segunda-feira, junho 22, 2009

Saber ser empreendedor

Blandina Costa
Ensinar a ser empreendedor é uma tarefa a que muitas universidades e escolas do país já aderiram. E querer abrir um negócio próprio não é condição necessária para frequentar os cursos. Afinal, ser empreendedor a trabalhar por conta de outrem é também um factor de sucesso na carreira. O importante é saber escolher. A componente prática dos cursos, em que se testa uma ideia concreta de negócio, e se partilha as experiências de quem já fez o mesmo, permitindo que os alunos auto-avaliem o seu perfil empreendedor, são requisitos importantesA ideia de criar um negócio próprio provavelmente já lhe passou pela cabeça. Por brincadeira, em conversa com amigos ou num tom mais sério lançou a ideia para o ar. Mas se alguns embarcam na aventura, muitos acabam, no entanto, por deixar morrer a ideia do que poderia ser uma alternativa de vida. Sabendo que a falta de conhecimentos básicos sobre como lançar um negócio e dar-lhe vida é, muitas vezes, um travão ao lançamento de um projecto empresarial próprio, muitas universidades e escolas do país lançaram nos últimos anos cursos de empreendedorismo. Não é difícil encontrá-los de Norte a Sul do país, passando pelas regiões autónomas. Mas afinal o que ensinam estes cursos, a quem se destinam e será que são mesmo uma opção para quem quer lançar um negócio próprio?Antes de mais, quem já lida com o ensino do empreendedorismo há alguns anos começa por frisar que os cursos de empreendedorismo não são só para quem quer lançar um negócio, mas destinam-se a criar e a fomentar uma atitude empreendedora, seja para quem quer lançar um negócio próprio seja para quem trabalha por conta de outrem. Francisco Banha, presidente executivo da GesEntrepreneur, uma empresa vocacionada para o ensino do empreendedorismo, e que é também responsável pela disciplina de Entrepreneurship no MBA do ISEG, diz que criar "um negócio no futuro é apenas um resultado. Todos os empregadores querem trabalhadores com um espírito empreendedor." E acrescenta: "A educação em empreendedorismo tem como objectivo desenvolver um conjunto de atitudes e competências como a autonomia, a criatividade, o espírito de iniciativa e a inovação."
Pedro Saraiva Empreendedor é alguém que tem coragem de converter um sonho em realidadeUm curso deve determinar até que ponto se tem ou não um perfil empreendedor. É, por isso, que uma das etapas do curso de empreendedorismo desenvolvido pela Universidade de Coimbra passa pelo preenchimento de um inquérito de auto-avaliação que pretende determinar o perfil de empreendedor de cada aluno. Ser empreendedor, diz Pedro Saraiva, vice-reitor da Universidade de Coimbra, "é ser alguém que tenha capacidade de sonhar, a coragem de converter esses sonhos em realidade, sabendo que vai ser obrigado a tomar decisões em ambiente de incerteza e de risco, que vive em permanente aventura e que vai ter de antecipar mudanças, posicionando-se pela positiva." E é preciso testar e ver se se tem ou não estas características.Com a experiência de dez anos de ensino do empreendedorismo, a Universidade de Coimbra aprendeu também que a componente prática dos cursos é uma vertente importante. "Tentamos que seja uma aprendizagem prática, em que se trabalha uma ideia concreta e o curso é desenvolvido trabalhando essa mesma ideia", explica Pedro Saraiva. Essa é também a filosofia de ensino da GesEntrepreneur ao importar a metodologia do 'learn by doing' que Chris Curtis implementou no Canadá. "A melhor maneira de formar um empreendedor é proporcionar-lhe condições para que ele possa fazer as coisas acontecerem. Assim, em vez de tentarmos levar o mundo exterior à sala de aula, levamos os formandos ao mundo exterior, fazendo-os sair da sua zona de confiança", acrescenta Francisco Banha.
Um viveiro de ciência

Da formação em empreendedorismo que a Universidade de Coimbra tem desenvolvido nos últimos 10 anos já nasceram 107 empresas - a uma média de mais de 10 por ano -, foram criados 1.110 postos de trabalho quase todos de licenciados e doutorados e algumas já estão mesmo presentes noutros países. São sobretudo empresas de base tecnológica que germinaram nas várias faculdades e institutos da universidade, tendo estas um volume de negócios de cerca de 55 milhões de euros por ano. Empresas hoje muito conhecidas como a Critical Software ou a Crioestaminal contam-se entre estes números. O segredo do sucesso está no facto do ensino do empreendedorismo vir associado a um "viveiro de produção de ciência", explica Pedro Saraiva, vice-reitor da Universidade de Coimbra. O universo de 1.500 cientistas e docentes universitários que trabalham em sectores de actividade como as tecnologias de comunicação, ciência viva, energia e ambiente e materiais - áreas onde se pode criar oportunidades de mercado -, mas também noutras faculdades como a de Letras, juntam-se por exemplo ao Instituto Pedro Nunes (incubadora de empresas) para criar um potencial empreendedor pouco habitual em Portugal. O ensino do empreendedorismo na Universidade de Coimbra faz-se em várias frentes: cursos para a população em geral com uma duração em regra de duas semanas, realizada em várias localidades do país e até fora (Lubango em Angola foi um caso de sucesso), e em que se trabalham ideias de negócios com os formandos; iniciativas de sensibilização, como seminários, com empreendedores que servem de modelo; concursos de ideias de negócio; e os cursos de empreendedorismo tecnológico que partem das tecnologias que saem dos laboratórios das universidades e que são trabalhadas por equipas mistas de investigadores e mentores de outros negócios. Prova de que o trabalho tem dado resultados é que, das últimas edições do prémio BES Inovação, os grandes prémios incidiram sobre projectos de ciência e tecnologia desenvolvidos a partir da Universidade de Coimbra. Um terceiro factor fundamental apontado por Pedro Saraiva é o facto de os cursos proporcionarem aos formandos a possibilidade de partilharem a experiência com outras pessoas que passaram pelo mesmo, através de testemunhos práticos.
Francisco Banha

Os empregadores querem trabalhadores com espírito empreendedor "A essência é a atitude empreendedora", resume o vice-reitor da Universidade de Coimbra, explicando que os cursos procuram dosear de forma equilibrada estas componentes com as noções sobre a gestão de um negócio, a análise económico-financeira, a gestão de recursos humanos ou o marketing e estudos de mercado. A componente prática tem sido cada vez mais valorizada e Francisco Banha diz mesmo que essa é a vocação dos cursos de empreendedorismo: "A educação em empreendedorismo pretende esbater a enorme barreira que ainda hoje separa a Escola das restantes organizações sociais" e fazer a ponte entre o campo educativo e o mercado de trabalho.O ensino do empreendedorismo não se limita a cursos específicos sobre o tema. Cada vez mais, as universidades têm optado por criar a disciplina e torná-la acessível a uma diversidade de cursos, nuns casos como opção, noutros como disciplina obrigatória. "Nós acreditamos verdadeiramente que o empreendedorismo deve ser uma área transversal e tanto assim é que criámos a disciplina e temos tentado oferece-la a todas as licenciaturas da Universidade dos Açores", afirma Gualter Couto, director do Centro de Empreendedorismo da Universidade dos Açores. Criado em 2006, para colmatar a falta de iniciativa empreendedora, dinamismo, inovação e competitividade da região, o Centro concebeu não só cursos específicos sobre o tema, como tem tentado introduzir a matéria nos vários cursos da universidade. Desde o ano lectivo de 2007/2008, a disciplina é uma opção nas licenciaturas de Economia e Gestão e uma cadeira obrigatória na licenciatura de Serviço Social. Gualter Couto só lamenta que não haja mais adesão interna. "Já oferecemos essa disciplina aos restantes departamentos da Universidade mas infelizmente as mentalidades ainda não estão tão abertas como se desejaria a novas iniciativas como esta."
David Ligeiro

Planeia lançar-se por conta própria no mercado angolano As opiniões dividem-se quando se fala no impacto que o processo de Bolonha (que implicou uma reestruturação dos cursos universitários) teve no ensino do empreendedorismo. Se para Pedro Saraiva, da Universidade de Coimbra, Bolonha trouxe uma cobertura curricular obrigatória ou opcional que antes não existia nos cursos; para João Carvalho das Neves, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, ou ISEG, e com larga experiência de ensino nesta área, veio desestruturar muita coisa que existia, nomeadamente, no ensino do empreendedorismo. "Em licenciaturas de três anos não dá para ter tudo. Era uma cadeira de 4º ano e agora ficou para o segundo ciclo de Bolonha e, como há uma grande variedade de mestrados, não foi possível introduzir a disciplina em todos. O que acaba por não ter expressão", lamenta.Para que o ensino do empreendedorismo no meio académico possa ter sucesso, preparando as gerações futuras, João Carvalho das Neves diz que as várias faculdades e departamentos de uma universidade têm de trabalhar em conjunto, aliando as vertentes da gestão ao trabalho de investigação e tecnologia. Além disso, lança uma ideia: porque é que o Estado, em vez de entregar fundos de capital de risco a uma sociedade gestora, não faz a experiência de entregar esses fundos nas mãos de universidades com um historial comprovado na área do empreendedorismo. O retorno seria, provavelmente, compensador.
A pensar num negócio

David Ligeiro tem 25 anos e, há pouco mais de dois anos, decidiu ir viver e trabalhar em Angola. É funcionário da UniOne, uma empresa de consultoria que apoia empresas que se querem implantar em território angolano, e já tem planos para lançar um negócio próprio no país. Para isso, o curso de empreendedorismo da Universidade de Coimbra, organizado pela primeira vez em 2008 no Lubango, em Angola, tem-se revelado um instrumento precioso para organizar as ideias futuras. "A aprendizagem é fundamental, principalmente para evitar cometer erros básicos que podem facilmente ser evitados utilizando conhecimentos fundamentados, que não sejam apenas empíricos", explica David Ligeiro. E aquilo que aprendeu tem também sido muito útil na organização e desempenho do seu trabalho diário. Sabe que o exemplo é importante e, por isso, decidiu também dar o seu testemunho. A UniOne faz parte do projecto Junior Achievement - uma rede que desenvolve programas de apoio a alunos de diversas escolas a constituir a sua "mini-empresa", ensinando e acompanhando todos os passos de criação e vida de uma empresa - e David Ligeiro é um dos voluntários. Ensina a fazer aquilo que um dia quer pôr em prática: a criação de uma empresa, neste caso, de Imagem, Design e Publicidade. PAlém de ser uma das suas áreas de eleição, sabe que este sector tem pouca oferta em Angola e "o potencial é enorme".

(In Jornal de Negócios)

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sexta-feira, junho 05, 2009

Ex-reitor diz que Bolonha “desceu nível” do ensino

O ex-reitor da Universidade dos Açores (UAc), Vasco Garcia, considera que o Processo de Bolonha a que aderiu a academia regional representa uma “descida de nível” do ensino superior em Portugal e na Europa.
A Declaração de Bolonha, também conhecida como Processo de Bolonha, constitui um documento assinado conjuntamente há dez anos pelos ministros da Educação de 29 países europeus, precisamente naquela cidade italiana.
Pretendeu marcar uma mudança no que diz respeito às políticas ligadas ao ensino superior dos países envolvidos, procurando estabelecer uma Área Europeia de Ensino Superior a partir do compromisso dos países signatários (Portugal é um deles) em promover reformas dos seus sistemas de ensino.
Na prática, Bolonha veio encurtar o período das licenciaturas de quatro para três anos, adequando e concentrando os programas curriculares às necessidades das empresas. Mas, no balanço feito por Vasco Garcia, as mudanças que ocorreram não melhoraram o sistema. Bem pelo contrário, degradaram-no ao ponto de ter baixado a fasquia da “exigência e qualidade” e até da flexibilidade. O que Bolonha chama de licenciatura de três anos, o ex-reitor da Universidade açoriana diz não passar do antigo bacharelato português de três anos. “Em Portugal há o hábito de se chamar doutor aos licenciados.
Os licenciados obviamente não são doutores: o doutor é quem tem o grau de doutoramento. E vai-se chamar agora doutor a quem, no fundo, tem um antigo bacharelato de 3 anos? Bom, acho isso uma espécie de terceiro-mundialização do ensino superior e, portanto, não posso estar de acordo”, frisou ao Açoriano Oriental, para deixar claro também que “não se devia ter acabado com o grau de bacharel, que seriam os tais 3 anos, em vez de se passar a dar aos antigos bacharéis o grau de licenciado”.
Vasco Garcia entende que Bolonha, a pretexto da tentativa de unificação do sistema de ensino superior na Europa, acabou por esbater a fronteira entre o ensino profissional e o universitário, o qual deveria ser “muitíssimo mais baseado na investigação científica e na procura de soluções originais para a sociedade. Sou contra, sempre fui e vou continuar a ser”.
Na sua perspectiva, a Declaração de Bolonha não é uma boa solução para melhorar o sector e gorou a oportunidade de harmonizar o sistema universitário entre os dois grandes blocos de ensino e investigação no mundo, que são a América do Norte (EUA e Canadá) e a Europa. Nesse sentido, o antigo reitor da UAc afirma-se como um defensor do modelo norte-americano. “Nos EUA ninguém sai com uma licenciatura sem ter, no mínimo, quatro anos de escolaridade universitária. Quem tiver menos do que isso obtém uma coisa mais ou menos equivalente ao nosso antigo bacharelato”, sublinha. Por tudo isto, a cotação internacional do ensino superior nos EUA ultrapassa a da União Europeia.
(Paulo Faustino In Açoriano Oriental)

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segunda-feira, março 23, 2009

Momento único da Universidade

Tomaz Dentinho

Na pasada Sexta-feira houve eleições para o Conselho Geral da Universidade dos Açores. Foram as primeiras eleições para este novo órgão máximo da Universidade e um momento único para o desenvolvimento dos Açores. Isto se assumirmos que o desenvolvimento passa pela criação de uma sociedade onde o conhecimento e a sabedoria têm um papel importante. Isto se admitirmos que a Universidade dos Açores tem um papel relevante na criação de uma região de conhecimento e de sabedoria.
O momento é ainda mais importante porque é contemporâneo com momentos semelhantes nas Universidades Públicas Portuguesas e com tempos de mudança nas Universidades Europeias. Vale a pena reflectir sobre os testemunhos que recolhi no passado fim-de-semana quando passei por Évora, Lisboa e Tanger onde contactei com alguns elementos marcantes das Universidades portuguesas sediadas naquelas cidades lusas e também com docentes das Universidades de Lille, Bolonha e Salé. O reitor de Évora não parece muito sensível à composição do Conselho Geral eleito recentemente. Por um lado vai para a reforma depois de terminar o reitorado, por outro lado está interessado em dar os seus préstimos ao mundo lusófono, finalmente quer deixar a sua marca e não a do Conselho Geral na Universidade de Évora. É porventura esta a posição de muitos reitores eleitos pelo sistema anterior mas o mesmo não acontecerá certamente aos que forem nomeados pelo novo sistema.Um dos elementos mais activos do Conselho Geral da Universidade Técnica de Lisboa contou-me que o resultado eleitoral indicou que o Instituto Superior Técnico não deveria ser transformado em Universidade pois a lista que tal defendia perdeu. Relatou-me ainda o elenco de excelência dos membros cooptados da sociedade e descreveu-me as peripécias da eleição do Presidente do Conselho Geral que acabou por recair em Adriano Moreira. Os elementos da Universidade Nova de Lisboa, que pertencem a uma rede de investigação onde me integro apostam em colocar aquela Universidade na rede das melhores universidades do mundo e convocaram pessoas com visão mundial para o seu Conselho Geral. Para além disso vão aproveitando as pessoas das Universidades mais periféricas no Norte, no Sul e Ilhas sem grandes vantagens para essas universidades. O meu colega da Universidade de Bolonha está bastante preocupado com o reduzido nível de salários dos docentes das universidades italianas o que pode levar a uma fuga de pessoas para o estrangeiro e para empregos fora da universidade. Um outro elemento da Universidade de Lille está apostado na forte ligação entre a Universidade e a enorme capacidade que os satélites franceses têm na obtenção e interpretação de dados do território a qualquer escala e de qualquer local do mundo. Finalmente os nossos colegas marroquinos de Salé estão apostados em criar bons investigadores com orientação dos franceses, italianos e portugueses. A interligação desta pequena ligação ao mundo universitário nacional e internacional, com o momento eleitoral da Universidade dos Açores, leva-me a tirar duas ilações:- Primeiro, a eleição do Conselho Geral tem aparentemente um efeito reduzido no curto prazo mas um efeito marcante para a nomeação do novo reitor e para o seu mandato. A menos que os problemas financeiros da Universidade dos Açores se tornem graves em 2009 e 2010 e o Conselho Geral se veja obrigado a tomar uma posição de força.- Segundo, a eleição do Conselho Geral tem um efeito marcante no longo prazo não só porque implica a eleição do reitor mas também porque envolve a orientação da Universidade. E como as Universidades de Lisboa estão no processo activo de internacionalização e melhoria, podemos ficar definitivamente para trás caso o Conselho Geral enverede por escolhas parciais ditadas por restrições departamentais, sindicais ou partidárias. Os resultados eleitorais dão espaço para todas as opções. Para além do mais representam uma magnífica síntese da diversidade universitária, com gente de letras e de ciências, com pessoas de vários campus e proveniências, com membros mais situacionistas e mais oposicionistas. A resultante disto tem a ver com a perspectiva que adoptarem. Virando-se para dentro dividem-se, virando-se para fora, unem-se de forma consequente e para bem da criação do conhecimento e da sabedoria nas ilhas do meio do mundo.

(in A União)

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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Processo de Bolonha e falta de dinheiro

Reitor da Universidade dos Açores, Avelino Meneses, assume que falta de dinheiro condiciona aulas práticas na Universidade, mas rejeita atrasos no processo de Bolonha.

(ouvir notícia aqui)

(In Paulo Alves - RDp Açores)

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terça-feira, janeiro 27, 2009

Processo de Bolonha "esqueceu" componente experimental dos cursos

Embora a Universidade dos Açores tenha tido uma boa integração no Processo de Bolonha, tenha captado novos públicos e esteja a proporcionar o contacto dos alunos com o mercado de trabalho, os cursos têm pouca componente experimental e os níveis de mobilidade não são os desejáveis.
O Relatório de Concretização dos Objectivos do Processo de Bolonha na Universidade dos Açores, recentemente divulgado, revela que 66 por cento do conjunto de licenciaturas, mestrados e doutoramentos da academia açoriana, não têm qualquer componente experimental. O que quer dizer que, dos 63 cursos leccionados na Universidade dos Açores, 42 têm zero por cento de prática de laboratório, trabalho de campo e trabalho de investigação. Dos restantes 21 cursos, as licenciaturas nas áreas da Biologia, Ciências Agrárias, Engenharia, Matemática e Informática são as que têm maior incidência experimental. As componentes de projecto e estágio ganham particular relevo nos cursos de Enfermagem, apresentando menor expressão nos cursos pertencentes às áreas já mencionadas, assim como nos cursos das áreas de Serviço Social, Património Cultural, Turismo e Educação. Sendo que nas restantes áreas, com a implementação do novo processo, não existe qualquer estágio ou trabalho de projecto. Isto significa que os cursos de licenciatura em Psicologia, Economia, Gestão, Sociologia, Comunicação Social e Cultura e Relações Públicas e Comunicação não têm qualquer tipo de componente experimental, nem sequer estágios ou trabalhos de projecto. As conclusões do relatório referem que estes dados “põem em evidência que, ao nível do trabalho experimental, será possível conceder um maior espaço, pelo menos em alguns sectores”. A mobilidade de estudantes e docentes, um dos principais objectivos do Processo de Bolonha, que pretende criar uma área de ensino superior europeu, através da eliminação das fronteiras tanto físicas como dos saberes, é ainda uma realidade que, embora tenha uma “evolução animadora” nos últimos anos, tem ainda pouca expressão na Universidade dos Açores, especialmente no que diz respeito aos professores. As conclusões do relatório referem que é necessário incrementar “estratégias susceptíveis de aumentar o seu crescimento”, acrescentando que “ao nível da mobilidade dos docentes, o balanço encontra-se ainda longe de um patamar desejável”. Quanto ao controlo da qualidade do ensino na Universidade dos Açores, feito através da realização de inquéritos aos alunos das licenciaturas, o relatório revela que apenas 35 por cento dos estudantes participaram no ano passado. Sendo assim, nas conclusões do documento é sugerida a institucionalização de uma cultura de avaliação, de modo a aumentar a participação na resposta aos inquéritos e o alargamento dos inquéritos aos alunos dos cursos de mestrado. O relatório revela também que no que toca ao funcionamento das unidades curriculares e desempenho dos docentes, o “bom” foi a classificação com maior número de respostas, e que no que diz respeito ao grau de envolvimento dos estudantes e à sua intervenção nas aulas, 40 por cento respondeu “médio”. Como outros pontos positivos, o relatório destaca a boa integração do Processo de Bolonha na Universidade dos Açores, já que foi totalmente implementado um ano antes do prazo limite estabelecido e que conseguiu atingir o objectivo de tornar os cursos mais específicos; a captação de novos públicos, através da oferta de cursos pós-secundários de especialização tecnológica e do aumento das candidaturas especiais para maiores de 23 anos (241 este ano lectivo); e a permanente preocupação dos responsáveis pelo funcionamento de diversos cursos em assinar protocolos com instituições, serviços e empresas locais, com o objectivo de conferir aos alunos “uma base importante de inserção no mundo do trabalho”.

Mais atractividade e mobilidade

A implementação do Processo de Bolonha veio impor a organização do ensino superior em três ciclos, a introdução do sistema europeu de transferência e a acumulação de créditos (ECTS), baseados no trabalho efectivo dos próprios estudantes, bem como a estruturação dos cursos com base no desenvolvimento de competências. Actualmente, todos os cursos da Universidade dos Açores estão adequados a este novo modelo de ensino superior. Os cursos de 1º ciclo de estudos (licenciaturas) passam a ter a duração de 6 semestres, com 180 ECTS, e os cursos de mestrados 4 semestres, e 120 ECTS. Constituem excepção a esta regra os cursos de licenciatura em Serviço Social, que têm uma duração de 7 semestres e 210 ECTS, e os cursos de licenciatura em Enfermagem, que têm uma duração de 8 semestres e 240 ECTS.

(João Cordeiro In Açoriano Oriental)

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domingo, setembro 30, 2007

Universidade dos Açores terá em conta o mercado

A Universidade dos Açores deve diminuir a distância que existe entre o ensino superior e o que são as necessidades do Estado e das empresas. Quem o defendeu foi o Reitor da UA, Avelino Meneses, que falava na sessão de acolhimento e convívio com os novos alunos que frequentarão, este ano lectivo, o primeiro ano dos vários cursos ministrados no Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.

O Professor Avelino Meneses referia-se à "revolução pedagógica" que entrará definitivamente em vigor na Universidade dos Açores com a implementação geral, este ano, do processo de Bolonha. "Bolonha visa a criação de um espaço de ensino na União Europeia a partir de 2010. Esta revolução coloca o estudanteno centro do ensino", adiantou.
O Reitor avisou que este processo será "necessáriamente lento", ocorrendo num altura em que o ensino superior enfrenta "muitos desafios, sendo uma das soluções um maior entrosamento entre o mundo do ensino e o mundo do trabalho". Bolonha, defendeu Avelino Meneses, traz consigo a novidade de não apostar apenas no "saber", mas também no "saber fazer".
"O estudante de hoje deve sair daqui munido das ferramentas indispensáveis para a formação de uma carreira profissional", acrescentando que as características essenciais que o ensino superior deve transmitir assentam em bases científicas, tecnológicas, culturais, mas também de espírito crítico, iniciativa e inovação.
Na sessão da acolhimentos ao novos alunos (caloiros), Avelino Meneses adiantou, ainda, que a "cultura de exigência" para com a instituição de ensino superior deve partir dos próprios estudantes. "Os alunos devem exigir um ensino de qualidade, que passa pelo desempenho dos docentes, mas também pela existência de condições, quer em termos de infra-estruturas, como de material".
(In Diário Insular)

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