terça-feira, agosto 18, 2009

Ruralidade terceirense

A ruralidade terceirense foi alvo de um estudo por parte de professores da Universidade dos Açores. " A Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos" deu nome à tese de mestrado de Eva Vidal, em Educação Ambiental. O trabalho centrou-se na freguesia do Raminho, uma das mais rurais da ilha, de acordo com os investigadores. Eva Vidal admite que o facto de ser professora no Raminho também pesou na escolha da freguesia, mas foram as características da população local que a chamaram à atenção. O estudo, que contou com a orientação de Félix Rodrigues, do departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e de Cristina Palos, do departamento de Ciências da Educação, foi apresentado no 2º Congresso Lusófono de Ciência Regional, em Cabo Verde, com o nome “Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira”. O objectivo foi perceber como é que se reconfigurava a ruralidade na actualidade. Eva Vidal confessa, no entanto, que partiu de uma matriz errada quando começou a realizar o estudo. Cedo a investigadora se apercebeu que teria de a adaptar ao contexto rural insular. “A matriz de desenvolvimento que se preconizava para esta comunidade, numa fase inicial, inscrevia-se na linha de alguns modelos de análise utilizados na descrição de interpretação das transformações does espaços rurais”, revela.De acordo com a investigadora, a matriz inicial apelava a uma noção de desenvolvimento, baseada num modelo urbano, que defendia que a transformação dos meios rurais deveria ser feita segundo uma lógica de modernização, recorrendo à industrialização da agricultura e provocando a metamorfose da cultura local, por via da difusão tecnológica e dos valores urbanos. “Colocámos ênfase na dimensão económica do desenvolvimento”, explica.
OUTROS VALORESFoi no contacto com a população da freguesia, que Eva Vidal se apercebeu que para os raminhenses o desenvolvimento económico não se apresentava como uma prioridade. As crenças religiosas, o convívio inter-geracional e a preservação do ambiente são exemplos do que a população valoriza, acima dos bens materiais. Numa primeira análise, os investigadores interpretaram algumas das características do local de forma pejorativa. De acordo com a análise feita, o Raminho apresentava “ausência de emprego local, numa estrutura económica predominantemente baseada na agro-pecuária e na exploração leiteira”. A população apresentava também uma “elevada taxa de analfabetismo” e “baixos níveis de qualificação ou formação”, assim como uma “tendência demográfica recessiva”. Os investigadores registaram ainda uma “alteração da estrutura de emprego sinalizada pela importância que os sectores secundário e terciário assumem em detrimento do sector primário”. Estas características de “desvalorização dos problemas económicos e sociais locais” foram interpretadas como um sinal de “inércia, passividade, alheamento”, associados a “subdesenvolvimento e resistência à mudança”.No entanto, um conjunto de outros factores dava uma leitura contraditória da freguesia. Os habitantes defendiam, por exemplo, a “preservação do património natural, geomorfológico e cultural” e apresentavam “uma manifesta capacidade de mobilização dos movimentos associativos locais de cariz social e cultural”, assim como a “persistência de traços comunitários ancestrais, códigos de conduta e de valores marcados pela entreajuda, a união e a solidariedade inter-geracional”. Perante os dados contraditórios, os investigadores chegaram à conclusão de que era necessário adoptar um modelo que tivesse em consideração as singularidades do meio rural. “A sustentabilidade do espaço rural insular açoriano deve perspectivar-se nas dimensões temporais do presente e do futuro, em que a intervenção esteja conectada com a realidade de cada território. Devem procurar-se políticas de reconversão e não de ajustamento”, defende. Félix Rodrigues resume a constatação a uma frase. “A gente procurava uma lógica de desenvolvimento, mas eles procuravam uma lógica de envolvimento”, salienta. De acordo com o professor, a população não quer que o seu meio seja “artificializado”. O que os raminhenses querem é sentir-se mais “envolvidos” e “comprometidos” com a sua terra. SOLUÇÃOO estudo concluiu que o desenvolvimento da freguesia deve ser feito, tendo em conta a opinião dos seus moradores. “A abordagem tem de ser feita de modo informal, face a face, ombro a ombro com os habitantes, para percepcionar os sentidos e os significados que atribuem ao seu território”, defende a autora. É por isso que os raminhenses dão mais importância ao poder local. Em muitos casos, os populares sentem que existe falta de diálogo com outros decisores políticos, o que não lhes permite participar como desejam na tomada de decisões sobre a sua terra. Eva Vidal salienta também a existência de “líderes” na freguesia, pessoas admiradas e respeitadas por outras, que assumem essa posição de uma forma natural. “As orientações estratégicas comunitárias de desenvolvimento rural, através de alguns programas, introduzem possibilidades de governação inovadoras, baseadas em planos de desenvolvimento local, a partir de abordagens do tipo ‘bottom-up’, no desenvolvimento de parcerias, numa aproximação multi-sectorial, na implementação de cooperação e no desenvolvimento de redes inter-locais”, reforça.Os habitantes do Raminho têm ideias bem definidas sobre o que não querem ver implementado na sua freguesia. Para eles o desenvolvimento local não pode desestruturar as relações interpessoais nem as características típicas do local, como a paisagem e a tranquilidade, o ambiente e a liberdade, a harmonia e qualidade de vida ou a segurança.Félix Rodrigues salienta mesmo que muitos dos habitantes sugerem serem eles próprios a proporcionar visitas guiadas ao Raminho, serem guias turísticos de uma terra que conhecem melhor do que ninguém. Está vincada na população da freguesia a intenção de dar a conhecer a sua terra a quem passa por lá de visita. Fazem questão que os turistas guardem boas recordações do Raminho. “É necessário reforçar legitimidades, valorizar a capacidade interventiva, de mobilização e de decisão da população local, em quem reside a oportunidade de perseguir e acreditar na transformação e revitalização do seu espaço, com a vontade e as iniciativas locais, daqueles actores que melhor conhecem o seu território e o sentem como espaço de afectos. É necessário e inadiável unirem-se esforços, criarem-se compromissos com o poder público e incentivos externos para decidir a realização de projectos sustentáveis e indutores do progresso”, adianta a autora.O estudo centrou-se apenas numa freguesia do concelho de Angra, no entanto, os autores estão convencidos que tirariam conclusões semelhantes em outras freguesias rurais dos Açores, especialmente em ilhas de menor dimensão. A FREGUESIAOutrora Raminho dos Folhadais, a freguesia que serviu de base ao estudo, situa-se na costa noroeste da ilha Terceira, entre os Altares e a Serreta. O nome foi-lhe atribuído por ser uma terra fértil, mas de pequena dimensão, por oposição à fertilidade do Ramo Grande. Apesar dos transportes tornarem, hoje em dia, qualquer freguesia da Terceira próxima do centro urbano, noutros tempos, o Raminho estava isolado de Angra do Heroísmo. Foi esse isolamento que a tornou na freguesia mais rural da ilha. No entanto, o que distingue o Raminho de outras freguesias rurais é o facto de ter conseguido manter os mesmos valores e costumes ao longo dos anos. Eva Vidal salienta que hoje os raminhenses não vivem na terra por falta de opções. Fazem-no por escolha própria. Muitos dos que hoje habitam no Raminho, já passaram por cidades internacionais. A maior parte emigrou para os Estados Unidos da América. No entanto, apesar de lhes ter sido dada a hipótese de viver noutro sítio, voltaram à sua terra natal. Álamo de Oliveira é um desses habitantes. Natural do Raminho, o escritor já viveu fora da freguesia, mas optou por voltar. Vive no Raminho por escolha própria e não por obrigação. É a povo que lá vive que o cativa.“A terra tem sobretudo a sua gente, que é uma gente trabalhadora, afável, não são propriamente exploradores de intrigas, antes pelo contrário e isso quer a gente queira quer não, independentemente dos afectos que vamos criando com as pessoas, acaba por nos atrair”, revela.Álamo de Oliveira confirma que o Raminho soube trazer até aos dias de hoje as tradições de antigamente. “Já houve épocas de entusiasmos maiores, mas de qualquer maneira continuam a manter as suas tradições de forma quase exaustiva, mas ao mesmo tempo introduzindo algumas inovações, que vêm não só fazer com que essa tradição se perpetue e continue, como também vêm a melhorá-las em termos de qualidade”, salienta.“Quando eu falo em tradições estou a falar sobretudo da forma como eles ainda festejam o carnaval, há sempre um ou dois grupos a fazer bailinhos de carnaval, a maneira com ainda festejam as suas festas de verão, a maneira como realizam ainda os seus bodos…”, enumera.O escritor raminhense realça, no entanto, as capacidades intelectuais da população da freguesia. “Há outra particularidade extremamente interessante. É que o Raminho apesar de ser uma freguesia iminentemente rural, é uma freguesia com uma grande apetência cultural e intelectual. É talvez das freguesias da ilha, embora sendo pequena, que maior percentagem tem de gente formada nas áreas mais variadas das ciências e das letras”, reforça.Uma das tradições mais vincadas na sociedade do raminho é a procissão dos abalos. O evento decorre todos os anos a 31 de Maio, desde 1967, de forma a assinalar a crise sísmica decorrida nesse ano.“A procissão dos abalos mantém-se com a mesma força que tinha. Vai gente de todas as idades, crianças, jovens…Continua a ser uma procissão altamente participada. Trata-se de facto de uma promessa feita por pessoas do Raminho, há mais de 100 anos, que quer chova quer faça vento, continua a ser realizada naquele dia”, afirma Álamo de Oliveira.A procissão tem no entanto um cariz diferente das comuns manifestações religiosas da ilha. As diferenças são evidentes desde já no horário A procissão ocorre por volta das 6h00. Mas também vestuário é invulgar. Ao contrário do que é habitual, a população não se veste de forma mais requintada para celebrar o acontecimento. Vestem as roupas de trabalho, até porque mal acaba a procissão retornam às suas casas, ou em muitos casos, hoje em dia, às paragens de transportes públicos. Ninguém sai da Igreja e ninguém volta à Igreja. “Mudaram a hora inicial exactamente para que os jovens que tinham vontade de ir pudessem ir, porque aquela ruralidade que o Raminho já possuiu e já viveu está um pouco mais diluída, evidentemente. Há menos gente a trabalhar no campo, porque há muito mais gente a trabalhar fora. E portanto teve que se olhar aos horários dessas pessoas”, acentua.Esta passagem do testemunho de geração em geração ocorre de uma forma natural. A juventude mantém um diálogo aberto com os mais velhos, sem que seja necessário existir uma imposição. Para Eva Vidal, a Escola Primária do Raminho assume um papel fundamental, na continuidade desses valores.

(in DI-Revista)

Etiquetas: , , , , ,

sábado, julho 18, 2009

Entrevista de Félix Rodrigues sobre desenvolvimento sustentavel no mundo rural insular

sexta-feira, julho 17, 2009

Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira, Açores, Portugal.

Félix Rodrigues, Eva Vidal e Cristina Palos apresentaram, no 2º Congresso Lusófono de Ciência Regional, realizado na Cidade da Praia, em Cabo Verde, de 6 a 11 de Julho de 2009, uma comunicação intitulada "Desenvolvimento sustentável no mundo rural insular - Caso de estudo de uma comunidade da ilha Terceira, Açores, Portugal".

Neste trabalho, apresentaram-se as perspectivas e percepções sobre desenvolvimento sustentável de uma pequena freguesia da ilha Terceira, Açores, Portugal.
A evidência empírica deste estudo fundamenta os aspectos particulares da freguesia: a identidade colectiva, o sentido de pertença ao lugar, a cooperação, a comunicação, as actividades colectivas, a permanência da população, os aspectos ambientais, e faz sobressair, a ausência do equilíbrio da estrutura etária, da formação permanente, da manutenção de serviços e equipamentos, da viabilidade económica e das oportunidades de emprego, entre outras.
O (des)envolvimento sustentável da freguesia rural estudada é possível, assim como também é possível encontrar um sentido de futuro, mas qualquer intervenção local para ser aceite e legitimada pela comunidade terá que ser, um processo, predominantemente de natureza informal.

(In Cabo Verde - Redes de Desenvolvimento Regional)

Etiquetas: , , , , , ,

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos

Foi apresentada e defendida no Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores a tese de Mestrado em Educação Ambiental de Eva Maria de Jesus Ferreira Vidal, intitulada " A Ruralidade em Contexto Insular: a sustentabilidade edificada ao ritmo dos afectos". A tese foi orientada pela Professora Cristina Palos do Departamento de Ciências da Educação e o Professor Félix Rodrigues do Departamento de Ciências Agrárias.
O júri foi constituído pelo Doutor Tomaz Lopes Cavalheiro Ponce Dentinho, professor auxiliar da Universidade dos Açores (por designação do Magnífico Reitor), pela Doutora Rosalina Maria de Almeida Gabriel, professora auxiliar da Universidade dos Açores, pelo Doutor António Félix Flores Rodrigues, professor auxiliar da Universidade dos Açores, pela Doutora Ana Cristina Pires Palos, professora auxiliar da Universidade dos Açores e pelo Doutor Abílio Amiguinho, professor adjunto da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre.
Este foi o desafio de lançar um olhar diferente sobre o processo de desenvolvimento do espaço rural que passa por perspectivá-lo com um processo articulado, sistémico e localmente assumido.A investigação empreendida aborda as problemáticas do espaço rural, onde este parece estar a modificar-se ou a reconfigurar-se para poder responder aos desafios da actual sociedade de informação e do conhecimento. Surge da necessidade de analisar o rural na sua variedade e complexidade e de repensar o lugar que ocupa no sistema social regional e global.A interpretação desse universo simbólico - a ruralidade insular – tornou consciente a necessidade de aproveitar as oportunidades do presente para perspectivar directrizes para o futuro.No âmbito da investigação, procurou-se desocultar as características e dinâmicas da ruralidade que se evidenciam na freguesia do Raminho, da ilha Terceira. Exploraram-se as potencialidades do património natural e construído (recursos naturais, físicos, geomorfológicos, humanos, institucionais) e do património cultural (usos e costumes, festividades, tradições)l da freguesia; identificaram-se os principais problemas ou prioridades de intervenção; dão-se a conhecer as dinâmicas culturais e as formas de organização social. Procurou-se também interpretar os sentidos que os seus residentes (incluindo o poder político local) atribuem ao território, como o gerem ou partilham. Procurando contornar as explicações que consideram o “atraso”do rural como obstáculo ao “progresso” e ao desenvolvimento e perpassar as visões reducionistas e dicotómicas entre rural e urbano, campo e cidade, tradicional e moderno, aponta-se para as novas configurações entre estas dimensões e sugere-se a emergência de uma nova visão do rural pela revalorização deste espaço e a construção da ruralidade como modus vivendi, na actualidade.Não deixa de ser interessante verificar a duplicidade de posições em que os espaços rurais têm sido, historicamente, colocados. No passado desencadeavam processos de saída ou repulsão das suas populações, atraídas pelo modo de vida urbano; na actualidade parece estar a acontecer uma inversão deste sentido, constituindo os centros urbanos pólos de repulsão de alguns sectores populacionais que reconquistam o campo (apesar de este movimento ser, obviamente, menos massificado do que o anterior).As afinidades que se estão a evidenciar entre as pessoas e o espaço rural parecem estar associadas ao sentido de perda de identidades nas nossas sociedades que se deve a uma ruptura cada vez mais profunda dos laços entre o espaço e as condições ecológicas de reprodução social e, por outro lado, as dinâmicas socioeconómicas de uso dos recursos.No cenário de uma longa evolução, através da qual o campo reencontra novas funções simbólicas, em que passa a ser apreendido nas suas componentes biofísicas como natureza (como lugar de repouso, de tranquilidade, de contemplação), perde progressivamente a conotação de atraso e de subdesenvolvimento, desvirtuando-se da sua função produtiva (agrícola) para se constituir como natureza intocada, como fruição, em alternativa aos ambientes construídos e artificiais das cidades.Inscreve-se como preocupação deste trabalho a perspectiva da sustentabilidade social, económica, ambiental e cultural do espaço rural em apreço (freguesia do Raminho), perante os desafios presentes e futuros que se lhes deparam.As perspectivas sobre o rural, naquilo que são as suas novas vocações, oscilam entre a persistência de uma visão ainda identificada quase exclusivamente com o crescimento económico, a modernização tecnológica e a identificação da ruralidade com a produção agro-pecuária na procura do permanente aumento de produtividade. O rural, nesta óptica, parece passar mais pela involução em processos de desenvolvimento, posição com a qual discordamos; perfilhamos uma perspectiva de desenvolvimento que seja capaz de compatibilizar tradição e modernidade, incorporando muitos dos valores rurais ou amenidades rurais – como surge na terminologia da OCDE (1993) – como forma de alcançar o crescimento económico, maior bem-estar e melhor qualidade de vida das populações rurais. Do Território às Dinâmicas Demográficas, Económicas e SociaisDe acordo com os resultados dos últimos censos de 2001, a freguesia do Raminho tinha uma população residente de 550 habitantes. Entre 1981 e 2001, ocorreu uma redução de 17% da população residente, o que em termos absolutos representa a perda de 113 pessoas, situação distinta da que aconteceu no concelho e na ilha em que a variação da população residente é positiva. A taxa de analfabetismo verificada na freguesia supera a do concelho. Apenas 7,5 % da população possui o ensino secundário completo, contra cerca de 78% que possui o ensino básico. Numa freguesia onde predomina a faixa etária dos 25-64 anos, existe um baixo nível de qualificação da população, embora se verifica um crescimento pouco significativo da população que frequenta o ensino universitário e que representa 2,4% da população.Enquanto na ilha e no concelho não se verifica, nesta década, uma mudança na estrutura do emprego da população activa, no Raminho essa mudança é bastante notória. O sector secundário e terciário ganham uma importância acrescida na estrutura do emprego da população activa local.O sector primário que integrava, em 1991, 54,2 % da população já só empregava, em 2001, 25,2% dessa população.Os resultados da investigação evidenciam que existe uma sua forte ligação afectiva dos residentes à freguesia.Nota-se que os factores que explicam a vinculação à freguesia fazem referência aos laços matrimoniais, ao emprego local e à história de vida associada ao local: lugar onde habita e onde tem as suas ligações afectivas.As razões que os fazem permanecer no Raminho são os grupos de pertença e as redes de sociabilidade local que prevalecem de uma forma ainda muito significativa.Os indivíduos que valorizam estas dimensões atribuem uma forte conotação às suas raízes.Os habitantes têm a percepção dos aspectos únicos da localidade que permitem distingui-la positivamente das outras, com destaque pela a paisagem, a proximidade com a natureza, a beleza, a calma e a tranquilidade são as características mais significativas que a maioria dos indivíduos entrevistados associam ao Raminho, referindo-se ao espaço deste modo: «É um lugar calmo para se viver, onde as pessoas se sentem bem.» «um estilo de vida tranquilo» sinónimo de qualidade de vida «temos mais qualidade de vida». O que pode explicar estarmos em presença do fenómeno da recriação da ruralidade inserido na filosofia pós-moderna da redescoberta e revalorização do espaço rural.Prevalece o “espírito de lugar” em que a noção de lugar transcende as coordenadas geográficas para “veicular a ideia - e o ideal – de “raízes” e de um “enraizamento”. O património é, acima de tudo, uma representação dos ideais de singularidade e de continuidade. E poderá vir a potenciar ou a funcionar como “vector de novas identidades e de novas sociabilidades e, nesse sentido, ajudar à emergência de novas dinâmicas locais” conducentes ao desenvolvimento ou promoção do lugar. As características das pessoas e das relações interpessoais referidas pela amostra da população.No caso específico da freguesia, a organização social e o tipo de relações estabelecidas localmente apresentam ainda traços comunitários e reflectem bem a prevalência dos valores reconhecidos ao rural, enquanto marcas que perduram inegavelmente no tempo, enquanto códigos culturais transmitidos de geração em geração. O Raminho autodefine-se de modo particular pelo interconhecimento na perspectiva dos entrevistados. A hospitalidade e a capacidade de acolher bem as pessoas são, para metade dos participantes no estudo, valores reconhecidos ao Raminho.Admite-se que as relações de vizinhança e de cooperação são integradas e significantes no quadro de vida da população agora ajustadas a novas concepções e modos de viver. A configuração das relações intergeracionais e o reforço activo dos laços e solidariedades intergeracionais são referidos por um quarto dos entrevistados, em que os saberes ancestrais são legitimados pelos jovens da freguesia, no contexto da diversidade cultural e social actual, em que os múltiplos saberes se cruzam e acontecem no intercâmbio entre os actores sociais. É manifesto, nos discursos verbalizados pela totalidade dos entrevistados, a aceitação dos “intrusos”, principalmente, se forem visitantes e estiverem de passagem. A integração plena dos novos residentes na comunidade apenas é facilitada quando por laços matrimoniais ou situação de emprego na freguesia, ainda que a vinda seja reconhecida como benéfica para o equilíbrio etário da população e surja como uma possibilidade de revitalização demográfica. A tendência das respostas indica também que, a freguesia poderá estar a exercer um novo poder de atractividade, pelas características espaciais e simbólicas que pode oferecer como alternativa aos meios urbanos. No caso particular do Raminho, a execução e melhoria das vias de comunicação e rodoviárias terão contribuído para que este se tenha tornado um lugar mais atractivo, em termos residenciais, porque agora está integrado em circuitos de maior mobilidade que favorecem a aproximação e a ligação a outros lugares, o que torna este espaço mais aberto. Outro aspecto interessante dos resultados obtidos no estudo destas questões resulta de que, ao contrário do que se poderia supor, nenhum dos entrevistados revelou atracção pelo modo de vida dos centros urbanos da ilha, Angra do Heroísmo ou Praia da Vitória. Constata-se, aliás, ser percepção destes indivíduos que a qualidade de vida na sua freguesia é melhor do que na cidade.Uma análise mais detalhada, relativamente à freguesia, permite verificar que existem problemas diferenciados e relevantes a vários níveis. Perspectiva-se para a freguesia a necessidade de impulsionar a diversificação da economia, isto é, a criação de actividades e serviços promotores de emprego na localidade do Raminho, não só para fixar a população como para revitalizar o desenvolvimento local, o que passará ainda pela capacidade de rentabilizar melhor os recursos presentes neste território. Antes de se direccionarem projectos é fundamental saber contextualizá-los, respeitar as idiossincrasias locais e articular a participação dos diferentes intervenientes em propostas de requalificação. É importante o reconhecimento dos seus direitos, experiências, saberes e, principalmente, o entendimento de que são os sujeitos que aí habitam que detêm responsabilidades na manutenção e gestão do seu espaço. Na ânsia de padronizar modelos ou concepções dominantes na nossa sociedade e de materializar planos de acção, estratégias e projectos, orientamo-nos para destinatários idealizados, escusamo-nos a recolher os significados e os sentidos de pensar e de agir, as perspectivas da população acerca dos problemas e das potencialidades do seu território, das suas expectativas e posições. Quando, na verdade, o que é necessário é situar e articular acções que enquadrem uma intervenção coerente daquilo que são os interesses e valores locais.Do ponto de vista do educador ambiental faz todo o sentido uma análise da realidade que não esconda antes enfatize as necessidades e problemas locais, mas não querendo apenas desqualificar ou desvalorizar fragilidades e carências da freguesia, deve-se apostar nas potencialidades, nos recursos e nas mais valias funcionais do espaço e dos seus habitantes, bem como, na mobilização colectiva dos actores locais, como condição necessária ao reconhecimento de um património comum, das raízes, das identidades, das idiossincrasias e, na convicção de que, a plataforma de desenvolvimento tem muitas probabilidades de se desencadear a partir dessa conjugação positiva de sinergias. O (des)envolvimento sustentável do Raminho é possível, assim como também é possível encontrar um sentido de futuro, mas para que uma intervenção local seja aceite e legitimada pela comunidade terá que ser a expressão de um projecto colectivo e mediado em permanência e não resultado da simples imposição a partir de fora, devendo dar-se primazia ao agir com os cidadãos. A lógica da Agenda 21 local parece estar subjacente às ideias professadas pela participantes no estudo. Interessa que as autoridades locais a dinamizem, acreditando-se que, pela manifesta vontade de participação da população, os resultados serão promissores para a sustentabilidade do Raminho.
"Dobra-se a curva da estrada corrente e abre-se uma planície de pastagens rasgadas por uma lâmina de casas. O sol do norte dá-lhe a luminosidade límpida dos tempos e das gentes. A seus pés, o mar não desiste duma posse impossível. Raminho dos Folhadais de seu nome – terra da fertilidade e dos afectos." (Álamo de Oliveira)

Etiquetas: , , , , , , ,

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Periferias e Espaços Rurais

O livro “Periferias e Espaços Rurais”, editado por Tomaz Dentinho docente do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e Orlando Rodrigues, Presidente da Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais foi apresentado ontem na Associação Agrícola de São Miguel. A obra reúne as actas do II Congresso de Estudos Rurais, realizado em Angra do Heroísmo, e que contou com a presença de mais de 200 pessoas, e onde se apresentaram 35 textos, tendo sido seleccionados 22 desses textos para este livro. A apresentação da obra esteve a cargo de Fernando Lopes, professor universitário e antigo secretário regional da Agricultura, que destacou o facto de o espaço rural ter ganho terreno a outras actividades, nomeadamente vocacionadas para o lazer, em virtude da “reclassificação do uso da terra para estes fins”. Fernando Lopes adiantou que assim como a agricultura teve um impacto que os ambientalistas vêm avaliar, também as novas actividades têm impacto no território, como as urbanizações, os parques industriais e campos de golfe devem ser devidamente avaliadas. Tomaz Dentinho disse que o desenvolvimento rural é uma “problemática interessante porque vai para além da economia, analisando as vilas e aldeias que dependem da agricultura mas que têm vida para além da agricultura”. Segundo referiu, “toda a política de demarcação de áreas protegidas e toda a política ambiental é, “de alguma forma, posta em causa por estes pequenos estudos”.
(In Diário Insular)
Conforme diz o Orlando Rodrigues, co-editor do livro “Periferias e Espaços Rurais”, uma selecção de textos sobre o mundo rural constitui uma oportunidade maior para reequacionar os problemas específicos das regiões periféricas e os mecanismos institucionais, económicos e sociais que, em interacção com as particularidades geográficas e naturais, são responsáveis pelo desenho do espaço, do seu desenvolvimento e das suas desigualdades. A publicação destes trabalhos responde a algumas destas inquietações. Numa primeira parte, mais centrada sobre as questões agrícolas, evidenciam-se sinais de resistência ou de reemergência de actividades e de sectores marginais ou periféricos que podem encerrar um elevado potencial de geração de riqueza e de competitividade pela diferenciação. O que acontecerá às regiões mais periféricas, as zonas de montanha e as ilhas, principalmente as ilhas ditas “de baixo”? Como aprendemos nestes textos os factores de resiliência e de base de desenvolvimento são as gentes, as empresas, as instituições e as tecnologias locais. As pessoas que vivem das reformas e da produção de gado, as empresas que se ligam em redes horizontais e verticais, as instituições como o regime de baldios e as regulações de propriedade, e as tecnologias como as dos lameiros no Norte e dos produtos com denominação de origem. Na segunda parte do livro focam-se os problemas da sustentabilidade ambiental e do próprio ambiente enquanto gerador de riqueza e de produções transaccionáveis no mercado – as amenidades ambientais. O ajustamento das políticas de promoção do ambiente dirigidas a regiões periféricas, em boa parte catalogáveis enquanto políticas de coesão, é largamente discutido ao longo desta parte. Paradoxalmente, o que parece verificar-se é que os grupos que são fortemente contra a criação de áreas protegidas são também aqueles que manifestam uma marcada identidade regional e sentido de pertença. Se associarmos isto ao facto de os grupos ambientais serem também aqueles que têm maior participação pública e que as atitudes face ao meio ambiente da população estão associados aos seus próprios valores, então podemos explicitar a hipótese de que a escolha pública das áreas protegidas carece de ser redefinida, tanto mais que o posicionamento ambiental varia fortemente com as gerações e com as regiões. Por fim, a terceira parte centra-se sobre o social no rural periférico: múltiplas dimensões são aqui esclarecidas, em particular as dinâmicas das redes sociais e os problemas relacionados com a educação, com os idosos e com os fenómenos migratórios. O que se conclui é que os sítios acabam por integrar as pessoas que neles optam por residir, e ao longo desse processo de integração dá-se uma redução das ligações externas dos imigrantes que implicam um aumento das ligações internas.
No lançamento deste livro estiveram presentes o Secretário Regional da Agricultura dos Açores, Noé Rodrigues, o Presidente da Associação de Agricultores da ilha de São Miguel, Jorge Rita e os professores da Universidade dos Açores Mário Fortuna e Fernando Lopes.
Foi uma sessão muito esclarecedora. Por um lado para explicitar os novos conflitos e complementaridades do mundo rural – entre a produção agrícola e a provisão de serviços ambientais, entre o turismo e a especulação própria da expansão das actividades urbanas para o espaço rural. Por outro lado para rever a estratégia de política agrícola para os Açores: foi bom ou mau apoiar as cooperativas nos anos noventa quando acabaram por cair na mão de capital externo à Região? É bom ou mau ter vacas deste tipo ou de outro? Bom é ter uma Região onde pessoas com várias perspectivas se podem sentar à mesma mesa a conversar sobre temas que interessam a todos.

(In A União)

Etiquetas: , , , , , ,

quinta-feira, setembro 27, 2007

Ruralidade insular (cidade versus campo)

Foi discutido no I Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países Lusófonos e Galiza, que decorreu em Santiago de Compostela de 24 a 27 de Setembro, um trabalho sobre a ruralidade insular açoriana, de Eva Vidal, Ana Cristina Palos, Félix Rodrigues e Sandra Vidal, docentes e investigadores do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores. O principal objectivo desse Congresso foi discutir a contribuição da educação na construção dos valores, bases culturais e bases políticas que sirvam para a promoção de sociedades sustentáveis.
O trabalho intitulado: "A Ruralidade num Contexto de Desenvolvimento Sustentável: potencialidades educativas, turísticas e patrimoniais" resulta de uma investigação levada a cabo pelos autores na freguesia do Raminho na Ilha Terceira, por se considerar ser este o espaço "mais rural" da ilha.

Esse trabalho aborda assim as problemáticas do espaço rural, onde este parece estar a modificar-se ou a reconfigurar-se para poder responder aos desafios da actual sociedade de informação e do conhecimento. Surge da necessidade de analisar o espaço rural na sua variedade e complexidade e de repensar o lugar que ocupa no sistema social regional e global. A partir de uma abordagem transdisciplinar teve como principal finalidade identificar as potencialidades e as dinâmicas locais e perceber a complexa rede de interacções de um conjunto de fenómenos: demográficos, económicos, sociais, culturais e ambientais.
Com este estudo também se pretendeu enquadrar teoricamente algumas questões acerca da problemática do rural: compreendê-lo como local, um tempo e um contexto de interacções, procurando desocultar as características específicas e funções desse espaço.
No âmbito desta investigação, exploraram-se e interpretaram-se as potencialidades do património natural e social do Raminho. Se, por um lado, se apresenta a produção de um conhecimento sistematizado sobre o local, por outro, cria-se a oportunidade para que essa informação perdure e seja aproveitada na educação ou na vertente do turismo. Empreendeu-se o levantamento a nível de: recursos naturais; dinâmicas demográficas e de ocupação do território; condições e modos de vida da população local; dinâmicas culturais existentes. Também se procurou interpretar os sentidos que os seus residentes atribuem ao território, como gerem ou partilham as potencialidades desse espaço, a fim de se compreender como acontece a preservação e transformação do espaço rural insular na actualidade.

As conclusões do estudo remetem para a necessidade de se assumir uma visão territorial e multidimensional na definição de políticas, onde sejam coordenadas medidas e estratégias locais, regionais e nacionais que permeiem os aspectos de ordem social, cultural, económica e ambiental de forma equilibrada.

(In RDP-Açores)

Etiquetas: , , , , , , , , ,