mercado agrícola devia ser alargado e potenciado?
Sem dúvida. De qualquer forma, entendo que o formato de funcionamento deve ser o que existe hoje. São necessárias melhores condições e, eventualmente, um alargamento do horário. Em vez de funcionar um só dia, poderia funcionar dois. Aquele mercado representa uma fonte de rendimento importante para quem lá vende. E uma boa oportunidade para quem compra. Aquele espaço não deve ser visto como uma coisa paralela, mas como um espaço de actividade económica importante para o sector agrícola.
Que expectativas existem para 2009 no sector agrícola? Será um ano de crise?
Pode não ser, porque os gasóleos têm vindo a descer consideravelmente. As rações também, uma vez que houve uma grande descida no preço dos cereais. Espera-se também que, nos próximos tempos, o preço dos adubos tenha uma descida na ordem dos 30 por cento. Daí que as expectativas sejam positivas. Se a descida no adubo se verificar e não ocorrer mais nenhuma descida no preço do leite pago ao produtor, teremos um ano razoável e equilibrado. Se bem que, dificilmente, será tão bom como 2008.
Porque 2008 foi um bom ano agrícola?
O primeiro semestre, é certo, foi mau. Os cereais, o gasóleo e os adubos subiram consideravelmente de preço. Mas o leite também subiu 15 escudos. No último trimestre, verificou-se uma descida das rações e do gasóleo e o leite manteve o seu preço. Ou seja, tivemos três meses a compensar o primeiro semestre. O que resulta num saldo positivo para os lavradores. Embora a notícia do abaixamento do preço do leite a partir de 01 de Janeiro de 2009 tenha vindo estragar este sentimento.
Actualmente, essa profissão compensa? Manter uma exploração com 30 ou 40 cabeças de gado leiteiro garante um rendimento decente?
Se esse agricultor não tiver muitas rendas a pagar, é viável. Mas se o terreno em uso for todo arrendado e se esse agricultor tiver um compromisso financeiro, a sua vida fica em maus lençóis.
Qual o sentimento dos agricultores terceirenses com o futuro?
Há vários que estão optimistas. Mas os mais pessimistas não acreditam que este sector de actividade tenha futuro. Reconheço que as coisas não estão fáceis. Basta haver uma variação negativa no poder de compra de muitos lavradores para que uma parte considerável deles entre em falência.
Há uma noção de quantas explorações agrícolas na Terceira estão, actualmente, no fio da navalha da sobrevivência?
Penso que uma descida do preço do leite para lá da prevista e a manutenção dos preços dos adubos podem atirar para a falência cerca de 100 explorações agrícolas na ilha. E acredito que durante 2009 alguns lavradores sairão do sector.
Hoje em dia, quantas explorações agrícolas funcionam na Terceira?
Na produção de leite, o número não chega às oito centenas. Em 2009, se o preço do leite baixar mais e o preço do adubo não descer, ficaremos com menos de 700 explorações agrícolas a funcionar na ilha, certamente.
Isso é um problema?
Há quem diga que o número aceitável de explorações na ilha, tendo por base critérios de rentabilidade, é de 500 unidades. Continuo a acreditar que quanta mais gente estiver nesta actividade, melhor para ela. Mas é cada vez mais aceite a teoria de que as explorações agrícolas na Terceira, para serem rentáveis, têm de ser redimensionadas. Os defensores desta visão alegam que o mínimo aceitável no efectivo leiteiro é de 30 a 40 animais por exploração, sendo difícil a sobrevivência abaixo desse número. Embora saibamos que, na ilha, existem explorações com 20 vacas em que o agricultor consegue um bom rendimento. Como existem explorações com mais de 60 cabeças de gado onde o proprietário está em sérias dificuldades financeiras. Mas, durante este quadro comunitário de apoio, os objectivos esperados é conseguir explorações com uma produção de 250 mil litros ao ano, ocupando uma área entre os 25 mil e os 150 e os 200 alqueires de terreno.
Estão previstos mais resgates leiteiros na ilha?
No último Conselho Regional da Agricultura, o secretário regional do sector anunciou um resgate leiteiro em 2010. Penso que ele será aproveitado por vários lavradores na ilha.
Com o abaixamento anunciado do preço do leite na Terceira, há uma noção do seu impacto no rendimento dos agricultores?
As nossas contas indicam que cada agricultor perderá mais de 15 mil euros no seu rendimento anual. Em alguns casos, essa perda pode ascender aos 50 mil ou 75 mil euros. Falo aqui de explorações agrícolas com as suas contas estabilizadas.
Os lavradores conseguem aguentar essas perdas?
Não têm outro remédio senão aguentar. A expectativa é que as coisas não se agravem mais do que o previsto. A tendência dos mercados é de o preço do leite continuar a descer, nomeadamente na Europa, mas não acreditamos que desça muito mais, senão muita gente na Europa ficará no desemprego.
Durante 2008, os lavradores da Terceira, além dos problemas vindos de fora, viveram a braços com a falta de água…
Exacto. O que trouxe mais custos. Não tenho dados que me permitam dizer qual o impacto real nos custos de cada exploração. Mas é certo que houve impacto. Embora não nos possamos esquecer que o Instituto Regional do Ordenamento Agrícola (IROA) e as câmaras municipais, sobretudo a de Angra do Heroísmo, fizeram um grande esforço para atenuar a falta de água na lavoura. Houve camiões-cisterna a carregar água para alguns postos de abastecimento constantemente. Portanto, houve custos, mas nada se podia fazer outra coisa senão isto. Foi uma despesa que não tínhamos previsto, mas teve de ser.
Com o fim da quota leiteira a partir de 2015, como fica o sector?
O Governo tem estado a procurar minimizar esse impacto. Segundo sabemos, a ideia, actualmente, é tentar transformar a quota em POSEI, ou seja, continuar, após 2015, a vinda dos apoios financeiros das quotas sob outro formato. Se isso for conseguido, parece-me que o desaparecimento da quota leiteira não terá grande impacto nos Açores. Se tal não for possível, assistiremos um impacto enorme, porque não temos condições para competir com as grandes potências produtoras da Europa.
É comum dizer-se que a Agricultura é um dos sectores mais dependentes dos apoios governamentais e comunitários. Há quem garanta que, em algumas explorações, 70 por cento do seu rendimento é administrativo. Este é um sector que não consegue existir sem esses apoios?
A lavoura açoriana consegue sobreviver sem esses dinheiros. Os nossos colegas no Continente têm mais custos de produção do que nós, que conseguimos fazer leite com base na pastagem e nas silagens de milho e erva. E com pouco concentrado. Ao invés, no Continente, tudo é comprado. Fazer leite no Continente é mais caro do que o fazer aqui. Daí conseguirmos sobreviver a qualquer crise…
Mas uma exploração cá consegue sobreviver sem esses fundos?
Penso que sim. Mas tal implica um aumento da produção. O que não é possível actualmente, perante os preços tão baixos no mercado. De qualquer forma, convém explicar que os apoios da União Europeia não existem para sustentar os agricultores. Existem para manter os produtos básicos a preços baixos para toda a população. Esse é que é o objectivo dos subsídios comunitários. A Agricultura é acusada de ser uma “papa-subsídios”, mas a verdade é que o sector nunca pediu esses apoios. É uma política da União Europeia. Apenas isso.
A produção de carne continua a não descolar…
Penso que a carne IGP está no seu primeiro ano de comercialização. Tem mercado, embora junto do agricultor não tenha tido o reflexo esperado em termos financeiros. Ela é paga a três euros ao produtor e é vendida a mais de 12 euros, havendo casos em que o seu preço ronda os 20 euros. Quer isto dizer que há valor que poderia ser redistribuído de outra forma, porque ela surgir no mercado com 600 por cento de acréscimo ao seu preço de aquisição ao produtor é errado. Talvez a carne IGP padeça do mesmo mal que o leite: precise de concorrência, ou, pelo menos, de uma alternativa. Parece-me que elas podem aparecer em breve.
De onde? Do seio dos produtores?
Sim…
Num sistema cooperativo?
Sim. Ou mesmo através de outra empresa existente. Independentemente do modelo, entendo que é saudável existir concorrência. Ninguém deve estar sozinho do mercado.

(In DI - Revista)

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sexta-feira, janeiro 02, 2009

Preço do leite vai ter “fórmula indexante”

Associações agrícolas, industriais, e Governo Regional vão arrancar, “em breve”, com negociações para a criação de uma fórmula indexante ao preço do leite pago ao produtor na Região. A informação foi tornada pública em nota publicada pelo Gabinete de Apoio à Comunicação Social do Governo Regional, onde se avança que o objectivo é que os preços pagos aos produtores de leite evoluam em conformidade com o mercado do Continente e Europeu. A notícia foi bem acolhida no seio da lavoura terceirense. O presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira, Paulo Simões Ferreira, avança que esta medida pode ser o princípio do fim da desconfiança da lavoura em relação à indústria.“O Governo Regional tem de intervir para dar alguma moralidade ao mercado do leite. Esta medida pode vir a fazer com que os agricultores não se sintam enganados. Existem sempre dúvidas em relação ao facto de os industriais poderem ou não praticar determinado preço ao produtor. Com uma fórmula matemática, acabam-se as dúvidas. Perceber-se-ão os contornos reais que levam o preço do leite a subir ou a baixar”, adianta, em declarações prestadas ontem ao Rádio Clube de Angra. Opinião semelhante tem o professor do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, José Estevam de Matos, que tem vindo a defender a criação desta fórmula indexante. “Finalmente acordou-se para o facto desta medida ser muito positiva para o sector”, disse, em declarações ao DI, considerando que pode ser o fim “ da guerra a que se assiste todos os anos em torno do preço do leite”.
A fórmula
Na opinião do professor da UA, são vários os indicadores que podem ser utilizados para indexar o preço do leite ao produtor praticado no arquipélago. “O preço do leite nos Açores poderá entrar em linha de conta com os preços médios praticados na Europa. Por exemplo, a LTO, uma organização holandesa, disponibiliza todos os meses, inclusive na Internet, os preços pagos pelas principais empresas aos produtores”, explica. Outros indicadores, adianta José Matos, podem ser os preços praticados no mercado em relação a produtos como o queijo ou leite em pó ou de venda ao público de produtos que são produzidos em quantidade considerável “como o queijo de bola- o flamengo- ou a manteiga”. Para José Matos importa também encontrar uma “margem de manobra” que tenha em conta o factor do custo de transporte e mantenha o leite açoriano competitivo, sobretudo num cenário em que se aproxima cada vez mais o fim das quotas leiteiras no espaço comunitário. Paulo Simões Ferreira concorda, mas afirma não querer voltar a assistir a “absurdos, como no ano passado em que o leite no Continente era pago ao produtor 30 escudos acima do de cá”. “Isso tem um nome que prefiro nem dizer”, lança. Já o líder da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, que falava à RDP, acredita na adopção desta fórmula indexante, mas desconfia que a indústria a aceite de “braços abertos”.
Os industriais
A suspeita do líder da Federação Agrícola dos Açores pode vir a confirmar-se. Por agora, Mancebo Soares, da UNICOL, recusa-se a prestar declarações aprofundadas até conhecer a proposta que irá às negociações entre lavoura, Governo e indústria, mas adianta que, “a este respeito, a UNICOL tem uma posição de princípio”. “Não acreditamos em preços administrativos, pensamos que são coisas do passado. A economia actual não se compadece com preços fixados de forma administrativa, que se revelam depois prejudiciais para os utilizadores”, afirma. Já Costa Leite, da Insular, em declarações à RDP/Açores, afirma que esta fórmula dificilmente se poderia aplicar a todas as empresas das várias ilhas, visto que estas diferem muito no tipo de produtos que fabricam.
(In Diário Insular)

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domingo, novembro 23, 2008

Só o leite com erva garante sustentabilidade nos Açores

Está confirmado que as quotas leiteiras acabam na União Europeia em 2015. É um desastre ou uma oportunidade para os Açores? Sempre fui contrário ao aumento das quotas, mesmo quando muitos - e foram quase todos - achavam que a solução dos problemas da nossa pecuária passavam por aí! Sempre achei que um quadro de liberalização da produção nos poderia ser prejudicial, porque os países com grande capacidade de expansão da sua produção, como por exemplo a Espanha, poderiam passar rapidamente de uma situação de produtores deficitários - por lhes haver sido fixado uma quota inferior às necessidades do seu próprio mercado - para a de produtores excedentários, com a possibilidade de invadirem o mercado do Continente, dada a sua maior proximidade, mercado esse que tem sido fundamental para os lacticínios dos Açores. O segredo da sobrevivência da produção leiteira açoriana, neste novo quadro, necessariamente mais competitivo, passará pela maior valorização desse nosso grande recurso natural, a erva, produzindo-se leite de uma forma mais sustentável, fazendo-se menor recurso a imputes externos - a única forma de garantir a produção de leite e de lacticínios mais baratos e de uma qualidade diferenciada.
O fim das quotas leiteiras poderá, também, implicar o fim do modelo de produção e transformação de leite vigente nos Açores?
Não necessariamente, mas estou certo que implicará ajustes no actual modelo de produção, tornando-o mais auto-sustentável, o que passa por maximizar e optimizar o binómio pastagem/ vaca leiteira. Em alternativa a produzir mais, numa lógica produtivista, mais e mais, teremos de produzir melhor, com uma preocupação crescente de aumentar a rentabilidade do processo produtivo. No que respeita à transformação deveríamos apostar numa maior diversificação, em particular em produtos de maior valor acrescentado, nomeadamente em novas variedades de queijo.
Com a produção aberta, regiões como os Açores ver-se-ão obrigadas a procurar outros modelos económicas, designadamente virando-se para as produções agrícolas e eventualmente de auto-subsistência?
As condicionantes orográficas (a altitude) e climatéricas (o vento) dos Açores são mais favoráveis à pastagem e à sua transformação em leite, mas, existem de facto algumas oportunidades de diversificação que não devemos desperdiçar, nomeadamente hortaliças, alguns frutos e especialmente algumas flores exóticas. Há que garantir no entanto transportes a preços competitivos para o necessário escoamento deste tipo de produções, para que elas sejam competitivas.
Quem vai dominar o mundo do leite, à escala global, após 2015?
Os países que melhor se posicionam, neste momento, para dominarem o Mercado global dos lacticínios são a Nova Zelândia e os Estados Unidos, por uma razão muito simples - preços de produção de leite mais baixos. Segundo os últimos dados da LTO, Holanda, o preço médio de pagamento de leite à produção, nos últimos 12 meses, foi de 36.37 na Europa, 30.04 na Nova Zelândia, e 30.01 (preços em Euro/100Kg, para leite com, 4.2% de gordura, 3.4% proteína e 249,999 células somáticas). Por outro lado, o aumento de consumo de lacticínios, em particular na China e na Índia está muito ligado às cadeias de “Fast Food” que, como sabemos, são na sua maioria pertença de multinacionais americanas.

(In Diário Insular)

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quinta-feira, março 06, 2008

Jornadas Agrícolas

Há anos eram todos a favor da quota leiteira porque aumentava e segurava o rendimento, embora ser manifesto que, para além de ser contra natura, a quota iria limitar a produção, reduzir o preço ao produtor e baixar o rendimento dos agricultores. Assim aconteceu de facto e, não fora o milagre chinês e indiano, e a crise seria bastante maior do que aquela que se sente quando se olha para os campos e se constata a relativa estagnação do sector motor da economia dos Açores.
Há anos, perante a evidência da quota, deveria ter-se criado o mercado da quota para que se soubesse quanta quota seria de comprar ao Continente e a que preço, e também para estimular uma maior eficiência das explorações. Mas o Governo Regional e os agricultores que o circundam preferiram manter o sistema de distribuição politico - administrativa dos direitos de produção, o que provocou e provoca injustiças e ineficiências enormes sobretudo agora que se anuncia o fim da quota. É que, embora alguém tenha adquirido quota por montantes elevados, o valor da quota passa a zero quando os limites à produção deixam de ser efectivos. E se houvesse mercado da quota o preço da mesma já teria há muito dado sinais esclarecedores.
Desde há anos também que sabemos que os Açores são uma das melhores regiões do mundo para produzir leite e que, estando resolvido o problema logístico até porque o transporte por mar é mais barato do que o transporte por terra, os Açores têm garantia de se manter competitivos a nível europeu e internacional. Diz-nos agora o Pedro Pimentel que assim é, e que a Região é a parte do país melhor preparada para enfrentar o fim da quota leiteira. Só que, vindo da parte da indústria isso só quer dizer que a Região é a que consegue fornecer matéria-prima a preços mais baixos, aliás consideravelmente mais baixos que no Continente e em grande parte da Europa Ocidental. A questão que se coloca é como conseguir ao mesmo tempo preços altos para os produtores e competitivos para os industriais? A solução só pode passar pela utilização da matéria-prima em produtos mais diferenciados e para isso é fundamental, primeiro, apostar a sério numa melhor regulação do mercado do leite que impeça as condições de monopsónio existente; segundo, apostar na criação de novos produtos e processos através do recurso à investigação aplicada; é, finalmente, pensar na competitividade da cadeia de valor logística agro-alimentar o que implica também uma regulação mais adequada dos transportes aéreos e marítimos. Não é necessário que o governo faça, basta que adapte as regras em que os operadores privados da produção, da transformação, da investigação e da logística operam.
Mas onde o Governo Regional deve actuar certamente é no desenho de políticas ambientais associadas à agricultura. Até agora essas políticas têm sido piores para o ambiente: a limitação de encabeçamento tem provocado mais arroteias; a monitorização do maneio tem desviado os técnicos para gerar dados errados e inúteis; a protecção das lagoas só existe em bonitos desenhos no papel, e por aí fora. Temos de pagar aos agricultores, para além do leite e da carne, também a água e a biodiversidade que depende da gestão da terra por sua conta. Caso contrário comprometemos o desenvolvimento sustentável, associamos o rendimento dos agricultores a subsídios insustentáveis porque sem ligação a qualquer serviço e, sobretudo, deixamos de ter argumentos em Bruxelas para exigir que a Holanda e a Bélgica produzam leite sem criar enormes problemas ambientais. Na verdade se estes países pagassem os custos ambientais da sua produção de leite deixariam de ser competitivos.
(In A União)

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segunda-feira, março 03, 2008

Leite IGP

Os efeitos da crise energética na produção de leite foi um dos assuntos realçados na sua comunicação apresentada ontem no âmbito das Jornadas Agrícolas da Praia da Vitória.

Como é que a lavoura açoriana se deve preparar para ultrapassar as dificuldades?

Estamos a atravessar um período de instabilidade económica em termos gerais que também tem reflexos na produção leiteira. Desde 2002 que venho alertando para a necessidade dos Açores fazerem uma opção por um modelo mais sustentado, porque está a haver um certo exagero na utilização de cereais importados. A realidade do último ano ultrapassou as minhas piores expectativas. A correlação entre os custos de alguns factores de produção, como são o caso dos cereais e adubos, com a energia fizeram depender, ainda mais, a produção leiteira do preço do barril de petróleo. Por outro lado, tem havido um decréscimo da produção de leite nos mercados mundiais e uma maior procura de consumo por parte de mercados emergentes como a China e a Índia. Este é um quadro que não parece ser conjuntural, tem raízes profundas que obrigam os produtores da Região a tomar medidas o quanto antes.

FIM DAS QUOTAS

A liberalização da produção de leite na Europa que deverá culminar com o fim das quotas até 2015 é outro aspecto que a lavoura açoriana ainda não se preparou?

A liberalização na produção de leite na Europa é inevitável porque existe uma maior procura e já não se justificam medidas proteccionistas como as quotas leiteiras e os subsídios. Mas, apesar de tudo, a forma de produzir leite nos Açores continua a ser competitiva quando comparada com outros locais onde são utilizados meios muito mais intensivos e baseados nos cereais importados.

Vamos assistir a uma redistribuição da produção leiteira a nível mundial e os Açores têm que estar preparados para assumir um maior peso nesse aspecto no que se refere ao se peso em Portugal.

Com a liberalização os produtores mais pequenos vão ficar pelo caminho?

Isso já está a acontecer nos Açores há algum tempo uma vez que o número de produtores de leite tem tido um decréscimo acentuado, sobretudo, nas ilhas mais pequenas e não há jovens a entrar para o sector. Terminou a sua comunicação com um comentário que designou como “pequena provocação”. Defende que também o leite deve ser um produto com Indicação Geográfica Protegida (IGP).

Quais as razões o levam a defender essa posição?

Se tivermos em conta que existe uma certificação para a carne com a Indicação Geográfica Protegida (IGP) não entendo porque razão não há também o selo “Leite dos Açores” se o sector dos lacticínios da Região tem uma dimensão muito superior ao da carne?

Julgo que essa situação de o leite não ser certificado não faz qualquer sentido…Produtores e industriais andam em conflito sobre o preço do leite.

O valor praticado nos Açores é baixo?

Os preços do leite pago ao produtor deriva de vários factores que não iguais em todas as regiões produtoras. Sendo assim existe alguma dificuldade em comparar os valores pagos nos Açores com os dos continente e na Europa porque a estrutura de custos de produção e a dimensão das explorações são diferentes.Por outro lado o leite não é transformado nos mesmos produtos, havendo uns que têm uma valorização superior a outros no mercado. Felizmente cerca de 90 por cento do leite produzido nos Açores é transformado em leite em pó e queijo, que têm maior valor.É natural que o preço do leite nos Açores seja paga por um valor diferente do que acontece noutros locais. É necessário fazer uma avaliação sobre qual deve ser o preço justo tendo em conta os factores referidos. Julgo que a diferença entre o preço na Região e no continente não deve ir muito além do valor dos transportes. Os produtores também terão que ter em conta que não podem matar a “galinha dos ovos de ouro” e devem ter em conta as diferentes vertentes que devem ser ponderadas no preço do leite.

(In Diário Insular)

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domingo, março 02, 2008

Agricultura Açoriana discutida na Praia da Vitória

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Mercado e evolução do preço do leite

Foi há uns anos que escrevi sobre o temor crescente face às exportações chinesas. Nessa altura disse que só havia vantagens. Por um lado porque todos passámos a ter acesso a bens e serviços mais baratos. Por outro lado porque, mais tarde ou mais cedo, teríamos a oportunidade de vender produtos para a China pois o seu aumento do rendimento iria certamente reflectir-se num aumento de procura. Os resultados aí estão. Os preços do leite estão a aumentar e com eles aumenta também o rendimento da lavoura dos Açores e, pelo efeito multiplicador, também o rendimento e bem-estar de todos os açorianos. É verdade que a indústria têxtil e de calçado tem problemas no Norte de Portugal mas esse é o resultado incontornável dos sectores protegidos artificialmente pela desvalorização do escudo e pelos acordos de comércio preferencial com os países europeus que terminou há anos.
A lição a tirar é que outros sectores igualmente protegidos como os transportes aéreos e marítimos para os Açores também têm os dias contados mais tarde ou mais cedo. Não sei porque razão é que insistem em manter essas concessões se a única consequência que tem é reduzir o turismo e o rendimento dos açorianos e protelar a necessidade de reestruturação desse sector.
Mas voltemos ao leite. A verdade é que o aumento continuado do preço do leite também vem demonstrar que estavam bastante errados os que lutavam contra a monocultura e pela criação de um novo ciclo económico ligado ao turismo. Talvez agora já estejam arrependidos de estarem a destruir bom solo agrícola com mau ordenamento urbano e com enormes auto - estradas que implicam a destruição de muita terra boa. Os especialistas dizem que o aumento do preço de leite no mercado internacional tem várias causas. Primeiro o aumento da procura de lacticínios na China, na Rússia e na América Latina. Em segundo lugar a política de quotas implementada pela União Europeia desde 1984 e a incapacidade de aumentar de um momento para o outro a produção de leite de forma significativa. Em terceiro lugar a redução das exportações da Austrália devido às vagas de calor, e da Argentina e da Índia que impuseram limites à exportação de leite em pó. Finalmente o aumento do preço das rações que provocou uma redução da produção de leite já que o preço do leite ao produtor só veio a reagir mais tarde.
O que se verificará com o aumento do preço das rações e do preço do leite é que a produção passará a ser mais concentrada nas regiões com mais aptidão natural como os Açores. É assim previsível que o preço do leite aumente para os produtores para que estes consigam produzir mais e para que as fábricas possam aumentar a produção de leite em pó para vender para a China. É também normal que, neste ano, a qualidade do leite se tenha deteriorado pois os lavradores preferiram manter gado doente no rebanho em vez de o abater como teriam feito há um ano. Isto antes de se saber as boas notícias vindas do oriente sobre o aumento do preço do leite nos mercados internacionais.
A verdade é que o contexto mudou e que cabe agora redefinir a estratégia do sector, em vez de ficar à espera dos rendimentos que, sem esforço, nos vêm de fora. Na ilha Graciosa já se queixam de terem uma fábrica sem Torre de Secagem para leite em pó pois este tem agora mais saída que o queijo.
É assim fundamental saber quais são as condições de transporte e comercialização de queijo para a China? Qual a apetência dos chineses para os queijos produzidos nos Açores? E quais os melhores canais de distribuição? Também é importante atender às questões ambientais, agora que o preço relativo do leite face ao valor da água das lagoas e dos sistemas de abastecimento de água se altera. A passividade face às mudanças positivas provenientes do exterior é tão tola como a lamúria face às mudanças negativas vindas de fora.

(Prof. Tomaz Dentinho In A União)

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quarta-feira, setembro 19, 2007

As quotas leiteiras na Europa podem ser abolidas em 2012

O Professor Tomaz Dentinho, do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, explica porque razão em 2012, as quotas leiteiras na Europa podem ser abolidas.
“As quotas leiteiras podem ser abolidas em 2012”. É esta a frase da página 13 do Folha nº 7/2007 da Associação Nacional de Industriais de Lacticínios (ANIL). A informação terá sido impressa no Jornal de Notícias e faz todo o sentido. Na verdade se há um aumento generalizado da procura de leite a nível mundial, a que se associa um aumento acentuado do preço do leite, então não faz qualquer sentido limitar a produção para assegurar o nível de preços ao produtor.
Na página 3 da mesma Folha refere-se que o aumento do preço dos produtos lácteos nos mercados internacionais é impressionante. Desde o ano passado a manteiga subiu de 2500 Euros por tonelada para 3800 Euros por tonelada num aumento de mais de 50%. No mesmo período o Leite em Pó aumentou 100%, passando de 2000 Euros por tonelada em 2006 para 4000 Euros por tonelada em 2007. O soro lácteo, no mesmo período subiu de 700 Euros por tonelada para 1100 euros indicando um crescimento de cerca de 60%. As razões desde aumento generalizado no preço do leite já foram explicadas: um aumento impressionante da procura por parte da Índia e da China e a incapacidade de aumentar a oferta com o mesmo ritmo, também porque o aumento do preço dos cereais condicionou as produções mais artificializadas.
A ANIL também dá a sua explicação para os aumentos do preço do leite ao produtor, que se espera venham a aumentar ainda mais. Primeiro registou-se um recuo da produção no Continente Europeu motivado pelo aumento do preço dos factores produtivos não compensado imediatamente por um aumento do preço do leite. Segundo verifica-se uma falta de matéria-prima ao nível global havendo anúncios de mais aumentos do preço na Alemanha e na Espanha. Em terceiro lugar não tem sido possível transferir animais das zonas menos competitivas para as zonas mais competitivas devido a restrições de ordem sanitária e, finalmente, a indefinição da política comunitária está a condicionar os investimentos na produção nas zonas com mais aptidão produtiva.

Estas notícias são muito boas para os Açores. Por um lado porque é uma das regiões com mais aptidão para a produção de leite no mundo e ainda existe muita capacidade para aumentar a produção em qualidade e em quantidade. Por outro lado porque havendo falta de matéria prima na Índia e na China, e sendo o meio de transporte para esses destinos o marítimo, então os Açores passam a ser mais acessíveis do que muitas zonas do interior europeu ou americano, isto se houver sabedoria para modificar a política marítima. Finalmente porque o peso da produção de leite dos Açores face ao país passa de 25% há uns anos para 40% ou 50% dentro de pouco tempo, o que pode fazer transferir para a Região grande parte do poder da Cadeia de Valor do Leite. Isto se houver capacidade empresarial e política para o fazer.
No entanto há-de também haver aqueles que perdem poder e que se apressarão a restringir os benefícios que se podem vislumbrar para todos. Com a abolição da quota o Governo Regional perde a possibilidade da redistribuir com proveitos políticos para além de ficar com a culpa de não ter implementado o mercado da quota que facilitaria agora a transição para o fim da quota. Porque não existe mercado institucional da quota há lavradores que compraram a quota a um preço elevado e outros que a obtiveram das mãos do Governo. O que vão pensar os primeiros quando, depois de a comprarem por um preço elevado, verificarem que a sua quota não vale nada? Se tivesse havido um mercado organizado o Governo saberia quanto é que teria de compensar quando viesse o anúncio oficial da abolição da quota e esse seria uma compensação justa. Também me dá uma certa satisfação o fim da quota leiteira com o aumento do preço. Por um lado porque sempre disse que a quota era uma aberração embora estivesse muitas vezes sozinho. Mas sobretudo porque vai ser muito melhor para o desenvolvimento dos Açores.

(In A União)

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