domingo, novembro 15, 2009

“Limpar Portugal” também nos Açores

Os Açores serão parceiros da iniciativa limpar Portugal, a decorrer a 20 de Março do próximo ano.Terceira, S.Miguel, Faial e Santa Maria estão já a formar grupos de trabalho, cuja acção passará por limpar as zonas mais críticas das ilhas.“A ideia é que cada ilha organize o seu grupo de trabalho, uma vez que, dessa forma, será mais fácil conduzir os trabalhos”, afirma Cândida Mendes, da comissão do projecto Limpar Portugal para a ilha Terceira, em Angra.“Claro que o ideal seria limpar toda a ilha, mas as nossas actividades passarão por limpar as zonas florestais e zonas ribeirinhas”, continua.De acordo com Cândida Mendes, neste momento procede-se à caracterização das zonas de lixeira.O projecto Limpar Portugal é um movimento cívico cujo objectivo passa por promover a educação ambiental.De facto, de acordo com Cândida Mendes, “mais do que limpar a ilha pretendemos educar. Limpar sem educar fará com que daqui a um ano a situação esteja igual”.“Queremos que as pessoas percebam que nas ilhas temos coisas bonitas que valem a pena preservar”, observa.Uma das características desta iniciativa prende-se com a inexistência de apoio financeiro.“Apesar disso, vamos recorrer ao apoio da Câmara para a recolha do lixo”, disse Cândida Mendes.Os trabalhos serão realizados com voluntários e a divulgação estende-se às entidades públicas e privadas.
(in Diário Insular)

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sexta-feira, novembro 13, 2009

Há poucos voluntários para limpar os Açores


Os Açores vão estar envolvidos, a 20 de Março de 2010, no projecto “Limpar Portugal”. O que pretendem demonstrar com esta iniciativa?
Queremos acima de tudo mostrar que o povo português e neste caso específico os açorianos tem vontade de meter as mãos à obra e ajudar a limpar a cara e o coração das nossas ilhas, tal como aconteceu o ano passado na Estónia. É de facto uma oportunidade única de juntar esforços de todas as vertentes da sociedade para um objectivo comum, educar limpando. Em Limpar Portugal seremos todos alvo e promotores de educação ambiental e cívica, uma aposta na qualidade de vida e na mudança gradual de comportamentos. Tem sido fácil encontrar voluntários nos Açores para participar no projecto de limpeza?
Ainda temos poucos voluntários nos Açores, estão registadas cerca de 60 pessoas na página oficial de Limpar Portugal, mas isto deve-se essencialmente ao facto desta iniciativa estar a dar os seus primeiros passos na região em termos de divulgação. Existem já grupos de trabalho nas ilhas Terceira, S. Miguel, Faial e penso que também em Sta Maria, que começaram muito recentemente a organizar as primeiras reuniões e a estabelecer os primeiros contactos locais para angariar voluntários e estabelecer parcerias com entidades públicas e privadas. As respostas obtidas até agora por este grupo de trabalho terceirense provam uma grande abertura e aderência a esta iniciativa. Por isso acreditamos no seu sucesso também nos Açores. Pode-se desde já mencionar o apoio das seguintes entidades: Associação Rota do Futuro, Gê-Questa, Ecoteca, Montanheiros, Junta de Núcleo do CNE ….e isto é apenas o início.Aproveitando a oportunidade gostaria de deixar aqui nota sobre o registo de voluntários. Este é feito em http://limparportugal.ning.com/, em que é necessário fazer uma inscrição individual e depois procurar um grupo na sua localidade e associar-se ao mesmo. Espero que nos encontremos dia 20 de Março numa lixeira perto de si!
O dia seguinte é sempre o problema… Como será o dia seguinte a 20 de Março de 2010?
Que seja um dia em que muitos voluntários estejam ainda cansados mas satisfeitos por terem contribuído para esta causa. Esperamos sem dúvida ter uma ilha mais limpa, mas esperamos acima de tudo ter contribuído para chamar a atenção para o problema ambiental que é a deposição ilegal de lixos nas nossas ilhas e contribuir para a formação ambiental e cívica das pessoas em geral. Só assim podemos tentar para que esta realidade não se repita daqui a algum tempo. O dia 20 é apenas o culminar duma grande campanha de sensibilização, o mais importante será que tenha reflexo nas nossas atitudes diárias. E já agora podemos deixar aqui uma proposta que li algures na página oficial …. Por que não plantar uma árvore no local que ajudamos a limpar? Afinal o dia seguinte é o dia 21 de Março.

(in Diário Insular)

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segunda-feira, outubro 05, 2009

Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores

Cândida Mendes* & Eduardo Dias - Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores. GEVA
Sendo pouco menos do que desconhecidas para o Mundo, e mesmo dentro do nosso País, as turfeiras dos Açores são formações de uma elevada importância ecológica e ambiental, afectando significativamente os recursos hídricos das ilhas onde ocorrem.
Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).As turfeiras dos Açores são formações ainda bastante desconhecidas para o mundo e mesmo dentro do país, para onde a referência à existência destes ecossistemas, se restringe a pequenos mosaicos em áreas montanhosas de Portugal continental. O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras (Foto 1), devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (Foto 2) (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).

(In Naturlink)

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domingo, setembro 27, 2009

Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores

Sendo pouco menos do que desconhecidas para o Mundo, e mesmo dentro do nosso País, as turfeiras dos Açores são formações de uma elevada importância ecológica e ambiental, afectando significativamente os recursos hídricos das ilhas onde ocorrem.
Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).
As turfeiras dos Açores são formações ainda bastante desconhecidas para o mundo e mesmo dentro do país, para onde a referência à existência destes ecossistemas, se restringe a pequenos mosaicos em áreas montanhosas de Portugal continental. O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras (Foto 1), devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (Foto 2) (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).


Foto 1. Paisagem típica das zonas altas das ilhas dos Açores. No caso, uma turfeira de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.
Foto 2. Horizonte ferro-magnesiano plácico, promotor de impermeabilização dos solos e um dos grandes responsáveis pela grande extensão de zonas húmidas em altitude. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.
As plantas típicas de zonas turfosas, tais como as espécies do género Sphagnum (Foto 3) tiveram a sua origem nas regiões Atlânticas do Norte da Europa, chegando aos Açores no período pós glaciações por intermédio de aves (epizoocoria).
Foto 3. Comunidade de Sphagnum, género de briófitos dominante nas turfeiras dos Açores. Ilha de S. Miguel. Base de dados fotográfico do GEVA.
De acordo com uma série de condições ambientais, tais como níveis de precipitação, topografia do terreno, grau de naturalidade, desenvolvem-se tipologias distintas de turfeiras. Este trabalho pretende caracterizar em termos de ecologia uma tipologia que são as turfeiras dominadas por Sphagnum, que ocorrem normalmente nas situações de bacias endorreicas (Foto 4).

Foto 4. Turfeira em vale endorreico. Uma das situações mais típicas onde se desenvolvem turfeiras de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.

Foto 5. Espécime do género Sphagnum (no caso S. cappilifolium). Base de dados fotográfico do GEVA.

Os briófitos mencionados são inconfundíveis, basta ter visto uma espécie ou examinado ao microscópio algum filídeo (tipo folha) para se poder dizer se é ou não um Sphagnum. Distingue-se dos outros musgos pelo agrupamento dos seus ramos em fascículos (Foto 5).



Uma compreensão básica da ecologia das plantas do género Sphagnum spp. será útil para compreender o funcionamento, bem como a dinâmica e ecologia de uma turfeira dominada por estes briófitos. Estas formações em termos ecológicos, caracterizam-se por reter grandes quantidades de águas sendo estas bastante ácidas e pobres em nutrientes disponíveis.

A grande capacidade de absorção e retenção de água (Foto 6) e a sua cedência gradual após grandes chuvadas é de grande importância para uma série de factores a nível da paisagem tais como na minimização da erosão e no controle dos caudais das ribeiras. Contribui também para a recarga dos aquíferos locais. Esta capacidade deve-se à estrutura morfológica dos Sphagnum que podem suportar até 20 vezes o seu peso seco em água. Em secção transversal, um corte duma folha de Sphagnum indica dois tipos de células (Foto 7), pequenas células clorofilinas (fotossintéticas, importantes para a fotossíntese e respiração) e células hialinas (largas e incolores) com poros nas paredes, através dos quais a água se move. Esta característica de absorção e retenção é importante para a planta e para o crescimento da turfeira uma vez que estes musgos não possuem raízes para absorver solutos do solo, ou tecidos condutores internos para o transporte de água (Daniels e Eddy, 1985). Esta capacidade de retenção de água, por parte do Sphagnum vivo que cresce na superfície da turfeira, acrescentando ao movimento da água por capilaridade dentro da turfa, assegura que a toalha de água seja mantida um pouco abaixo da superfície ou à superfície da turfeira durante todo a ano. As turfeiras constituem assim verdadeiros reservatórios de água (Foto 8), se tivermos em conta que os recursos em ilhas são bastante limitados a salvaguarda destas formações contribuem sobremaneira para a perpetuação dos recursos hídricos locais. Realça-se que em 7 das nove ilhas dos Açores as turfeiras são as formações predominantes nas zonas altas das ilhas. As excepções são as ilhas de Sta Maria e Graciosa, cujos níveis de precipitação e nevoeiros (altitude inferior às restantes) não propícia as condições ambientais base para a formação de grandes extensões de zonas húmidas.

Além da sua capacidade de absorver e reter água as turfeiras apresentam águas bastante ácidas. Na maioria dos ecossistemas, o pH encontra-se próximo da neutralidade, no entanto em zonas húmidas dominadas por estes briófitos, o pH do meio é bastante ácido, por vezes atinge valores abaixo dos 3. Estudos efectuados neste tipo de turfeiras nos Açores permitiram verificar que no Verão o pH médio para este tipo de turfeiras ronda os 3,5 e no Inverno os 5,5 no Verão (Mendes & Dias, 2002). Estas diferenças ocorrem porque a quantidade de água do meio altera a concentração de hidrogeniões e as próprias espécies dominantes em cada estação apresentam variadas capacidades de troca catiónica. Esta capacidade deve-se à troca de iões hidrogénio (H+) por outros iões tais como potássio, sódio, cálcio e magnésio (k+, Na+, Ca2+ e Mg2+ respectivamente) (McQueen, 1990). O Sphagnum é capaz de se desenvolver particularmente bem em situações ombrotróficas (águas provenientes da chuva e pobres em nutrientes) como resultado da sua relativamente alta capacidade de troca catiónica (Rieley e Page, 1990). Esta capacidade do Sphagnum para acidificar o meio tem uma série de vantagens, em primeiro lugar as plantas usam esta troca como meio de obter nutrientes para o seu crescimento, e que são em muito pequena quantidade no seu meio (McQueen, 1990). Em segundo lugar, criando um habitat ácido, o Sphagnum “cria” um ambiente ideal para si próprio onde a competição com outras plantas é muito pequena, pois a maioria das plantas vasculares não tolera níveis baixos de nutrientes ou ambientes ácidos e húmidos.
Esta acidificação do meio que aparentemente parece favorecer apenas o Sphagnum, presta, um serviço de extrema importância às populações das ilhas, as turfeiras transformam-se em verdadeiros filtros de purificação de água uma vez que a retenção, na sua estrutura, de iões (por troca por hidrogeniões) tem como efeito secundário a limpeza da água.
Esperamos que os aspectos aqui focados acerca das turfeiras de Sphagnum contribuam não só para o conhecimento da sua ecologia mas que sejam um abrir de uma porta para a compreensão da sua importância para que sejam cada vez mais os esforços de conservação.

(In Naturlink)

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terça-feira, junho 09, 2009

Invasoras de elevado impacto nas formações naturais da ilha Terceira

Cândida Mendes & Eduardo Dias
Após a colonização das ilhas Açorianas pelo Homem, acerca de 550 anos atrás, deu-se início a um processo gradual de ocupação do território que teve como consequência uma alteração substancial da cobertura original, então dominada por florestas variadas e por zonas húmidas diversas. Assim, a área actual de ecossistemas nativos inalterados pelo homem nos Açores corresponde a uma fracção reduzida da área de cada ilha estando mesmo quase ausente na Graciosa e Corvo e muito fragmentados em várias outras das ilhas Açorianas.
Acompanhando a destruição do coberto original decorreu a introdução de uma grande quantidade de espécies com fins variados, desde culturas para a agricultura (as mais diversas hortícolas, frutícolas, forrageiras e mesmo sebes), para jardins e para fins comerciais diversos, madeiras, tinturaria etc. Algumas destas espécies introduzidas, após terem escapado dos locais onde foram introduzidas, tornaram-se pelo menos sub espontâneas (fixam-se naturalmente para além do seu local de introdução inicial formando populações que se mantêm a si próprias, sem a intervenção do Homem), em habitats naturais ou semi-naturais. Muitas delas propagaram-se de tal modo, em número e em área de extensão, que passaram a dominar algumas comunidades vegetais naturais, tornando-se uma ameaça, ou seja assumiram o carácter invasor substituindo, pelo menos parcialmente, as formações nativas. Ainda assim, é possível encontrar nas ilhas áreas relativamente extensas, dessas comunidades naturais únicas, relíquias daquelas que desde há muito desapareceram dos continentes de onde provieram, mas que nestas ilhas foram poupadas às glaciações. Razões biológicas, genéticas, éticas, estéticas e culturais cuja importância ultrapassa as fronteiras regionais, têm justificado a tomada de medidas diversas para o reconhecimento da sua importância e conservação, levantando a questão da necessidade de controlar a introdução de novas espécies e conter o avanço das já presentes.
A flora vascular da Terceira inclui, de acordo com Hansen & Sunding (1993), 1016 espécies. Embora uma parte considerável destas sejam exóticas, esta ilha apresenta ainda importantes áreas naturais onde as introduzidas praticamente não se fizeram sentir, como é o caso do interior da Serra de Santa Bárbara. A expansão das espécies exóticas avassalando e destruindo a flora nativa é sem dúvida um dos grandes problemas ambientais da actualidade mundial. No entanto, e embora seja uma linha de estudo explorada na região (lista de referência da flora Açoriana de Dias et al. 2006 pode ser consultada em http://www.angra.uac.pt/GEVA/WEBGEVA/Scheklistacores/ ScheklistAcoresstart.htm) existem para inúmeras espécies muitas dúvidas acerca da sua naturalidade. Ainda assim e independentemente das incertezas, é de consenso geral que de facto existem no Arquipélago áreas extensas completamente descaracterizadas por espécies introduzidas.
Assumindo assim incertezas mas assumindo também as inúmeras espécies reconhecidamente invasoras, segue-se uma breve descrição de algumas das mais problemáticas e causadoras de uma intensa descaracterização nas formações naturais desta ilha. Assinala-se que algumas destas invasoras são comuns a várias ilhas, eventualmente mais agressivas numa determinada ilha que noutra. Existem espécies que sendo extremamente graves estão confinadas a uma só ilha, como por exemplo a Clethra arborea que existe apenas na ilha de S. Miguel.
(In Quercus)

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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Dia Mundial das Zonas Húmidas

Cândida Mendes, Eduardo Dias e Cecília Melo

Este dia comemora-se internacionalmente desde 1997, 16 anos depois de ter sido assinada a convenção de RAMSAR que tem como grande objectivo a conservação de zonas húmidas. Em Portugal desde 1998, as iniciativas para assinalar este dia passam pela organização de campanhas de sensibilização e divulgação sobre a importância destes ecossistemas incidindo em temáticas diversificadas como avifauna, flora e recursos hídricos. Numa fase em que tanto se fala e escreve sobre a falta de água e as inúmeras causas para a mesma, e aproveitando este dia internacional, pretende-se contribuir para o re(conhecimento) destes ecossistemas nas nossas ilhas descrevendo genericamente a sua importância. O que são zonas húmidas?
Existem de facto muitas definições para o termo «Zonas Húmidas», algumas baseadas em critérios principalmente ecológicos e outras orientadas para questões associadas à sua gestão. A Convenção RAMSAR adoptou uma definição extremamente ampla: «áreas de sapal, paúl, turfeira ou água, sejam naturais ou artificiais, permanentes ou temporários, com água que está estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo águas marinhas cuja profundidade na maré baixa não exceda os seis metros», à qual se acrescenta, com a última revisão, que as zonas húmidas «podem incluir zonas ribeirinhas ou costeiras a elas adjacentes, assim como ilhéus ou massas de água marinha com uma profundidade superior a seis metros em maré baixa, integradas dentro dos limites da zona húmida». Esta definição inclui, assim, todos os ambientes aquáticos do interior e a zona costeira marinha.
Porque há tantas zonas húmidas nos Açores?A primeira razão pela qual existe grande quantidade de zonas húmidas nos Açores começa pelo facto de serem ilhas, ou seja rodeadas por mar, em que as zonas de transição entre o mar e a terra, correspondem a ecossistemas de natureza húmida (neste caso costeiras), correspondendo a uma imensa área, considerando as 9 ilhas e os seus ilhéus. Além das zonas húmidas associadas ao mar, existe grande quantidade de outras, designadas de terrestres. De facto, as zonas altas da grande maioria das ilhas apresentam elevados níveis de precipitação (directa e oculta - esta última é a correspondente à que as plantas retém por intercepção dos nevoeiros, os dois tipos de precipitação podem atingir valores de 13.000 mm em zonas como a Serra de Sta. Barbara). Associado à entrada de grandes volumes de água surge a formação de um horizonte (camada de solo) de ferro e magnésio (formação típica em solos de ilhas vulcânicas com elevados níveis de precipitação) que dificulta a drenagem das águas dando origem a uma quantidade considerável de água à superfície, condição base para o desenvolvimento de formações “encharcadas”.
Que tipos de zonas húmidas naturais existem nos Açores?
As ilhas açorianas, frequentemente descritas como ilhas míticas de verde exuberante, se observadas com detalhe por entre as árvores do meio natural ou mesmo por entre meios humanizados, assumem um tom azul inesperado fruto da água que (ainda) existe à superfície do nosso solo “negro”. Em termos de formações de zonas húmidas que esta água faz desenvolver, estas são tão ou mais diversas como são as 9 ilhas. A principal distinção pode ser feita entre zonas húmidas costeiras (com influência marinha) e zonas húmidas terrestres (sem influência marinha directa). Exemplos da tipologia costeira são baías e a costa dos ilhéus. Em relação às terrestres três grandes grupos: (1) os chamados corpos de águas livres, desde grandes lagoas como por exemplo a das Sete Cidades a pequenos charcos que ninguém viu ou conhece; (2) zonas apauladas desde turfeiras de musgão (Sphagnum) a florestas húmidas; (3) o terceiro grande grupo é chamado o de águas correntes, onde as nossas ribeiras estão incluídas.
Genericamente tratam-se de um mundo bastante diverso e amplamente distribuído nas nossas ilhas. Os ecossistemas de zonas húmidas foram durante séculos, e segundo a crença popular, zonas que deviam ser drenadas por serem considerados sem valor, sendo apenas fonte de maus cheiros, mosquitos e doenças. Um maior interesse e conhecimento científico das zonas húmidas tem vindo a identificar valores e funções para a biodiversidade e qualidade de vida das populações aumentando o interesse dos cidadãos por estes habitats.
Importância das zonas húmidas naturais nos Açores:
Em primeiro lugar queremos salientar a importância destas formações em termos de salvaguarda de recursos hídricos. Estas funcionam como reservatórios naturais constituindo “tanques de armazenamento” das águas das chuvas, libertando de modo gradual (para os aquíferos e ribeiras) a água que recebem. Nesta função realçamos as turfeiras (zonas húmidas que se caracterizam pela capacidade de acumular as plantas que morrem, estas não se decompõem devido ao encharcamento e à acidez das suas água e acumulam-se sob a forma de turfa), capazes de reter, na camada superficial destas formações, cerca de 20 vezes o seu peso em água (como exemplo pode-se mencionar que uma só turfeira com cerca de 300 000 m2 pode reter na sua estrutura mais de 180 000 m3 de água). Também a diminuição de formações naturais florestadas (nomeadamente turfeiras florestadas), tem um grande impacte em termos de recursos hídricos pois a quantidade de água interceptada dos nevoeiros diminui de forma acentuada. Estudos efectuados no GEVA demonstram que a componente florestal acresce de 2 a 4 vezes o valor da precipitação de um dado local.As zonas húmidas não favorecem apenas a recarga dos aquíferos mas também contribuem para a limpeza das águas, visto servirem de reservatório onde os sedimentos e substâncias tóxicas se depositam. Pode-se assumir que estas formações “consertam” comportamentos abusivos do homem que resultam na poluição das águas, para que a possamos usar nas necessidades mais básicas como a sede. A alteração progressiva da ocupação do solo, transformando zonas de vegetação natural com uma menor capacidade de retenção de água, tem contribuído para a diminuição da quantidade e qualidade das nossas águas. Este fenómeno de desaparecimento de zonas húmidas favorece também a ocorrência de “acidentes” tais como derrocadas de terra e o aumento torrencial do caudal de ribeiras. O aquecimento global é também um tema bastante actual, que se pensa ter como causa primordial o aumento da emissão dos gases de estufa, nomeadamente dióxido de carbono.
Acumulação de carbono sob a forma de turfa, Terceira.
Estes habitats, particularmente as turfeiras, têm capacidade de reter grandes quantidades de carbono sob a forma de turfa (as plantas não decompostas são formadas predominantemente por carbono), um facto que contribui, quando estas formações estão activas e no seu estado natural para minimizar este problema.Estes habitats cobrem cerca de 6% da superfície terrestre mas contém cerca de 14% do total de carbono. No entanto, a sua destruição progressiva, principalmente devido à conversão em áreas agrícolas, tem vindo a contribuir para o agravamento deste problema. Isto porque, quando ocorre a sua destruição, inicia-se um processo de decomposição e de transferência do carbono para a atmosfera. As zonas húmidas são importantes na estabilização das linhas de costa e protecção contra tempestades. As formações costeiras estabilizam as linhas da costa e fortalecem os solos, reduzindo a energia da ondulação e das correntes, enquanto os sistemas radiculares ajudam a fixar os sedimentos. A sua vegetação faz diminuir, por impacto, a velocidade da escorrência de água após grandes chuvadas, funcionando como meio de controlo à erosão. As zonas húmidas de altitude das ilhas açorianas, nomeadamente turfeiras, têm um papel fundamental no controle dos caudais ribeiras e linhas de água. A alteração progressiva da ocupação do solo, transformando zonas de vegetação natural em área agrícola (com uma menor capacidade de retenção de água), tem contribuído para a ocorrência de acidentes com perdas de vidas humanas tais como derrocadas de terra e caudais torrenciais (com transbordo) de ribeiras. As zonas húmidas proporcionam habitat a um amplo conjunto de espécies vegetais e animais aquáticos e muitos outros são dependentes destes habitats. As formações de água doce em termos mundiais, embora ocupem apenas 1% da superfície terrestre, são habitat para mais de 40% das espécies mundiais e 12% de todas as espécies animais. Estas promovem também a colonização de novos habitats e o intercâmbio genético, garantindo a viabilidade das populações de peixes e de aves aquáticas, pois constituem corredores de dispersão e migração, assim como "pontes de ligação" para muitas espécies. Da flora açoriana pode-se referir, de acordo com estudos efectuados no GEVA que cerca de 50% das espécies protegidas dos Açores desenvolvem-se em zonas húmidas ou estão dependentes destas (em termos de água e nutrientes). Como exemplos temos a Marsilea azorica (trevo muito raro que existe apenas na ilha Terceira) e o Chaerophyllum azoricum, entre outras. Da fauna destacam-se as aves aquáticas incluindo espécies terrestres e marinhas, residentes e visitantes. O papel das aves aquáticas é muito importante para o equilíbrio dos ecossistemas húmidos açorianos. O baixo número de espécies residentes nestes sistemas faz com que várias funções ecológicas dependam da interacção com as aves aquáticas visitantes. A importância destas aves tem vindo a ser reconhecido nos últimos anos, nem só pela sua função ecológica mas também pela importância turística para actividades como a observação de aves.O processo alteração da naturalidade destes ecossistemas, coloca em risco todo o mundo vivo associado às mesmas. Embora exista ainda grande quantidade de zonas húmidas nos Açores, uma parte considerável destas (senão) desapareceu, encontram-se bastante alteradas, pelo que urge a tomada de atitudes como o seu reconhecimento por todos e a compreensão da sua importância da qual depende a nossa própria qualidade de vida. Urge também a acção directa sobre estas formações. Não é possível desfazer actos, mas é possível refazer (recuperar e restaurar) zonas húmidas. Não queremos deixar de chamar à atenção que as zonas húmidas dos Açores possuem atributos particulares os quais não se resumem à sua diversidade biológica, valor hidrológico ou paisagístico, atributos esses que não se destinam, a serem consumidos de forma directa, mas antes a serem considerados um valor em si mesmos….o prazer de uma pescaria, um passeio à beira-mar e a vista sobre uma lagoa são apenas alguns exemplos.
(In Diário Insular)

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sexta-feira, janeiro 02, 2009

O relatório hidrogeológico de Lopo Mendonça e o debate na Universidade dos Açores

Eduardo Brito de Azevedo*
Muito embora reconheça que a paciência e a condescendência dos leitores tem limites, e que este assunto bem podia ter sido tratado pessoalmente, vejo-me obrigado a responder pela mesma via ao recente artigo de opinião do Prof. João Lopo Mendonça (DI, 23/12/2008) sobre o já estafado assunto da falta de água em Angra do Heroísmo, onde o meu nome é por várias vezes mencionado (para grande perplexidade minha!), sem que, aparentemente, tivesse tido o cuidado de se informar sobre o verdadeiro conteúdo do que foi tratado no encontro a que se refere, oportunamente e legitimamente promovido pela Universidade dos Açores. Evitaria assim referir de forma incorrecta (no duplo sentido da palavra!) os motivos que me movem, bem como o teor da minha intervenção e as conclusões das matérias que lá foram abordadas.
Teria tido, por exemplo, a oportunidade de saber que falei na precipitação em Angra do Heroísmo mas também na observada no Cabrito e no Pico da Bagacina. Verificaria que as séries de Angra (por serem mais longas) foram utilizadas para enquadrar o problema em relação à pesquisa do sinal climático (o qual necessariamente teria de estar reflectido nos valores de Angra!), enquanto as séries de altitude (Bagacina e Cabrito), mais curtas, foram utilizadas para a interpretação do balanço hídrico sequêncial na zona de recarga aquífera das nascentes do planalto central da ilha Terceira.

Mais uma vez foi possível demonstrar que os registos de qualquer uma das séries, pese embora o facto de terem sido observados valores abaixo da média (mas isso já todos nós aqui sabíamos!), situam-se dentro da variabilidade expectável que determina as respectivas normais (não gostaria de incorrer na indelicadeza de recordar que um valor normal se faz com valores abaixo e acima da média). Neste caso, e com recurso às séries longas de Angra do Heroísmo (é para isso que elas servem!), é possível verificar que a precipitação de 2007/2008 (até ao início do verão!) se enquadrou no intervalo expectável para os anos considerados “normais” (muito próxima do limite superior do segundo quartil da respectiva distribuição de frequência).
Esta minha análise é aliás corroborada pela opinião e registos do Instituto de Meteorologia. E não é “só agora que venho” dizer isto; bastaria ao professor Lopo Mendonça ter lido o material que foi produzido e publicado localmente, e ainda antes do seu relatório ( material que tive o cuidado de lhe enviar!).
Mais ainda. Inclusive com base na curta série de anos abordados pelo professor Lopo Mendonça (de 2000 a 2008), e para períodos hidrológicos equivalentes, é possível verificar que para o ano de 2001/2002 a precipitação no Cabrito fica abaixo da média qualquer coisa como -346.4mm. Menos precipitação, portanto, do que a observada em 2007/08 (-247.5mm). Ora, seguindo o mesmo racicíonio apresentado no artigo de Lopo Mendonça, teriamos tido menos um milhão e quatrocentos mil metros cúbicos de água potável no Cabrito, situação manifestamente mais penalizante da que é apresentada como excepcional para o ano de 2007/08.
E é exactamente este aspecto que está em causa, e até na origem do estudo que lhe foi encomendado sobre a matéria. Saber o que houve de “excepcional” no ano hidrológico 2007/2008 de forma a justificar a situação que este ano se viveu!
Pelos vistos, e em termos estritamente climáticos, não é preciso recuar muito tempo para que se constate aquilo que já tinha afirmado anteriormente; que situações como a que se observou no ano de 2007/2008 podem ocorrer com um período de retorno relativamente curto, e sem que necessariamente se verifiquem cortes de água para os mesmos níveis de consumo.
Depois a questão da evapotranspiração. Tivesse o professor Lopo Mendonça o cuidado de confirmar o que foi falado no debate na UAç para facilmente ter desvanecido as suas dúvidas sobre a forma como calculamos a evapotranspiração. Teria percebido (e poupado muito do seu esforço de escrita) que o que foi discutido e avaliado foi se o grau de grandeza do acréscimo (do acréscimo!) da evapotranspiração real, por via do aumento da temperatura observada para a zona em questão, era suficiente para explicar a situação verificada. Considerando naturalmente o que todos (?) nós sabemos, que a cedência de água do solo para o fenómeno da evapotranspiração em período de déficit hídrico não é linear face à evolução da evapotranspiração potencial.
Em suma, julgo que teriamos poupado algum do nosso tempo de férias de Natal (e do tempo dos nossos eventuais leitores!) caso o amigo Lopo Mendonça tivesse tido a gentileza de me contactar face às dúvidas que o assaltaram sobre o que teria sido dito sobre si, ou sobre o seu relatório, no debate da Universidade dos Açores. Podia ter, inclusive, utilizado o mesmo endereço electrónico com que me contactou a pedir a cedência de dados para o seu trabalho. Mas uma coisa posso desde já acrescentar no sentido de o tranquilizar: que me lembre, pouco ou nada se falou da sua pessoa. Menos ainda do referido relatório. Até porque, convenhamos, tudo o que havia para discutir sobre o assunto estava baseado no material que lhe foi por nós disponibilizado ou em que se fundamentou; designadamente nos meus dados climáticos, no modelo hidrogeológico do colega Cota Rodrigues e no papel do coberto vegetal para a recarga aquífera da ilha Terceira demonstrado pela engenheira Cândida Mendes.

(*Professor de Climatologia Aplicada da Universidade dos Açores)

(In Diário Insular)

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domingo, novembro 30, 2008

Apresentações e debates sobre a falta de água no Concelho de Angra do Heroísmo

Realizou-se, na passada Sexta-feira, integrada nas Comemorações do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores da Semana da Ciência e Tecnologia 2008, uma sessão de apresentação de dados e possíveis interpretações para a falta de água verificada neste Verão passado, no Concelho de Angra do Heroísmo, a que se seguiu um debate.
Esta actividade contou com o apoio do Centro de Investigação em Tecnologias Agrárias dos Açores, Centro do Clima, Meteorologia e Alterações Climáticas e Núcleo Regional da Associação Portuguesa de Recursos Hídricos.
A sessão, coordenada pelo Professor João Madruga, contou com a presença do Professor Álamo de Meneses, naquela que é a primeira participação pública do novel Secretário Regional do Ambiente e do Mar.
Estiveram presentes ainda a Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Drª Andreia Cardoso, a responsável pelos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Drª Sofia Couto, autarcas, deputados, alunos e público em geral.
O Professor Eduardo Brito de Azevedo, primeiro interveniente, após uma apresentação dos dados da precipitação dos últimos 120 anos, classificou os diferentes anos em secos, normais e húmidos. De acordo com este especialista, 2008, cai na categoria dos anos normais, com valores de precipitação acumuladas muito próximas da média. A temperatura mais elevada, poderia ter contribuído para uma aumento da evapotranspiração, todavia, o cálculo da evapotranspiração real, demonstra que essa perda é pouco significativa. Assim sendo, justificar a falta de água no Concelho de Angra do Heroísmo por este dois factores, revela-se pouco adequado.
O Professor Félix Rodrigues, apresentou de forma pictórica as anomalias da precipitação e da temperatura, relativamente às normais climatológicas, para 2008. Este investigador concorda com a análise anteriormente apresentada, referindo que até Junho de 2008, a sua interpretação coincide, no entanto, há desvios mais acentuados em Junho, Julho e Agosto que levam a colocar a hipótese de influência climática nos caudais das nascentes. No que se refere à temperatura, os valores médios mensais estiveram todo o ano acima das normais climatológicos, e apesar desse aumento das temperaturas mínima, média e máxima, não contribuir grandemente para a evapotranspiração real, contribuíu certamente para uma diminuição da precipitação oculta.
"Os nevoeiros na ilha, tem uma importância não desprezável na recarga dos aquíferos". Estes formam-se normalmente quando a diferença de temperatura do ar e do ponto de orvalho é inferior a 2,8ºC. As temperaturas elevadas nos meses de Abril, Maio, Junho e Julho, no interior da ilha, reduziram a quantidade de precipitação interceptada pela vegetação. Entendeu também que a escassez de água em Angra do Heroísmo, tem uma explicação multifactorial, relacionada com aspectos climáticos que precisam ser investigados, como por exemplo a forma como choveu, se intensamente ou chuva fraca e sua distribuição ao longo do dia, com os consumos, que apesar do consumo doméstico em 2008 ter sido ligeiramente inferior relativamente aos anos anteriores, não se sabe os gastos de água associados às grandes obras da via rápida da ilha, nem se sabe as perdas relacionadas com os sucessivos acidentes de ruptura das grandes condutas de água, que ocorreram também nas obras da via rápida. Uma análise dos sismos de 2008, tanto da sua intensidade como dos seus epicentros, não indiciam possibilidade de fractura do impermen dos aquíferos.
O Professor Francisco Cota Rodrigues, apresentou em resenha o estado actual do conhecimento hidrogeológico da ilha Terceira, nomeadamente os comportamentos da água nos estratos geológicos da ilha, os vários tipos de aquíferos existentes, suspensos e basal, os diferentes tipos de captação realizados ao longo dos séculos, como poços, poços de maré, captação de nascentes e furos de captação tanto de aquíferos suspensos como do aquífero basal.
Este investigador apresentou as áreas mais prováveis para a recarga de nascente na ilha, dando ênfase às nascentes do cabrito e do nasce-água.
Para Cota Rodrigues, a maioria das nascentes da ilha Terceira tem caudais muito baixos, tornando-se difícil a sua captação, sendo muito poucas aquelas que tem caudais elevados e que faz com que seja efectivamente eficaz, em termos económicos a sua captação.
Referiu ainda que a precipitação oculta tem grande importância na recarga de aquíferos, especialmente no Cabrito e Nasce-Água.
Os furos de captação de aquíferos suspensos deverão ser bem estudados, entendendo ser necessário que alguns captem o aquífero basal.
A Doutora Emília Novo, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, levantou um vasto conjunto de questões que teriam que ser estudadas para dar uma resposta cabal a esse problema. Acentuou que os aquíferos pequenos, como o caso do Cabrito, são muito vulneráveis à estiagem, possuindo comportamentos imprevisíveis. Considerou que aí a precipitação oculta poderá desempenhar um papel importante na recarga e a forma como choveu tem efectivamente importância na recarga desse mesmo aquífero.
Os dados da precipitação dos últimos anos não apresentam uma tendência clara de modo a se poderem relacionar com alterações climáticas, mas, apesar disso, devem ser devidamente acompanhados porque podem indiciar tendências futuras.
A evapotranspiração real, de facto não foi incrementada até porque as plantas optimizam a "gestão das águas" abrindo e fechando os estomas para regular a perda de água. Referiu que o estudo desse fenómeno é importante no contexto das alterações climáticas.
De acordo com esta investigadora, se o Cabrito é vulneravel à estiagem, o aquífero basal é vulneravel à salinização. Tanto um tipo de exploração como outro necessita de ser monitorizado.
No que se refere à recarga artificial de aquíferos, defendeu que não se deverá avançar para essa solução porque, tal como referido por Cota Rodrigues, o tempo de permanência da água nesses aquíferos é reduzido, o que corresponde a não armazenamento eficaz. Haverá que conhecer muito bem a estrutura dos aquíferos e o seu volume para que tal solução seja eficaz.
O Engº Dinis Pereira, do Gabinete de Ecologia Vegetal do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, apresentou os principais resultados do estudo da distribuição das turfeiras de Sphagnum na ilha Terceira referindo a importância dessas turfeiras na retenção de água na ilha e na regulação de caudais de nascentes. Referiu ainda os impactos que estão associados a arroteias de zonas húmidas na disponibilidade de água na ilha.
Apresentou as principais áreas da ilha sensíveis em termos de arroteias e apresentou estimativas para a avaliação da precipitação oculta nessas zonas.
A Engª Cândida Mendes, explicou a formas como o Sphagnum, acumula água, classificou os vários tipos de turfeiras existentes na ilha e quantificou a quantidade de água que foi perdida numa arroteia realizada nas proximidades das Furnas do Enxofre. Afirmou ser possível a recuperação de zonas húmidas na Terceira e deste modo regular a disponibilidade hídrica. A água armazenada na turfeira arroteada, que exemplificou, era superior à capacidade da Lagoa artificial do Cabrito.

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