segunda-feira, outubro 05, 2009

Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores

Cândida Mendes* & Eduardo Dias - Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores. GEVA
Sendo pouco menos do que desconhecidas para o Mundo, e mesmo dentro do nosso País, as turfeiras dos Açores são formações de uma elevada importância ecológica e ambiental, afectando significativamente os recursos hídricos das ilhas onde ocorrem.
Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).As turfeiras dos Açores são formações ainda bastante desconhecidas para o mundo e mesmo dentro do país, para onde a referência à existência destes ecossistemas, se restringe a pequenos mosaicos em áreas montanhosas de Portugal continental. O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras (Foto 1), devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (Foto 2) (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).

(In Naturlink)

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sexta-feira, setembro 04, 2009

Turfeiras dos Açores

Para quem ainda não conhece, gostaria de referir neste post um dos mais importantes patrimónios naturais dos Açores, infelizmente bastante desconhecido da maior parte de todos nós, as turfeiras.
As turfeiras, ou turfa, é um tipo de vegetação habitualmente encontrado nas partes altas (mais 500m altitude) que está perfeitamente adaptado à captação de grandes volumes de água, quer por precipitação directa quer por intercepção de nevoeiros, mais conhecida entre nós por vegetação húmida. As turfeiras conseguem, conforme o seu tipo de composição vegetal, reter entre 73% (turfa de graminóides) e 94% (turfa de Sphagnum) do seu peso em água, funcionando como uma enorme esponja que armazena a água regulando as escorrências de água após eventos de grande precipitação evitando não só as erosões dos solos, bem como que estas águas se percam de imediato. As turfeiras têm igualmente um papel bastante importante de purificação da água, uma vez que retêm na sua estrutura todas as substâncias que estão diluídas, incluindo substâncias tóxicas.
Por estas e por outras razões as turfeiras são essênciais para a manutenção não só da diversidade natural das ilhas, bem como para garantir níveis de fornecimento de água correctos.
Infelizmente, ao que tudo indica, cerca de 50% da área de turfeira dos açores já foi alvo de intervenção humana, em particular para criação de pastagens ou de floresta de produção.
É um facto de temos por garantido que as ilhas açorianas não têm problemas de falta de água, mas situações como as ocorridas na ilha Terceira mostram-nos que a redução de áreas ocupadas por turfeira terão consequências graves no ciclo hidrológico.
Poderão encontrar mais informação neste artigo publicado por elementos do Gabinete de Ecologia Vegetal e Aplicada (GEVA) da Universidade dos Açores, e que serviu de suporte para este post.

(in Horta XXI)

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Uma turfeira de esperança

O ciclo da água esteve à beira de ser interrompido na Terceira. Leis visionárias que ficaram por cumprir; análises erradas e erros de previsão; uma ideia maligna de desenvolvimento – são causas da destruição do principal sistema natural de armazenamento de água da ilha. Um plano para recuperar o ciclo da água aposta na capacidade de regeneração da natureza entregue a si própria. Todas as esperanças têm agora um nome: chamam-se turfeiras.
Em Agosto de 1977, a então Assembleia Regional dos Açores aprovava a primeira legislação no tempo autonómico sobre a protecção de ribeiras, lagoas e nascentes de água e respectivas bacias hidrográficas. Um documento inovador para a altura, sobretudo em Portugal, mas também ao nível internacional, conforme reconhece o secretário regional do Ambiente, Álamo Meneses, especialista académico na área. Cerca de 31 anos depois, em Janeiro de 2008, a secretário do Ambiente declara o falhanço do aparelho normativo açoriano de protecção dos recursos hídricos e das sucessivas políticas regionais para o sector (ou ausência delas), ao reconhecer que o colapso na produção, captação e distribuição de água na ilha Terceira só pode ser evitado através do regresso à natureza na única zona fiável de produção hídrica, que é constituída pelo complexo Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto, sujeito a arroteias (desde 1976 e até ao presente) e consequente destruição da vegetação endémica, em particular as turfeiras, responsáveis pelo armazenamento natural de água e que praticamente desapareceram em vastas extensões da zona.A comunidade científica ligada à Universidade dos Açores na Terceira vinha denunciando a degradação das condições naturais de armazenamento de água desde há vários anos, aparentemente sem ser ouvida. Até que no Verão passado a água faltou nas torneiras dos consumidores do concelho de Angra do Heroísmo, relançando o debate sobre as causas da escassez. Ficou claro no debate que, entre muitas causas – incluindo erros de previsão e de gestão e até diminuição da pluviosidade -, a principal estava na destruição do tecido vegetal natural na zona de recarga dos aquíferos principais (Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto). Ou seja, os cientistas da Universidade dos Açores tinham razão.Álamo Meneses não só veio dar razão aos cientistas da Terra-Chã/Pico da Urze, como agiu no sentido por eles já várias vezes preconizado, ao anunciar o início de um vasto plano de recuperação das condições de recarga natural dos aquíferos, confirmando ser essa a única solução sustentável para garantir o abastecimento de água à ilha Terceira. O plano teve de imediato o apoio, expresso à nossa reportagem, de cientistas como Cota Rodrigues, Félix Rodrigues, Eduardo Brito de Azevedo e Eduardo Dias, os mesmos que desde há vários anos vinham analisando a situação e apontando caminhos até agora não trilhados.Mas o apoio unânime não quer dizer que a medida seja a solução garantida só por si. Eduardo Dias, por exemplo, chama a atenção para o facto de a desarborização em altitude poder influenciar de forma significativa a capacidade de armazenamento de água, mesmo depois de as turfeiras recuperarem. É que as árvores em altitude são auxiliares indispensáveis à precipitação significativa de água nas turfeiras. Quer isto dizer que pode-se chegar a um ponto em que as turfeiras tenham recuperado, mas não estejam a receber água suficiente. É por isso que Eduardo Dias chama a atenção para a necessidade de rearborizar zonas de altitude que comprovadamente interfiram no processo de precipitação na zona Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto.
Colapso do sistema
O complexo Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto, situado no centro da Terceira, é a zona principal e mais fiável de produção de água na ilha Terceira. A parte Oeste da ilha é demasiado jovem para produzir água em quantidade e qualidade aceitáveis e a zona da Praia da Vitória, sendo embora antiga, está demasiado fissurada para permitir aproveitamentos significativos de água. Esta análise é partilhada por Álamo Meneses, que neste caso presta declarações enquanto especialista académico, e Cota Rodrigues, especialista em hidráulica.O complexo alimenta três grandes fontes e cerca de uma dezena de outras fontes de menor dimensão, que, em conjunto, garantem a parte de leão do abastecimento de água à ilha Terceira canalizado sem ser a partir de furos. Para mais, trata-se de água que as análises comprovam ser de boa qualidade, ao contrário da água dos furos que se alimentam no aquífero-base (o principal aquífero da ilha, que está em contacto com o mar), sempre sujeita a processos de salinização (mistura entre água doce e água do mar) e susceptível de depositar a poluição que se gera à superfície, em particular os metais pesados, conforme chamam a atenção os especialistas e o próprio secretário Álamo Meneses. A pressão sobre a água da Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto tem várias origens. Desde logo, segundo dados citados por Álamo Meneses, o consumo de água por habitante subiu na Terceira, nos últimos trinta anos, de 100 litros por dia para mais de um metro cúbico, ou seja, subiu mais de dez vezes. Também subiu significativamente o consumo de água pela lavoura. Para além do consumo próprio dos animais, novas regras de higiene e salubridade nas explorações induziram consumos ainda mal calculados. Por outro lado, a pluviosidade tem descido. Dados dos últimos sete meses de 2008 (Centro de Estudos do Clima, Meteorologia e Mudanças Globais da Universidade dos Açores) indicam descidas, em Angra do Heroísmo, Cabrito e Pico da Bagacina, superiores a sessenta por cento à média dos anos 1970/99. A subida do consumo e a descida da pluviosidade - que dados difusos, que não conseguimos confirmar com rigor, remontam há cerca de dois anos, pelo menos no interior da ilha - precipitaram a escassez de água devido às arroteias e à destruição do coberto vegetal na Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto. O ciclo da água foi quebrado nessa zona, conforme explica Cota Rodrigues. A precipitação, independentemente da quantidade, passou a infiltrar-se com rapidez e a água a sair também com rapidez nas nascentes. Perdeu-se o ciclo lento, garantido pelas turfeiras, que armazenavam água no Inverno e continuavam a infiltração para os aquíferos durante a Primavera e o Verão. Conforme explica Álamo Meneses, quanto mais chovesse no Inverno, maiores seriam os caudais nas nascentes nessa estação. Mas, em qualquer caso, as nascentes desceriam sempre para níveis críticos na época de menos chuvas. Conforme reconhece o secretário, a escassez de chuva pode ter precipitado a situação, mas o colapso do sistema era uma questão de tempo, mesmo que chovesse em abundância.
Os “inocentes” do costume
As arroteias começam a ser realizadas na zona crítica de infiltração de água na segunda metade dos anos setenta do século XX, com o então Plano Pecuário dos Açores (PPA). Este plano, lembra Álamo Meneses, acabou por concretizar nos Açores um sonho antigo, já do século XIX, de arrotear e disponibilizar para a produção pecuária vastas zonas que estavam entregues à natureza e que se consideravam, à base do senso-comum da época, desaproveitadas.No entanto, o PPA avança contra a lei, uma vez que o Decreto Regional nº 12/77, de 20 de Agosto – a tal lei inovadora que se refere no início deste trabalho – já chamava a atenção para aspectos de protecção das nascentes que ainda hoje são considerados actualizados. Por exemplo, os efeitos da actividade humana na degradação da água são referidos, tal como é referida a necessidade de preservar os aquíferos. As bacias hidrográficas são consideradas zonas a proteger e são definidas áreas e medidas de protecção. A lei prevê coimas para os prevaricadores.Ao que tudo indica, a lei regional inovadora, que, aliás, permanece em vigor, não foi aplicada e o mesmo tem acontecido com todas as leis subsequentes, incluindo as directivas europeias. Eduardo Dias lembra que as turfeiras destruídas com as arroteias são protegidas por directivas comunitárias “desrespeitadas sistematicamente”. O resultado desta tábua rasa legal é a transformação do solo em pastagens. O processo que começou há trinta anos na Caldeira Guilherme Moniz continua ainda hoje, conforme a nossa reportagem observou e fotografou. Álamo Meneses entende que não é útil abrir uma caça às bruxas neste processo, mas sim “resolver o problema”. Há arroteias públicas e arroteias privadas autorizadas por organismos públicos. O mais comum foi “uma ideia de desenvolvimento sobrepor-se a outra, que hoje sabemos não ser a mais correcta”. A solução do secretário do Ambiente é aprovar, “com urgência”, legislação que concentre as autorizações para intervir em zonas que devem estar protegidas. “Assim evita-se a dispersão e uniformizam-se os critérios”, disse.No caso da Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto, a solução vai passar, “onde se revelar necessário”, por intervir depois do facto consumado, o que significa que a Região deverá avançar para limitações ao uso do solo e expropriações de zonas que sejam indicadas para ficarem entregues à natureza, em nome do interesse público. E do mal feito não haverá procura de culpados.
Turfeiras recuperam depressa e bem
As turfeiras da ilha Terceira são endémicas, o que quer dizer que os estudos realizados em outras áreas podem não se adaptar às turfeiras locais. O que interessa apurar é o modo como as turfeiras recuperam quando um terreno é devolvido à natureza, para assim se tirarem conclusões sobre o tempo que é preciso esperar para que o ciclo da água normalize no complexo Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto. Segundo Eduardo Dias, que tem trabalhado com as turfeiras locais, um bom exemplo pode ser recolhido na Lagoa do Negro. A zona deixou de servir de pastagem para gado há cerca de quinze anos e as turfeiras já têm hoje uma dimensão significativa. Eduardo Dias acredita que em duas décadas poderá ser possível recuperar zonas de turfeiras pré-existentes, tendo mais dúvidas sobre o tempo necessário para reintroduzir turfeiras em zonas onde hoje existem pastos suportados à base de adubação.A reportagem de DI conseguiu observar a recuperação de uma turfeira numa zona do Cabrito onde foi removido um tanque de combustíveis norte-americano há cerca de oito anos. A turfa ainda é pequena, mas já ocupa o solo duma forme significativa. Melhor recuperação evidenciam turfeiras localizadas em pastos abandonados numa zona mais alta, também no Cabrito, situação que a reportagem do DI também observou.Uma turfeira adulta retém cerca de sete litros de água por cada quilo da sua massa e drena essa água lentamente para o interior dos aquíferos sobre os quais se situa. Os especialistas afirmam que, além de ser um método natural, é o melhor método que se conhece de armazenamento de água, sendo que a drenagem acontece normalmente, sem necessidade de intervenção humana.
Soluções engenhosase erros de previsão
As crises de água não são desconhecidas na ilha Terceira. Por exemplo, a literatura refere uma crise significativa na segunda metade do século XIX e a memória colectiva ainda guarda bem viva a crise do início dos anos noventa do século XX, que antecedeu a crise agora em curso.Em cada crise o homem encontra uma solução, melhor ou pior. Na crise do início dos anos noventa do século XX a solução passou pela abertura de furos. Sabe-se hoje que a solução não foi a melhor a médio e longo prazo, sobretudo porque essa crise já anunciava o colapso do complexo Caldeira Guilherme Moniz/Maciço do Pico Alto, que, no entanto, ninguém à altura foi capaz de identificar.O próprio secretário Álamo Meneses, que, à altura, como perito da Universidade dos Açores, estudou a situação e escreveu sobre a crise, confessa hoje que também ele não foi capaz de identificar a situação. “Penso que ninguém à altura identificou o verdadeiro problema, que hoje sabemos ser de ordenamento do território”, enfatizou Meneses.Antes, no século XIX, a falta de água afectou de forma dramática a freguesia de Santa Bárbara, obrigando a população e as autoridades a serem engenhosas. A solução foi a construção de um reservatório de enormes dimensões para a altura e considerado muito dispendioso para as finanças públicas da época.Tal reservatório, inspirado nas cisternas que sempre abasteceram a zona – de fracos recursos hídricos, note-se -, cumpriu a sua missão desde a época em que foi construído até ao sismo de um de Janeiro de 1980, altura em que foi instalada uma rede domiciliária de distribuição de água.O “Reservatório de Santa Bárbara”, como é conhecido, implantado nas margens da Ribeira das Sete, na encosta da Serra de Santa Bárbara, está hoje envolvido por uma zona de lazer e é considerado uma notável construção em alvenaria de pedra, podendo ser visitado pelo público.
(In DI-Revista)

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domingo, fevereiro 01, 2009

Árvores na Caldeira Guilherme Moniz

A reflorestação das zonas mais altas da Caldeira Guilherme Moniz é essencial para a eficácia do plano de recuperação do seu papel na recarga dos aquíferos ali existentes. Quem o diz é Eduardo Dias, professor da Universidade dos Açores e director do Gabinete de Ecologia Aplicada dos Açores (GEVA). Em declarações à Antena 1-Açores, o investigador (uma das autoridades regionais na matéria) explica que a devolução da Caldeira Guilherme Moniz à natureza para o restauro do sistema de turfeiras pode não ser suficiente para evitar que a água não chegue aos aquíferos e ás nascentes daquela zona. Além da recuperação das turfeiras, é necessária a reintrodução das florestas de altitude, que desapareceram daquele local. “São zonas chave, por vezes de pequena dimensão. Normalmente as cumeadas, as partes mais altas, onde o processo adquire funções fundamentais. Verifica-se que a maioria das ribeiras da ilha vão, exactamente, nascer nesses sítios”, explica o académico.
Eduardo Dias esclarece que esses arvoredos têm um papel fundamental na precipitação oculta, responsável por uma parte significativa da recarga dos lençóis de água na zona central da ilha, os quais asseguram três quartos da água disponibilizada pelas nascentes da Terceira. “A precipitação retirada das nuvens pelos arvoredos chega a ser quatro vezes mais do que aquela que a chuva normal debita sobre estes sistemas. Portanto, a altura do ano em que estes processos são mais importantes para a recarga do aquífero é, exactamente, no início do Verão, com os nevoeiros de São João, e de meados de Agosto para a frente”, esclarece Eduardo Dias. Segundo o académico, o restauro das turfeiras no maciço central da ilha (Guilherme Moniz/Pico Alto) e a reflorestação de algumas zonas altas desse complexo contribuirão, garantidamente, para a recuperação do ciclo da água na ilha Terceira. A Universidade dos Açores, segundo académico, desenvolveu um modelo que permite perceber quais as zonas em que é fundamental a reflorestação.
Medidas importantes
Na quinta-feira passada, o secretário regional do Ambiente anunciou um conjunto de medidas para a recuperação do ciclo da água na Terceira. Esse plano, além de comportar a abertura de quatro furos de captação de água até ao Verão e, nos próximos anos, prever a construção de duas lagoas artificiais, impõe a reserva de terrenos no maciço central da ilha (Guilherme Moniz/Pico Alto) para a produção de água. Neste caso, o plano define como fundamental a recuperação das turfeiras (vegetação que absorve a água e a vai libertando lentamente para infiltração nos aquíferos) na Caldeira Guilherme Moniz.
No final da semana, Eduardo Dias, em declarações ao DI, assegurava tratar-se de um projecto importante, embora ressalva-se que a sua concretização demorará, no mínimo, uma década.Também Félix Rodrigues, docente da Universidade dos Açores e especialista em questões ambientais, classifica de “razoável” o plano governamental.“Apresenta soluções a longo prazo. Nomeadamente a reserva de áreas da Caldeira Guilherme Moniz para o restauro do sistema de turfeiras. E apresenta medidas mais imediatas, no caso, furos de captação de água. Claro que, neste caso, falamos de investimentos que implicam alguma incerteza, já que quando se fura nunca se sabe, concretamente, quais os caudais que se vão conseguir”, argumenta.
Legislação inovadora
O plano apresentado pelo secretário regional do Ambiente visa garantir água para a ilha nos próximos anos. O projecto impõe a protecção das nascentes e zonas circundantes aos aquíferos mais importantes da ilha. Curiosamente, já em 1977, a Região era pioneira nessa matéria, ao produzir um decreto regional que estabelecia perímetros de protecção de nascentes e as consequentes coimas pelo seu desrespeito. O decreto regional nº12/1977 de 20 de Agosto estabelece, entre outras medidas, que os terrenos onde existam nascentes ficam protegidos num raio de 50 metros, podendo, em casos especiais, esse perímetro ser alargado aos 500 metros. “Essa legislação, em boa verdade, foi inovadora. Mas pecou por ser muito genérica. Querer proteger, num limite de 50 metros, uma nascente que proporciona poucos litros de água e aplicar a mesma medida a uma nascente que garante milhares de litros não é razoável”, comenta Félix Rodrigues.
Proteger a água
Quinta-feira, o secretário regional do Ambiente anunciou que terrenos entre a Serra do Morião e o Pico Alto poderiam ser adquiridos pelo executivo para serem reservados ao restauro de turfeiras. A medida, incluída no plano governamental para a sustentabilidade dos recursos hídricos da ilha, visa a diminuição da actividade agrícola naquela zona. Ao mesmo tempo, segundo o secretário do Ambiente, vão ser monitorizadas as actividades industriais em curso no Cabrito, nomeadamente a extracção de pedra. O plano para a sustentabilidade do abastecimento de água na Terceira inclui ainda a interligação das redes do IROA e das Câmaras Municipais de Angra e da Praia. Prevê ainda medidas imediatas: abertura de quatro furos de captação de água (um na zona da Terra-Chã/Fonte Faneca e três nos Cinco Picos) e pela construção de pelo menos duas lagoas artificiais, uma no Cabrito e outra a Sul do Pico da Bagacina. A abertura do furo na Terra-Chã/Fonte Faneca deverá começar dentro de duas a três semanas, segundo os Serviços Municipalizados de Angra. “Estas serão direccionadas, sobretudo, para a Agricultura, libertando a captação de água para o abastecimento público. Os novos furos também terão esse objectivo, embora se pretenda investir no tratamento de água que possibilite o seu uso doméstico”, explicou Álamo Meneses. Segundo Álamo Meneses, o IROA irá comparticipar nos custos dos ramais aos agricultores, para evitar o seu recurso às fontes públicas.

(In Diário Insular)

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sábado, janeiro 31, 2009

Turfeiras e falta de água

Cientistas da Universidade dos Açores dizem que a escassez de água na ilha Terceira não tem a ver com a falta de chuva mas sim com a destruição das turfeiras no interior da ilha.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Restauro das turfeiras no Cabrito é possível

A recuperação da capacidade de retenção de água da Caldeira Guilherme Moniz é possível, mas demorará, no mínimo, uma década. A opinião é dada por Eduardo Dias, professor universitário no Departamento de Ciências Agrárias do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores e director do Gabinete de Ecologia Vegetal Aplicada (GEVA) da Universidade dos Açores. O especialista, em declarações ao DI, adianta que esse trabalho exigirá o restauro das turfeiras nas zonas baixas da Caldeira e o repovoamento com espécies linhosas das zonas altas, conseguindo com isso o aumento da capacidade de retenção de nevoeiros. “Esse trabalho é possível. Há vários casos nos Açores em que foram recuperadas turfeiras. A lagoa do Negro é um exemplo. Os terrenos a Norte foram abandonados há 20 anos e, hoje, temos lá uma turfeira jovem. No caso da Caldeira Guilherme Moniz, também será possível, embora o sucesso dependa do estado dos terrenos e do grau de destruição do sistema de turfeira”, explica. Daí que o académico assuma que é viável o plano de recuperação da capacidade de retenção de água da Caldeira Guilherme Moniz, anunciado pelo secretário regional do Ambiente como uma das medidas para garantir a recarga dos aquíferos na zona do Cabrito. “É preciso perceber-se que cada uma daquelas áreas representa um caso e que as medidas de restauro das turfeiras terão de ser adequadas ao estado desses terrenos. Nalguns locais será necessário conduzir as águas, para provocar o encharcamento e, eventualmente, alterar a orografia. Noutros locais, onde ainda residam turfeiras, ou pelo menos os princípios que as geram, a intervenção poderá ser mais fácil. Tudo dependerá do que encontrar-se ali. Mas é certo que falamos sempre de um trabalho a médio prazo. Se houver acção do homem no restauro, dentro de uma década poderemos ter o sistema a funcionar. Se não houver intervenção, tudo poderá demorar pelo menos 20 anos”, argumenta. Eduardo Dias alerta ainda para a necessidade de essa intervenção contemplar a possibilidade de expansão de espécies exóticas e invasoras.“Estas são rápidas a ocupar espaço quando os terrenos são abandonados. Daí que seja importante monitorizar essa situação”, explica.
Se tem que ser…
Os proprietários de terrenos agrícolas na Caldeira Guilherme Moniz devem ser “compensados devidamente” caso essas terras venham a ser reservadas para a produção de água, defende o presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT). Paulo Simões, em declarações, ontem, ao DI para comentar o plano de sustentabilidade dos recursos hídricos da Terceira que prevê a diminuição do uso agrícola nos terrenos entre a Serra do Morião e o Pico Alto, adianta que foram realizados investimentos avultados e que quem os fez não pode ficar de mãos a abanar. “Foram criadas ali óptimas pastagens. Houve quem investiu muito para transformar aqueles terrenos em pastagem, portanto, há que ressarcir convenientemente esses agricultores. No entanto, em nosso entender, se se provar que é fundamental para a sustentabilidade do abastecimento de água à ilha que aquela área fique reservada, então deve avançar-se com a delimitação”, sublinha o responsável. “Essa medida não terá um impacto enorme na agricultura da ilha, até porque são poucas as explorações agrícolas ali existentes. Mas, de qualquer modo, terá impacto importante para esses agricultores, que devem ser compensados pelo investimento que fizeram e, com essa medida, deixará de ser rentabilizado”, adianta Paulo Simões.

(In Diário Insular)

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sábado, setembro 29, 2007

Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores

Sendo pouco menos do que desconhecidas para o Mundo, e mesmo dentro do nosso País, as turfeiras dos Açores são formações de uma elevada importância ecológica e ambiental, afectando significativamente os recursos hídricos das ilhas onde ocorrem.
Num trabalho da Engª Cândida Mendes e do Professor Eduardo Dias do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, publicado no Naturlink, explica-se o que são esses ecossistemas.
Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).
O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).

As plantas típicas de zonas turfosas, tais como as espécies do género Sphagnum tiveram a sua origem nas regiões Atlânticas do Norte da Europa, chegando aos Açores no período pós glaciações por intermédio de aves (epizoocoria). De acordo com uma série de condições ambientais, tais como níveis de precipitação, topografia do terreno, grau de naturalidade, desenvolvem-se tipologias distintas de turfeiras.

(In Naturlink)

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