terça-feira, agosto 18, 2009

Ruralidade terceirense

A ruralidade terceirense foi alvo de um estudo por parte de professores da Universidade dos Açores. " A Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos" deu nome à tese de mestrado de Eva Vidal, em Educação Ambiental. O trabalho centrou-se na freguesia do Raminho, uma das mais rurais da ilha, de acordo com os investigadores. Eva Vidal admite que o facto de ser professora no Raminho também pesou na escolha da freguesia, mas foram as características da população local que a chamaram à atenção. O estudo, que contou com a orientação de Félix Rodrigues, do departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e de Cristina Palos, do departamento de Ciências da Educação, foi apresentado no 2º Congresso Lusófono de Ciência Regional, em Cabo Verde, com o nome “Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira”. O objectivo foi perceber como é que se reconfigurava a ruralidade na actualidade. Eva Vidal confessa, no entanto, que partiu de uma matriz errada quando começou a realizar o estudo. Cedo a investigadora se apercebeu que teria de a adaptar ao contexto rural insular. “A matriz de desenvolvimento que se preconizava para esta comunidade, numa fase inicial, inscrevia-se na linha de alguns modelos de análise utilizados na descrição de interpretação das transformações does espaços rurais”, revela.De acordo com a investigadora, a matriz inicial apelava a uma noção de desenvolvimento, baseada num modelo urbano, que defendia que a transformação dos meios rurais deveria ser feita segundo uma lógica de modernização, recorrendo à industrialização da agricultura e provocando a metamorfose da cultura local, por via da difusão tecnológica e dos valores urbanos. “Colocámos ênfase na dimensão económica do desenvolvimento”, explica.
OUTROS VALORESFoi no contacto com a população da freguesia, que Eva Vidal se apercebeu que para os raminhenses o desenvolvimento económico não se apresentava como uma prioridade. As crenças religiosas, o convívio inter-geracional e a preservação do ambiente são exemplos do que a população valoriza, acima dos bens materiais. Numa primeira análise, os investigadores interpretaram algumas das características do local de forma pejorativa. De acordo com a análise feita, o Raminho apresentava “ausência de emprego local, numa estrutura económica predominantemente baseada na agro-pecuária e na exploração leiteira”. A população apresentava também uma “elevada taxa de analfabetismo” e “baixos níveis de qualificação ou formação”, assim como uma “tendência demográfica recessiva”. Os investigadores registaram ainda uma “alteração da estrutura de emprego sinalizada pela importância que os sectores secundário e terciário assumem em detrimento do sector primário”. Estas características de “desvalorização dos problemas económicos e sociais locais” foram interpretadas como um sinal de “inércia, passividade, alheamento”, associados a “subdesenvolvimento e resistência à mudança”.No entanto, um conjunto de outros factores dava uma leitura contraditória da freguesia. Os habitantes defendiam, por exemplo, a “preservação do património natural, geomorfológico e cultural” e apresentavam “uma manifesta capacidade de mobilização dos movimentos associativos locais de cariz social e cultural”, assim como a “persistência de traços comunitários ancestrais, códigos de conduta e de valores marcados pela entreajuda, a união e a solidariedade inter-geracional”. Perante os dados contraditórios, os investigadores chegaram à conclusão de que era necessário adoptar um modelo que tivesse em consideração as singularidades do meio rural. “A sustentabilidade do espaço rural insular açoriano deve perspectivar-se nas dimensões temporais do presente e do futuro, em que a intervenção esteja conectada com a realidade de cada território. Devem procurar-se políticas de reconversão e não de ajustamento”, defende. Félix Rodrigues resume a constatação a uma frase. “A gente procurava uma lógica de desenvolvimento, mas eles procuravam uma lógica de envolvimento”, salienta. De acordo com o professor, a população não quer que o seu meio seja “artificializado”. O que os raminhenses querem é sentir-se mais “envolvidos” e “comprometidos” com a sua terra. SOLUÇÃOO estudo concluiu que o desenvolvimento da freguesia deve ser feito, tendo em conta a opinião dos seus moradores. “A abordagem tem de ser feita de modo informal, face a face, ombro a ombro com os habitantes, para percepcionar os sentidos e os significados que atribuem ao seu território”, defende a autora. É por isso que os raminhenses dão mais importância ao poder local. Em muitos casos, os populares sentem que existe falta de diálogo com outros decisores políticos, o que não lhes permite participar como desejam na tomada de decisões sobre a sua terra. Eva Vidal salienta também a existência de “líderes” na freguesia, pessoas admiradas e respeitadas por outras, que assumem essa posição de uma forma natural. “As orientações estratégicas comunitárias de desenvolvimento rural, através de alguns programas, introduzem possibilidades de governação inovadoras, baseadas em planos de desenvolvimento local, a partir de abordagens do tipo ‘bottom-up’, no desenvolvimento de parcerias, numa aproximação multi-sectorial, na implementação de cooperação e no desenvolvimento de redes inter-locais”, reforça.Os habitantes do Raminho têm ideias bem definidas sobre o que não querem ver implementado na sua freguesia. Para eles o desenvolvimento local não pode desestruturar as relações interpessoais nem as características típicas do local, como a paisagem e a tranquilidade, o ambiente e a liberdade, a harmonia e qualidade de vida ou a segurança.Félix Rodrigues salienta mesmo que muitos dos habitantes sugerem serem eles próprios a proporcionar visitas guiadas ao Raminho, serem guias turísticos de uma terra que conhecem melhor do que ninguém. Está vincada na população da freguesia a intenção de dar a conhecer a sua terra a quem passa por lá de visita. Fazem questão que os turistas guardem boas recordações do Raminho. “É necessário reforçar legitimidades, valorizar a capacidade interventiva, de mobilização e de decisão da população local, em quem reside a oportunidade de perseguir e acreditar na transformação e revitalização do seu espaço, com a vontade e as iniciativas locais, daqueles actores que melhor conhecem o seu território e o sentem como espaço de afectos. É necessário e inadiável unirem-se esforços, criarem-se compromissos com o poder público e incentivos externos para decidir a realização de projectos sustentáveis e indutores do progresso”, adianta a autora.O estudo centrou-se apenas numa freguesia do concelho de Angra, no entanto, os autores estão convencidos que tirariam conclusões semelhantes em outras freguesias rurais dos Açores, especialmente em ilhas de menor dimensão. A FREGUESIAOutrora Raminho dos Folhadais, a freguesia que serviu de base ao estudo, situa-se na costa noroeste da ilha Terceira, entre os Altares e a Serreta. O nome foi-lhe atribuído por ser uma terra fértil, mas de pequena dimensão, por oposição à fertilidade do Ramo Grande. Apesar dos transportes tornarem, hoje em dia, qualquer freguesia da Terceira próxima do centro urbano, noutros tempos, o Raminho estava isolado de Angra do Heroísmo. Foi esse isolamento que a tornou na freguesia mais rural da ilha. No entanto, o que distingue o Raminho de outras freguesias rurais é o facto de ter conseguido manter os mesmos valores e costumes ao longo dos anos. Eva Vidal salienta que hoje os raminhenses não vivem na terra por falta de opções. Fazem-no por escolha própria. Muitos dos que hoje habitam no Raminho, já passaram por cidades internacionais. A maior parte emigrou para os Estados Unidos da América. No entanto, apesar de lhes ter sido dada a hipótese de viver noutro sítio, voltaram à sua terra natal. Álamo de Oliveira é um desses habitantes. Natural do Raminho, o escritor já viveu fora da freguesia, mas optou por voltar. Vive no Raminho por escolha própria e não por obrigação. É a povo que lá vive que o cativa.“A terra tem sobretudo a sua gente, que é uma gente trabalhadora, afável, não são propriamente exploradores de intrigas, antes pelo contrário e isso quer a gente queira quer não, independentemente dos afectos que vamos criando com as pessoas, acaba por nos atrair”, revela.Álamo de Oliveira confirma que o Raminho soube trazer até aos dias de hoje as tradições de antigamente. “Já houve épocas de entusiasmos maiores, mas de qualquer maneira continuam a manter as suas tradições de forma quase exaustiva, mas ao mesmo tempo introduzindo algumas inovações, que vêm não só fazer com que essa tradição se perpetue e continue, como também vêm a melhorá-las em termos de qualidade”, salienta.“Quando eu falo em tradições estou a falar sobretudo da forma como eles ainda festejam o carnaval, há sempre um ou dois grupos a fazer bailinhos de carnaval, a maneira com ainda festejam as suas festas de verão, a maneira como realizam ainda os seus bodos…”, enumera.O escritor raminhense realça, no entanto, as capacidades intelectuais da população da freguesia. “Há outra particularidade extremamente interessante. É que o Raminho apesar de ser uma freguesia iminentemente rural, é uma freguesia com uma grande apetência cultural e intelectual. É talvez das freguesias da ilha, embora sendo pequena, que maior percentagem tem de gente formada nas áreas mais variadas das ciências e das letras”, reforça.Uma das tradições mais vincadas na sociedade do raminho é a procissão dos abalos. O evento decorre todos os anos a 31 de Maio, desde 1967, de forma a assinalar a crise sísmica decorrida nesse ano.“A procissão dos abalos mantém-se com a mesma força que tinha. Vai gente de todas as idades, crianças, jovens…Continua a ser uma procissão altamente participada. Trata-se de facto de uma promessa feita por pessoas do Raminho, há mais de 100 anos, que quer chova quer faça vento, continua a ser realizada naquele dia”, afirma Álamo de Oliveira.A procissão tem no entanto um cariz diferente das comuns manifestações religiosas da ilha. As diferenças são evidentes desde já no horário A procissão ocorre por volta das 6h00. Mas também vestuário é invulgar. Ao contrário do que é habitual, a população não se veste de forma mais requintada para celebrar o acontecimento. Vestem as roupas de trabalho, até porque mal acaba a procissão retornam às suas casas, ou em muitos casos, hoje em dia, às paragens de transportes públicos. Ninguém sai da Igreja e ninguém volta à Igreja. “Mudaram a hora inicial exactamente para que os jovens que tinham vontade de ir pudessem ir, porque aquela ruralidade que o Raminho já possuiu e já viveu está um pouco mais diluída, evidentemente. Há menos gente a trabalhar no campo, porque há muito mais gente a trabalhar fora. E portanto teve que se olhar aos horários dessas pessoas”, acentua.Esta passagem do testemunho de geração em geração ocorre de uma forma natural. A juventude mantém um diálogo aberto com os mais velhos, sem que seja necessário existir uma imposição. Para Eva Vidal, a Escola Primária do Raminho assume um papel fundamental, na continuidade desses valores.

(in DI-Revista)

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sábado, julho 18, 2009

Entrevista de Félix Rodrigues sobre desenvolvimento sustentavel no mundo rural insular

sexta-feira, julho 17, 2009

Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira, Açores, Portugal.

Félix Rodrigues, Eva Vidal e Cristina Palos apresentaram, no 2º Congresso Lusófono de Ciência Regional, realizado na Cidade da Praia, em Cabo Verde, de 6 a 11 de Julho de 2009, uma comunicação intitulada "Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira, Açores, Portugal".

Neste trabalho, apresentaram-se as perspectivas e percepções sobre desenvolvimento sustentável de uma pequena freguesia da ilha Terceira, Açores, Portugal.
A evidência empírica deste estudo fundamenta os aspectos particulares da freguesia: a identidade colectiva, o sentido de pertença ao lugar, a cooperação, a comunicação, as actividades colectivas, a permanência da população, os aspectos ambientais, e faz sobressair, a ausência do equilíbrio da estrutura etária, da formação permanente, da manutenção de serviços e equipamentos, da viabilidade económica e das oportunidades de emprego, entre outras.
O (des)envolvimento sustentável da freguesia rural estudada é possível, assim como também é possível encontrar um sentido de futuro, mas qualquer intervenção local para ser aceite e legitimada pela comunidade terá que ser, um processo, predominantemente de natureza informal.

(In Cabo Verde - Redes de Desenvolvimento Regional)

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quarta-feira, maio 13, 2009

V Congresso Mundial de Educação e Ambiente conta com a presença de “Vida em Ebulição”

Cerca de oito alunos do Curso Tecnológico de Ordenamento do Território e Ambiente do 11º ano turma J da Escola Secundária Domingos Rebelo conjuntamente com o docente José Cabral, coordenador deste curso, e a Drª Paula Aguiar, coordenadora científica do projecto "Vida em Ebulição" participarão, de 8 a 15 de Maio, no V Congresso Mundial de Educação e Ambiente em Montreal.


Apresentar o projecto "Vida em Ebulição" em Montreal e ainda na Casa dos Açores em Toronto é dar a conhecer um trabalho que alunos e professores da Escola Secundária Domingos Rebelo abraçaram desde o início da sua existência, uma vez que este projecto possibilita pôr em prática anos de conhecimento e formação científica associados às tradições e cultura açorianas no que diz respeito ao modo como a população se relaciona com os recursos naturais termais.
"Vida em Ebulição" é um projecto não só de cariz educacional e científico mas também de cariz cultural e económico, projectando as actividades económicas passíveis de serem efectuadas em zonas termais.
O projecto foi extremamente bem recebido pelo órgão de gestão da Escola Secundária Domingos Rebelo, pelo director do Curso Tecnológico de Ordenamento do Território e Ambiente, Dr. José Cabral, e pelos alunos deste curso, criando com o Centro de Conservação e Protecção do Ambiente da Universidade dos Açores um grupo de trabalho desde o ano lectivo 2007/08. Dada a relevância do projecto, também se associaram a estas entidades a Junta de Freguesia das Furnas e a Câmara Municipal da Povoação.
Os trabalhos realizados pelos membros deste projecto, até à presente data, foram apresentados na AmbiTech em Ponta Delgada, divulgados em jornais locais e na RTP-A, podendo qualquer pessoa visualizá-los no site da Ciência Viva a nível nacional.
A apresentação em Montreal compreende dois momentos que se completam: uma apresentação oral a cargo da Drª Paula Aguiar subordinada ao tema "Life at The Boiling Point" Science and Environmental Education for Everone e uma apresentação de um cartaz intitulado "What Can We Take Home From "Life At The Boiling Point": The Students Perspective, tendo como oradores os alunos do 11ºJ e o professor Dr. José Cabral. Realça-se que o produto final a ser levado ao V Congresso Mundial de Educação e Ambiente é fruto de um trabalho árduo e activo de alunos e professor, revelando sentido de responsabilidade, maturidade e profissionalismo.
A participação tanto de alunos como professores possibilita a todos uma experiência única e enriquecedora que jamais será olvidada.

Também participam nesse evento a Professora Cristina Palos e a Mestre em Educação Ambiental Eva Vidal do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.
A comitiva da Escola Secundária Domingos Rebelo neste congresso mundial prestigiará não só a escola como também a Região Autónoma dos Açores e o país.

(in RTP-Açores, Paulo Teves)

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quinta-feira, abril 02, 2009

Açorianos cooperam com SÃO TOMÉ E PRINCÍPE

Açorianos da Universidade dos Açores e não só participam no primeiro Encontro Internacional de Desenvolvimento Local, em São Tomé e Príncipe. O convite surgiu da Associação ROÇAMUNDO, presidida por Isaura Carvalho, que organiza o evento. Trata-se de uma associação de desenvolvimento local.
De 4 a 9 de Abril, reúnem-se em São Tomé e Príncipe especialistas de diversas áreas, com o objectivo de reflectir sobre estratégias de desenvolvimento das comunidades locais a partir de uma realidade insular.

Em debate estarão temas como o combate à pobreza e à exclusão social, o turismo como factor de desenvolvimento, o aproveitamento criativo dos recursos locais ou a educação para o desenvolvimento local. Para além de palestras, o encontro conta ainda com mesas redondas e ateliers.
De acordo com Ana Cristina Palos, do Centro de Estudos Sociais, responsável da Universidade dos Açores, na comissão organizadora do evento, o encontro é sobretudo uma “troca de experiências, tanto a nível teórico como prático”. A profesora destaca ainda as parcerias entre países europeus e africanos.
Participam no evento investigadores de diversos países, de entre eles Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e Brasil, assim como as cooperações esponhola e francesa.

Contributo dos açorianos

Para além da Universidade dos Açores, a ROÇAMUNDO tem como parceiros o Centro de Estudos Africanos do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), o NEREA- Investiga, Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental, e a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL).
Participam na iniciativa, da Universidade dos Açores, Eduardo Guimarães, sobre “o desenvolvimento local do turismo e património” e Eva Vidal, sobre “o local como recurso educativo de acção e transformação social”. Também presentes no evento estarão Vasco Garcia que fala sobre o “valor económico da ecologia insular” e Fernando Diogo sobre o “desenvolvimento local no combate à pobreza e à exclusão social”.
Para além dos investigadores da Universidade dos Açores, marcam ainda presença no encontro o Presidente da Câmara Municipal de Velas, António Silveira, sobre o tema “Poder Local, uma âncora do progresso e Álvaro Monjardino, do Instituo Histórico da Terceira, que apresenta como tema o ”Paralelismos entre um estado independente insular e uma região” autónoma insular.

ENCONTRO INTERNACIONAL DE DESENVOLVIMENTO LOCAL: FOCA A PESCA ARTESANAL
João Pedro Barreiros é um dos professores da Universidade dos Açores que marcam presença no evento. A seu cargo fica a dinamização do Centro Turístico Comunitário de Pesca Artesanal, um atelier situado no Cais dos Angolares.
Segundo o professor, o objectivo da actividade é “tentar orientar os pescadores da comunidade para rentabilizarem o resultado das suas pescas com o menos impacto ambiental e mais aproveitamento”.
A iniciativa, segundo João Pedro Barreiros, incluiu ainda o ensino de “técnicas alternativas de pesca, que não dependam de tecnologias”, que embora comuns em Portugal são de difícil acesso para os pescadores de São Tomé.
O professor da Universidade dos Açores tem ainda programada uma palestra, na quarta-feira, dia 8 de Abril, dirigida à comunidade piscatória local. A palestra intitula-se de “Recursos pesqueiros: conservar para manter”.
Ainda que salvaguardando o “rigor científico”, a palestra terá uma linguagem acessível aos pescadores da região, de forma a “dar indicações de alerta” de como podem ser utilizadas as áreas costeiras.
João Pedro Barreiros destaca ainda a falta de conhecimento existente actualmente sobre São Tomé e Príncipe. “É uma região muito importante a nível geográfico e pouco conhecida”, revela.
Para o professor “fundamentalmente é preciso conhecer”, para depois se poder explorar os recursos da região.
(In Diário Insular)

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domingo, agosto 17, 2008

EDUCAÇÃO, AMBIENTE, TURISMO E DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO

No âmbito das actividades enquadradas pelo Projecto de Investigação "Os Impactos do Turismo no Desenvolvimento Comunitário em África: análise de experiências insulares", o Centro de Estudos Africanos organizou e promoveu a realização do Seminário Internacional "Educação, Ambiente, Turismo e Desenvolvimento Comunitário", na cidade de São Tomé. Este é um dos produtos do Projecto PTDC/AFR/69094/2006 financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT/MCTES de Portugal). Para a prossecução destas actividades contou com a colaboração da Direcção-Geral do Ambiente, da Direcção de Turismo da República Democrática de São Tomé e Príncipe e com a Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental.

Nesse Seminário participaram investigadores do Departamento de Ciências Agrárias e do Departamento de Ciências da Educação do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.
Eva Vidal; Ana Cristina Palos e Félix Rodrigues apresentaram o trabalho "Conhecer para (Des)envolver: Vivências da Ruralidade num Contexto Insular".
Marcela Sobral, apresentou o trabalho: "Projecto de Educação Ambiental: Lixo Legal (Ilhabela – São Paulo – Brasil).

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos

Foi apresentada e defendida no Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores a tese de Mestrado em Educação Ambiental de Eva Maria de Jesus Ferreira Vidal, intitulada " A Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos". A tese foi orientada pela Professora Cristina Palos do Departamento de Ciências da Educação e o Professor Félix Rodrigues do Departamento de Ciências Agrárias.
O júri foi constituído pelo Doutor Tomaz Lopes Cavalheiro Ponce Dentinho, professor auxiliar da Universidade dos Açores (por designação do Magnífico Reitor), pela Doutora Rosalina Maria de Almeida Gabriel, professora auxiliar da Universidade dos Açores, pelo Doutor António Félix Flores Rodrigues, professor auxiliar da Universidade dos Açores, pela Doutora Ana Cristina Pires Palos, professora auxiliar da Universidade dos Açores e pelo Doutor Abílio Amiguinho, professor adjunto da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre.
Este foi o desafio de lançar um olhar diferente sobre o processo de desenvolvimento do espaço rural que passa por perspectivá-lo com um processo articulado, sistémico e localmente assumido.A investigação empreendida aborda as problemáticas do espaço rural, onde este parece estar a modificar-se ou a reconfigurar-se para poder responder aos desafios da actual sociedade de informação e do conhecimento. Surge da necessidade de analisar o rural na sua variedade e complexidade e de repensar o lugar que ocupa no sistema social regional e global.A interpretação desse universo simbólico - a ruralidade insular – tornou consciente a necessidade de aproveitar as oportunidades do presente para perspectivar directrizes para o futuro.No âmbito da investigação, procurou-se desocultar as características e dinâmicas da ruralidade que se evidenciam na freguesia do Raminho, da ilha Terceira. Exploraram-se as potencialidades do património natural e construído (recursos naturais, físicos, geomorfológicos, humanos, institucionais) e do património cultural (usos e costumes, festividades, tradições)l da freguesia; identificaram-se os principais problemas ou prioridades de intervenção; dão-se a conhecer as dinâmicas culturais e as formas de organização social. Procurou-se também interpretar os sentidos que os seus residentes (incluindo o poder político local) atribuem ao território, como o gerem ou partilham. Procurando contornar as explicações que consideram o “atraso”do rural como obstáculo ao “progresso” e ao desenvolvimento e perpassar as visões reducionistas e dicotómicas entre rural e urbano, campo e cidade, tradicional e moderno, aponta-se para as novas configurações entre estas dimensões e sugere-se a emergência de uma nova visão do rural pela revalorização deste espaço e a construção da ruralidade como modus vivendi, na actualidade.Não deixa de ser interessante verificar a duplicidade de posições em que os espaços rurais têm sido, historicamente, colocados. No passado desencadeavam processos de saída ou repulsão das suas populações, atraídas pelo modo de vida urbano; na actualidade parece estar a acontecer uma inversão deste sentido, constituindo os centros urbanos pólos de repulsão de alguns sectores populacionais que reconquistam o campo (apesar de este movimento ser, obviamente, menos massificado do que o anterior).As afinidades que se estão a evidenciar entre as pessoas e o espaço rural parecem estar associadas ao sentido de perda de identidades nas nossas sociedades que se deve a uma ruptura cada vez mais profunda dos laços entre o espaço e as condições ecológicas de reprodução social e, por outro lado, as dinâmicas socioeconómicas de uso dos recursos.No cenário de uma longa evolução, através da qual o campo reencontra novas funções simbólicas, em que passa a ser apreendido nas suas componentes biofísicas como natureza (como lugar de repouso, de tranquilidade, de contemplação), perde progressivamente a conotação de atraso e de subdesenvolvimento, desvirtuando-se da sua função produtiva (agrícola) para se constituir como natureza intocada, como fruição, em alternativa aos ambientes construídos e artificiais das cidades.Inscreve-se como preocupação deste trabalho a perspectiva da sustentabilidade social, económica, ambiental e cultural do espaço rural em apreço (freguesia do Raminho), perante os desafios presentes e futuros que se lhes deparam.As perspectivas sobre o rural, naquilo que são as suas novas vocações, oscilam entre a persistência de uma visão ainda identificada quase exclusivamente com o crescimento económico, a modernização tecnológica e a identificação da ruralidade com a produção agro-pecuária na procura do permanente aumento de produtividade. O rural, nesta óptica, parece passar mais pela involução em processos de desenvolvimento, posição com a qual discordamos; perfilhamos uma perspectiva de desenvolvimento que seja capaz de compatibilizar tradição e modernidade, incorporando muitos dos valores rurais ou amenidades rurais – como surge na terminologia da OCDE (1993) – como forma de alcançar o crescimento económico, maior bem-estar e melhor qualidade de vida das populações rurais. Do Território às Dinâmicas Demográficas, Económicas e SociaisDe acordo com os resultados dos últimos censos de 2001, a freguesia do Raminho tinha uma população residente de 550 habitantes. Entre 1981 e 2001, ocorreu uma redução de 17% da população residente, o que em termos absolutos representa a perda de 113 pessoas, situação distinta da que aconteceu no concelho e na ilha em que a variação da população residente é positiva. A taxa de analfabetismo verificada na freguesia supera a do concelho. Apenas 7,5 % da população possui o ensino secundário completo, contra cerca de 78% que possui o ensino básico. Numa freguesia onde predomina a faixa etária dos 25-64 anos, existe um baixo nível de qualificação da população, embora se verifica um crescimento pouco significativo da população que frequenta o ensino universitário e que representa 2,4% da população.Enquanto na ilha e no concelho não se verifica, nesta década, uma mudança na estrutura do emprego da população activa, no Raminho essa mudança é bastante notória. O sector secundário e terciário ganham uma importância acrescida na estrutura do emprego da população activa local.O sector primário que integrava, em 1991, 54,2 % da população já só empregava, em 2001, 25,2% dessa população.Os resultados da investigação evidenciam que existe uma sua forte ligação afectiva dos residentes à freguesia.Nota-se que os factores que explicam a vinculação à freguesia fazem referência aos laços matrimoniais, ao emprego local e à história de vida associada ao local: lugar onde habita e onde tem as suas ligações afectivas.As razões que os fazem permanecer no Raminho são os grupos de pertença e as redes de sociabilidade local que prevalecem de uma forma ainda muito significativa.Os indivíduos que valorizam estas dimensões atribuem uma forte conotação às suas raízes.Os habitantes têm a percepção dos aspectos únicos da localidade que permitem distingui-la positivamente das outras, com destaque pela a paisagem, a proximidade com a natureza, a beleza, a calma e a tranquilidade são as características mais significativas que a maioria dos indivíduos entrevistados associam ao Raminho, referindo-se ao espaço deste modo: «É um lugar calmo para se viver, onde as pessoas se sentem bem.» «um estilo de vida tranquilo» sinónimo de qualidade de vida «temos mais qualidade de vida». O que pode explicar estarmos em presença do fenómeno da recriação da ruralidade inserido na filosofia pós-moderna da redescoberta e revalorização do espaço rural.Prevalece o “espírito de lugar” em que a noção de lugar transcende as coordenadas geográficas para “veicular a ideia - e o ideal – de “raízes” e de um “enraizamento”. O património é, acima de tudo, uma representação dos ideais de singularidade e de continuidade. E poderá vir a potenciar ou a funcionar como “vector de novas identidades e de novas sociabilidades e, nesse sentido, ajudar à emergência de novas dinâmicas locais” conducentes ao desenvolvimento ou promoção do lugar. As características das pessoas e das relações interpessoais referidas pela amostra da população.No caso específico da freguesia, a organização social e o tipo de relações estabelecidas localmente apresentam ainda traços comunitários e reflectem bem a prevalência dos valores reconhecidos ao rural, enquanto marcas que perduram inegavelmente no tempo, enquanto códigos culturais transmitidos de geração em geração. O Raminho autodefine-se de modo particular pelo interconhecimento na perspectiva dos entrevistados. A hospitalidade e a capacidade de acolher bem as pessoas são, para metade dos participantes no estudo, valores reconhecidos ao Raminho.Admite-se que as relações de vizinhança e de cooperação são integradas e significantes no quadro de vida da população agora ajustadas a novas concepções e modos de viver. A configuração das relações intergeracionais e o reforço activo dos laços e solidariedades intergeracionais são referidos por um quarto dos entrevistados, em que os saberes ancestrais são legitimados pelos jovens da freguesia, no contexto da diversidade cultural e social actual, em que os múltiplos saberes se cruzam e acontecem no intercâmbio entre os actores sociais. É manifesto, nos discursos verbalizados pela totalidade dos entrevistados, a aceitação dos “intrusos”, principalmente, se forem visitantes e estiverem de passagem. A integração plena dos novos residentes na comunidade apenas é facilitada quando por laços matrimoniais ou situação de emprego na freguesia, ainda que a vinda seja reconhecida como benéfica para o equilíbrio etário da população e surja como uma possibilidade de revitalização demográfica. A tendência das respostas indica também que, a freguesia poderá estar a exercer um novo poder de atractividade, pelas características espaciais e simbólicas que pode oferecer como alternativa aos meios urbanos. No caso particular do Raminho, a execução e melhoria das vias de comunicação e rodoviárias terão contribuído para que este se tenha tornado um lugar mais atractivo, em termos residenciais, porque agora está integrado em circuitos de maior mobilidade que favorecem a aproximação e a ligação a outros lugares, o que torna este espaço mais aberto. Outro aspecto interessante dos resultados obtidos no estudo destas questões resulta de que, ao contrário do que se poderia supor, nenhum dos entrevistados revelou atracção pelo modo de vida dos centros urbanos da ilha, Angra do Heroísmo ou Praia da Vitória. Constata-se, aliás, ser percepção destes indivíduos que a qualidade de vida na sua freguesia é melhor do que na cidade.Uma análise mais detalhada, relativamente à freguesia, permite verificar que existem problemas diferenciados e relevantes a vários níveis. Perspectiva-se para a freguesia a necessidade de impulsionar a diversificação da economia, isto é, a criação de actividades e serviços promotores de emprego na localidade do Raminho, não só para fixar a população como para revitalizar o desenvolvimento local, o que passará ainda pela capacidade de rentabilizar melhor os recursos presentes neste território. Antes de se direccionarem projectos é fundamental saber contextualizá-los, respeitar as idiossincrasias locais e articular a participação dos diferentes intervenientes em propostas de requalificação. É importante o reconhecimento dos seus direitos, experiências, saberes e, principalmente, o entendimento de que são os sujeitos que aí habitam que detêm responsabilidades na manutenção e gestão do seu espaço. Na ânsia de padronizar modelos ou concepções dominantes na nossa sociedade e de materializar planos de acção, estratégias e projectos, orientamo-nos para destinatários idealizados, escusamo-nos a recolher os significados e os sentidos de pensar e de agir, as perspectivas da população acerca dos problemas e das potencialidades do seu território, das suas expectativas e posições. Quando, na verdade, o que é necessário é situar e articular acções que enquadrem uma intervenção coerente daquilo que são os interesses e valores locais.Do ponto de vista do educador ambiental faz todo o sentido uma análise da realidade que não esconda antes enfatize as necessidades e problemas locais, mas não querendo apenas desqualificar ou desvalorizar fragilidades e carências da freguesia, deve-se apostar nas potencialidades, nos recursos e nas mais valias funcionais do espaço e dos seus habitantes, bem como, na mobilização colectiva dos actores locais, como condição necessária ao reconhecimento de um património comum, das raízes, das identidades, das idiossincrasias e, na convicção de que, a plataforma de desenvolvimento tem muitas probabilidades de se desencadear a partir dessa conjugação positiva de sinergias. O (des)envolvimento sustentável do Raminho é possível, assim como também é possível encontrar um sentido de futuro, mas para que uma intervenção local seja aceite e legitimada pela comunidade terá que ser a expressão de um projecto colectivo e mediado em permanência e não resultado da simples imposição a partir de fora, devendo dar-se primazia ao agir com os cidadãos. A lógica da Agenda 21 local parece estar subjacente às ideias professadas pela participantes no estudo. Interessa que as autoridades locais a dinamizem, acreditando-se que, pela manifesta vontade de participação da população, os resultados serão promissores para a sustentabilidade do Raminho.
"Dobra-se a curva da estrada corrente e abre-se uma planície de pastagens rasgadas por uma lâmina de casas. O sol do norte dá-lhe a luminosidade límpida dos tempos e das gentes. A seus pés, o mar não desiste duma posse impossível. Raminho dos Folhadais de seu nome – terra da fertilidade e dos afectos." (Álamo de Oliveira)

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