Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores
Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).
As turfeiras dos Açores são formações ainda bastante desconhecidas para o mundo e mesmo dentro do país, para onde a referência à existência destes ecossistemas, se restringe a pequenos mosaicos em áreas montanhosas de Portugal continental. O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras (Foto 1), devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (Foto 2) (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).
Foto 1. Paisagem típica das zonas altas das ilhas dos Açores. No caso, uma turfeira de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.
Foto 2. Horizonte ferro-magnesiano plácico, promotor de impermeabilização dos solos e um dos grandes responsáveis pela grande extensão de zonas húmidas em altitude. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.As plantas típicas de zonas turfosas, tais como as espécies do género Sphagnum (Foto 3) tiveram a sua origem nas regiões Atlânticas do Norte da Europa, chegando aos Açores no período pós glaciações por intermédio de aves (epizoocoria).

Foto 4. Turfeira em vale endorreico. Uma das situações mais típicas onde se desenvolvem turfeiras de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.
Foto 5. Espécime do género Sphagnum (no caso S. cappilifolium). Base de dados fotográfico do GEVA.
Os briófitos mencionados são inconfundíveis, basta ter visto uma espécie ou examinado ao microscópio algum filídeo (tipo folha) para se poder dizer se é ou não um Sphagnum. Distingue-se dos outros musgos pelo agrupamento dos seus ramos em fascículos (Foto 5).
Uma compreensão básica da ecologia das plantas do género Sphagnum spp. será útil para compreender o funcionamento, bem como a dinâmica e ecologia de uma turfeira dominada por estes briófitos. Estas formações em termos ecológicos, caracterizam-se por reter grandes quantidades de águas sendo estas bastante ácidas e pobres em nutrientes disponíveis.
A grande capacidade de absorção e retenção de água (Foto 6) e a sua cedência gradual após grandes chuvadas é de grande importância para uma série de factores a nível da paisagem tais como na minimização da erosão e no controle dos caudais das ribeiras. Contribui também para a recarga dos aquíferos locais. Esta capacidade deve-se à estrutura morfológica dos Sphagnum que podem suportar até 20 vezes o seu peso seco em água. Em secção transversal, um corte duma folha de Sphagnum indica dois tipos de células (Foto 7), pequenas células clorofilinas (fotossintéticas, importantes para a fotossíntese e respiração) e células hialinas (largas e incolores) com poros nas paredes, através dos quais a água se move. Esta característica de absorção e retenção é importante para a planta e para o crescimento da turfeira uma vez que estes musgos não possuem raízes para absorver solutos do solo, ou tecidos condutores internos para o transporte de água (Daniels e Eddy, 1985). Esta capacidade de retenção de água, por parte do Sphagnum vivo que cresce na superfície da turfeira, acrescentando ao movimento da água por capilaridade dentro da turfa, assegura que a toalha de água seja mantida um pouco abaixo da superfície ou à superfície da turfeira durante todo a ano. As turfeiras constituem assim verdadeiros reservatórios de água (Foto 8), se tivermos em conta que os recursos em ilhas são bastante limitados a salvaguarda destas formações contribuem sobremaneira para a perpetuação dos recursos hídricos locais. Realça-se que em 7 das nove ilhas dos Açores as turfeiras são as formações predominantes nas zonas altas das ilhas. As excepções são as ilhas de Sta Maria e Graciosa, cujos níveis de precipitação e nevoeiros (altitude inferior às restantes) não propícia as condições ambientais base para a formação de grandes extensões de zonas húmidas.
Além da sua capacidade de absorver e reter água as turfeiras apresentam águas bastante ácidas. Na maioria dos ecossistemas, o pH encontra-se próximo da neutralidade, no entanto em zonas húmidas dominadas por estes briófitos, o pH do meio é bastante ácido, por vezes atinge valores abaixo dos 3. Estudos efectuados neste tipo de turfeiras nos Açores permitiram verificar que no Verão o pH médio para este tipo de turfeiras ronda os 3,5 e no Inverno os 5,5 no Verão (Mendes & Dias, 2002). Estas diferenças ocorrem porque a quantidade de água do meio altera a concentração de hidrogeniões e as próprias espécies dominantes em cada estação apresentam variadas capacidades de troca catiónica. Esta capacidade deve-se à troca de iões hidrogénio (H+) por outros iões tais como potássio, sódio, cálcio e magnésio (k+, Na+, Ca2+ e Mg2+ respectivamente) (McQueen, 1990). O Sphagnum é capaz de se desenvolver particularmente bem em situações ombrotróficas (águas provenientes da chuva e pobres em nutrientes) como resultado da sua relativamente alta capacidade de troca catiónica (Rieley e Page, 1990). Esta capacidade do Sphagnum para acidificar o meio tem uma série de vantagens, em primeiro lugar as plantas usam esta troca como meio de obter nutrientes para o seu crescimento, e que são em muito pequena quantidade no seu meio (McQueen, 1990). Em segundo lugar, criando um habitat ácido, o Sphagnum “cria” um ambiente ideal para si próprio onde a competição com outras plantas é muito pequena, pois a maioria das plantas vasculares não tolera níveis baixos de nutrientes ou ambientes ácidos e húmidos.
Esta acidificação do meio que aparentemente parece favorecer apenas o Sphagnum, presta, um serviço de extrema importância às populações das ilhas, as turfeiras transformam-se em verdadeiros filtros de purificação de água uma vez que a retenção, na sua estrutura, de iões (por troca por hidrogeniões) tem como efeito secundário a limpeza da água.
Esperamos que os aspectos aqui focados acerca das turfeiras de Sphagnum contribuam não só para o conhecimento da sua ecologia mas que sejam um abrir de uma porta para a compreensão da sua importância para que sejam cada vez mais os esforços de conservação.
(In Naturlink)
Etiquetas: Biodiversidade, Cândida Mendes, Eduardo Dias, Shagnum, Zonas húmidas

Existe um conjunto alargado de instrumentos de gestão de zonas húmidas, quer derivado a compromissos internacionais – Convenção de Ramsaar, Directiva Habitats, etc. – quer a nacionais e regionais, a que haverá que adicionar os Parques naturais de ilha, em implementação. Algumas zonas têm mesmo planos especiais e específicos, como grandes lagoas, ou o plano de gestão da Rede Natura, que tive a honra de coordenar. A implementação desses planos será, sem dúvida, um grande desafio e um enorme passo em frente para a Região, considerando os valores ambientais e os recursos naturais envolvidos. Se os documentos que existem são suficientes ou não, só a sua implementação o dirá. Como em muitas outras áreas, haverá conflitos a resolver, sobreposição de competências e sensibilidades a conquistar. Certamente que um trabalho de gestão adaptativa terá de ser feito, mas ficaremos muito melhor com a sua implementação e novos desafios irão aparecer durante a sua aplicação, no sentido de encontrar o equilíbrio entre os diferentes valores em jogo.
“Uma das mensagens que aqui deixei hoje é que temos de passar de uma fase de planeamento estrito para uma fase de investimento no território, particularmente no que diz respeito ao abastecimento de água, mas também em relação às outras extraordinárias particularidades que os nossos recursos hídricos encerram nos Açores”, explica o responsável.Para Frederico Cardigos, a Região encerra um conjunto de recursos ambientais de enorme importância, particularmente as zonas húmidas.Falando aos participantes no seminário promovido pela Câmara Municipal da Praia da Vitória, o director regional do Ambiente deixou claro que as zonas húmidas insulares apresentam inúmeras potencialidades, nomeadamente ao nível económico e turístico.Segundo Frederico Cardigos, o conhecimento existente sobre estas zonas garantiu um conjunto de planos e legislação que permite a sua protecção e salvaguarda.Depois dele, intervieram no seminário Eduardo Dias, director do Gabinete de Ecologia Vegetal Aplicada da Universidade dos Açores, João Porteiro, docente da universidade açoriana, Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Ilha Teceira, e Paulo Messias, vice-presidente da Câmara da Praia.As zonas húmidas são consideradas pela comunidade científica as áreas mais produtivas do planeta.No arquipélago, mais de 12 mil hectares têm estas características, sendo reconhecida a necessidade da sua protecção com vista à sustentabilidade do abastecimento de água.
O que são zonas húmidas?
Que tipos de zonas húmidas naturais existem nos Açores?
Em primeiro lugar queremos salientar a importância destas formações em termos de salvaguarda de recursos hídricos. Estas funcionam como reservatórios naturais constituindo “tanques de armazenamento” das águas das chuvas, libertando de modo gradual (para os aquíferos e ribeiras) a água que recebem. Nesta função realçamos as turfeiras (zonas húmidas que se caracterizam pela capacidade de acumular as plantas que morrem, estas não se decompõem devido ao encharcamento e à acidez das suas água e acumulam-se sob a forma de turfa), capazes de reter, na camada superficial destas formações, cerca de 20 vezes o seu peso em água (como exemplo pode-se mencionar que uma só turfeira com cerca de 300 000 m2 pode reter na sua estrutura mais de 180 000 m3 de água). Também a diminuição de formações naturais florestadas (nomeadamente turfeiras florestadas), tem um grande impacte em termos de recursos hídricos pois a quantidade de água interceptada dos nevoeiros diminui de forma acentuada. Estudos efectuados no GEVA demonstram que a componente florestal acresce de 2 a 4 vezes o valor da precipitação de um dado local.
As zonas húmidas não favorecem apenas a recarga dos aquíferos mas também contribuem para a limpeza das águas, visto servirem de reservatório onde os sedimentos e substâncias tóxicas se depositam. Pode-se assumir que estas formações “consertam” comportamentos abusivos do homem que resultam na poluição das águas, para que a possamos usar nas necessidades mais básicas como a sede. A alteração progressiva da ocupação do solo, transformando zonas de vegetação natural com uma menor capacidade de retenção de água, tem contribuído para a diminuição da quantidade e qualidade das nossas águas. Este fenómeno de desaparecimento de zonas húmidas favorece também a ocorrência de “acidentes” tais como derrocadas de terra e o aumento torrencial do caudal de ribeiras. O aquecimento global é também um tema bastante actual, que se pensa ter como causa primordial o aumento da emissão dos gases de estufa, nomeadamente dióxido de carbono.
No entanto, a sua destruição progressiva, principalmente devido à conversão em áreas agrícolas, tem vindo a contribuir para o agravamento deste problema. Isto porque, quando ocorre a sua destruição, inicia-se um processo de decomposição e de transferência do carbono para a atmosfera. As zonas húmidas são importantes na estabilização das linhas de costa e protecção contra tempestades. As formações costeiras estabilizam as linhas da costa e fortalecem os solos, reduzindo a energia da ondulação e das correntes, enquanto os sistemas radiculares ajudam a fixar os sedimentos. A sua vegetação faz diminuir, por impacto, a velocidade da escorrência de água após grandes chuvadas, funcionando como meio de controlo à erosão. As zonas húmidas de altitude das ilhas açorianas, nomeadamente turfeiras, têm um papel fundamental no controle dos caudais ribeiras e linhas de água. A alteração progressiva da ocupação do solo, transformando zonas de vegetação natural em área agrícola (com uma menor capacidade de retenção de água), tem contribuído para a ocorrência de acidentes com perdas de vidas humanas tais como derrocadas de terra e caudais torrenciais (com transbordo) de ribeiras. As zonas húmidas proporcionam habitat a um amplo conjunto de espécies vegetais e animais aquáticos e muitos outros são dependentes destes habitats. As formações de água doce em termos mundiais, embora ocupem apenas 1% da superfície terrestre, são habitat para mais de 40% das espécies mundiais e 12% de todas as espécies animais.
Estas promovem também a colonização de novos habitats e o intercâmbio genético, garantindo a viabilidade das populações de peixes e de aves aquáticas, pois constituem corredores de dispersão e migração, assim como "pontes de ligação" para muitas espécies. Da flora açoriana pode-se referir, de acordo com estudos efectuados no GEVA que cerca de 50% das espécies protegidas dos Açores desenvolvem-se em zonas húmidas ou estão dependentes destas (em termos de água e nutrientes). Como exemplos temos a Marsilea azorica (trevo muito raro que existe apenas na ilha Terceira) e o Chaerophyllum azoricum, entre outras. Da fauna destacam-se as aves aquáticas incluindo espécies terrestres e marinhas, residentes e visitantes. O papel das aves aquáticas é muito importante para o equilíbrio dos ecossistemas húmidos açorianos. O baixo número de espécies residentes nestes sistemas faz com que várias funções ecológicas dependam da interacção com as aves aquáticas visitantes. A importância destas aves tem vindo a ser reconhecido nos últimos anos, nem só pela sua função ecológica mas também pela importância turística para actividades como a observação de aves.O processo alteração da naturalidade destes ecossistemas, coloca em risco todo o mundo vivo associado às mesmas.
Embora exista ainda grande quantidade de zonas húmidas nos Açores, uma parte considerável destas (senão) desapareceu, encontram-se bastante alteradas, pelo que urge a tomada de atitudes como o seu reconhecimento por todos e a compreensão da sua importância da qual depende a nossa própria qualidade de vida. Urge também a acção directa sobre estas formações. Não é possível desfazer actos, mas é possível refazer (recuperar e restaurar) zonas húmidas. Não queremos deixar de chamar à atenção que as zonas húmidas dos Açores possuem atributos particulares os quais não se resumem à sua diversidade biológica, valor hidrológico ou paisagístico, atributos esses que não se destinam, a serem consumidos de forma directa, mas antes a serem considerados um valor em si mesmos….o prazer de uma pescaria, um passeio à beira-mar e a vista sobre uma lagoa são apenas alguns exemplos.


Nesta altura em que uma série de questões relacionadas com a Água na ilha Terceira estão em foque, não deixe de comparecer a esta palestra por parte de uma especialista de nível mundial.
