quarta-feira, setembro 23, 2009

Cientistas internacionais discutem sobre “O Erro de Darwin” na UAç


Cientistas de vários países do mundo estiveram reunidos na cidade de Ponta Delgada para tentar corrigir o ‘erro’ cometido pelo naturalista inglês Charles Darwin, quando considerou os Açores pouco interessantes em termos de evolução das espécies. ‘O Erro de Darwin e o que estamos a fazer para o corrigir’ é o tema desta reunião científica internacional, que vai decorrer nas instalações da Universidade dos Açores até à próxima terça-feira, avança a agência Lusa. Na origem deste encontro está o facto de Charles Darwin, quando passou pelos Açores em 1836, ter considerado que o arquipélago era pouco interessante para o seu estudo sobre a evolução das espécies. Para os investigadores açorianos, esse é um ‘erro’ que pretendem ver corrigido durante os trabalhos deste seminário, que conta com a presença de vários especialistas de renome mundial nesta área. “Queremos mostrar a investigação que se faz nos Açores e, já que Darwin não encontrou aqui o que andava à procura, nós vamos dar a ver (aos cientistas convidados) a evolução a acontecer aqui, no arquipélago”, afirmou Frias Martins, promotor da iniciativa, em declarações à Agência Lusa. Charles Darwin esteve na Terceira, entre 20 e 24 de Setembro de 1836, na viagem de regresso a Inglaterra, e, no seu relatório, escreveu não ter visto nada de relevante. “No fundo, ele não cometeu erro nenhum porque estava à procura de uma grande cratera e não a viu, mas, para quem lê isto, parece que nos Açores não há nada digno de ser registado”, salientou Frias Martins. Para o investigador do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, esta questão ainda incomoda mais porque existe nos Açores “o mesmo tipo de evolução” que Charles Darwin registou nas Galápagos. É esse ‘erro’ que se espera possa ser corrigido durante os trabalhos do encontro científico que começa sábado em Ponta Delgada, segundo os respectivos promotores. Charles Robert Darwin foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da selecção natural e sexual. Esta teoria desenvolveu-se no que é agora considerado o paradigma central para explicação de diversos fenómenos na biologia.

(in Diário dos Açores)

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Natureza revelada


Da Serra de Santa Bárbara ao caracol da Fonte da Telha, passando pelo Pico Matias Simão, são 13 os aspectos em destaque no CD multimédia “Ícones ambientais do concelho de Angra do Heroísmo”. Características naturais únicas ou de grande raridade, que o município quer salientar aos olhos de turistas e residentes. Não há terceirense que não conheça o Monte Brasil. Ponto de paragem obrigatória para quem visita a ilha, o espaço é procurado durante todo o ano pelos locais, quer para desfrute da vista sobre Angra do Heroísmo, quer pelo contacto com a natureza. Ainda assim, poucos são os que conhecem os fósseis do Monte Brasil. “Grandes orifícios, antes ocupados por troncos de árvores são bem visíveis nas cinzas vulcânicas das falésias do Fanal, em plena Angra do Heroísmo. Esses fósseis são relíquias do passado natural da Terceira, e um património que interessa preservar, porque conta a história de uma ilha em evolução, e porque neles é visível a violência deste ambiente, construído a partir do fundo do mar. Os fósseis do Monte Brasil são uma raridade a nível nacional mas também a nível internacional, não pela sua idade, mas pela juventude e génese”.Foi o Tenente-coronel José Agostinho, o primeiro a referir-se aos fósseis vulcânicos do Monte Brasil. Hoje, alguns fazem parte do espólio d’ “Os Montanheiros”. Esses fósseis têm particular importância por se referirem à flora de ilhas ainda não ocupadas por mamíferos. O estudo dos fósseis do Monte Brasil, anteriores à ocupação dos Açores pelos portugueses, permite perceber o real impacto do homem em ilhas virgens ou espaços ainda não intervencionados. Este é apenas um exemplo das riquezas naturais que Angra possui e que continuam desconhecidas para a maioria dos seus habitantes. Foi para captar a atenção de turistas e residentes para estes pormenores que escapam ao primeiro olhar que a Câmara Municipal de Angra lançou o CD multimédia “Ícones ambientais do concelho de Angra do Heroísmo”. Apresentado no passado dia 11, o CD reúne fotos, textos e vídeos sobre 13 aspectos do património natural do concelho, únicos ou muito raros. A par dos fósseis do Monte Brasil também o caracol da Fonte da Telha é realçado, uma espécie com 6 milímetros que é um endemismo da freguesia do Posto Santo. Outra espécie endémica em destaque é a aranha cavernícola do Algar do Carvão. Existente unicamente naquela zona, tem apenas 3 milímetros. As Furnas do Enxofre são uma raridade do ponto de vista biológico. É pela quantidade de plantas, briófitos, líquenes, algas e de alguma fauna adaptadas a condições específicas que se distingue a nível mundial. É também nas Furnas do Enxofre que encontramos a usnia krogiana, uma espécie de líquenes ou usneas, endémica dos Açores, rica em beleza natural e raridade.No Porto Judeu, a Gruta das Agulhas salienta-se pela sua importância biológica, dada a quantidade, variedade e qualidade de biofilmes decolónias de bactérias, que servem de investigação à Universidade dos Açores. Na mesma freguesia podemos encontrar os maiores ilhéus dos Açores. Os Ilhéus das Cabras apresentam uma fauna e flora marinha de interesse relevante não só para cientistas, mas também para mergulhadores recreativos e curiosos.Com uma grande quantidade de vegetação luxuriante, sobretudo endémica na Região, a Ribeira do Além é uma das ribeiras mais bonitas dos Açores. Situa-se na freguesia da Serreta. Mais acima, os Altares apresentam um cone vulcânico, de escórias soldadas, com características únicas no contexto da geodiversidade do planeta. O Pico Matias Simão assemelha-se apenas a formações vulcânicas existentes na Sicília, em Espanha e o arquipélago do Havai, no Oceano Pacífico. A serra de Santa Bárbara é um dos lugares com maior riqueza natural do país. A sua caldeira é o local com mais endemismos por unidade de terreno dos Açores e de Portugal. Na apresentação do CD multimédia, o professor catedrático António Firas Martins disse mesmo que se Darwin tivesse visitado a serra de Santa Bárbara, quando esteve na Terceira, não teria necessitado de ir às Galápagos para descobrir a teoria da evolução. É também na Serra de Santa Bárbara que se encontra a Lagoa Funda, uma das lagoas da ilha e dos Açores que não apresenta qualquer tipo de intervenção humana mantendo os seus habitats inalteráveis desde a formação das ilhas. O trevo de quatro folhas “marsilea azorica” é uma das plantas mais raras e ameaçadas do mundo. O feto endémico só existe no charco temporário da zona do Pico da Bagacina. Também o musgo “echinodium renauldii” é um dos mais raros da Europa. Fica na zona da Matéla, na freguesia da Terra Chã. O trabalho contou com a colaboração a título individual de vários professores da Universidade dos Açores. Francisco Cota Rodrigues, Eduardo Dias, Álamo Meneses, Félix Rodrigues, Maria de Lurdes Enes, Cecília Melo, João Pedro Barreiros, Rosalina Gabriel, Paulo Borges, Victor Hugo Forjaz e António Frias Martins deram testemunhos em vídeo sobre as diferentes espécies e locais salientados. A coordenação ficou a cargo de Félix Rodrigues, a nível de textos, e de Paulo Henrique Silva, que recolheu fotografias e vídeo. Rosalina Gabriel falou sobre o musgo neste trabalho. Para a professora da Universidade dos Açores, o trabalho serve para dar a conhecer o que existe de bonito no concelho. “Eu penso que qualquer pessoa que conhece as florestas naturais tem a certeza que elas seriam muito diferentes se não houvesse musgos. A biomassa que ali está é muito grande, eles estão em todo o lado, desde as rochas até aos troncos, até às folhinhas mais lá em cima, onde há menos quantidade de água. É importante que as pessoas comecem a olhar para eles. É bonito”, refere.Já Eduardo Dias, acredita que a divulgação destas espécies pode promover a sua protecção, mas pode também provocar o oposto. “É verdade que se não divulgarmos as pessoas não gostam, não apreciam e consequentemente não vão justificar a sua conservação, mas por outro lado o conhecimento leva a um maior interesse, que por vezes pode levar à destruição”, defende.Segundo o professor, os Açores começam já a dar os primeiros passos na conservação das espécies endémicas. “As medidas de conservação nos Açores são muito recentes e acho que ainda se está a fazer um percurso neste sentido. Estão a sair os parques de ilha e uma série de medidas de conservação básicas e estruturantes, que a Região não tinha. A gente tem de esperar que, de facto, este surto de interesse que a população e a comunidade estão a ter sobre a natureza dos Açores corresponda a uma devida proporção em termos da conservação, que no passado não era muito fundamentado, porque as pessoas desconheciam e não se interessavam e que agora começa a ser dramático, porque as duas coisas têm de andar a par e passo, divulgação/ promoção e conservação da natureza”, revela.

(in Diário Insular)

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terça-feira, setembro 22, 2009

Valor científico dos Açores está provado


Os estudos da biodiversidade dos Açores têm vindo a provar que as ilhas são um laboratório natural para estudar a evolução das espécies e a dinâmica e a ecologia dos espaços insulares. Em entrevista ao DI, Paulo Borges, que lidera estudos sobre a biodiversidade açoriana na Universidade dos Açores, fala sobre o momento actual da Ciência nas ilhas.
A comunidade científica açoriana quer demonstrar que Charles Darwin estava errado quando disse que nada havia de interesse na biodiversidade açoriana.
Sem dúvida. Nas últimas décadas, os resultados da investigação nos Açores, nomeadamente na área da biodiversidade – quer no Departamento de Biologia em São Miguel, quer no Departamento de Oceanografia e Pescas, no Faial, quer no Departamento de Ciências Agrárias, particularmente com o Grupo de Estudo da Biodiversidade dos Açores, na Terceira -, demonstram que existe uma riqueza enorme de formas de vida únicas no arquipélago. E estas têm uma grande importância no funcionamento dos ecossistemas dos Açores, como, por exemplo, ficou demonstrado com a crise da água na ilha Terceira, onde se mostrou que as florestas naturais e toda a sua estrutura é essencial para haver água de qualidade para os angrenses. Portanto, na recta final do século XX, todos esses estudos vieram demonstrar a importância dos Açores no ‘hotspot’ da biodiversidade que inclui a Madeira e as Canárias e os Açores.
Na sua opinião, porque o pai da Teoria da Evolução das Espécies não se interessou pelos Açores, quando por aqui passou?
Ao visitar as ilhas, Darwin não encontrou animais de grande porte. Portanto, ao não encontrar aves endémicas nem o morcego endémico, por exemplo, e ao não encontrar mamíferos endémicos, o naturalista – que esteve muito pouco tempo na Terceira – acabou por decretar o desinteresse científico da ilha. Obviamente, naquela altura, Darwin não teve nem a capacidade nem o tempo necessários para investigar os insectos, os caracóis e outras espécies, como aconteceu na sua passagem pelas Galápagos ou no Havai.
Com essa declaração, Darwin afastou os cientistas do arquipélago?
No início, acho que sim. Porque, nessa época, existiram estudos fantásticos na Madeira e nas Canárias, sobretudo realizados por investigadores ingleses e nórdicos. E não assistimos a esses estudos nos Açores. Na Região, a comunidade científica debruça-se sobre a biodiversidade das ilhas já no século XX, nomeadamente através de expedições de universidades estrangeiras e, mais tarde, pela Universidade dos Açores. E é com a universidade açoriana que ocorre um ‘boom’ de estudos e conhecimentos sobre o arquipélago. Por exemplo, só em caracóis nos Açores, cerca de 70 por cento são endémicos. E esse conhecimento é recente. Em artrópodes, só em 1990, é que começou a descobrir as 20 espécies endémicas das grutas. Portanto, os Açores andaram afastados da atenção da comunidade científica. Não totalmente, mas os estudos cá realizados foram residuais.
Por que a comunidade internacional não quis estudar o arquipélago, que é hoje reconhecido como um laboratório natural situado no meio do Atlântico?
Por um lado, os Açores não estiveram no centro das rotas aéreas entre a Europa e a América. Muitos investigadores passavam por Santa Maria – resultando daí o notável trabalho de Alberto Teixeira Pombo, que conseguiu desenvolver contactos interesses com os cientistas que por ali passavam – mas eram visitas pontuais. A Madeira, pelo contrário, estava na rota do turismo inglês; e as Canárias na rota do turismo do Norte da Europa. Além disso, as duas regiões beneficiaram da publicidade que Darwin lhes fez. Daí serem alvo de vários estudos. No fundo, as rotas passavam-nos ao lado. Por outro lado, algumas das descobertas que se realizaram, implicaram meios tecnológicos avançados, que há altura não existiam. Veja-se os estudos feitos no fundo marinho ou na copa das árvores dos Açores. Ou seja, os Açores acabam por mostrar o seu valor científico após ter sido possível realizar vários investimentos que resultaram num acumular de tecnologia e conhecimentos sobre a biodiversidade local.
O trabalho dos cientistas açorianos tem tido eco nas comemorações mundiais em curso sobre Charles Darwin?
Sim. Vários investigadores da Universidade dos Açores têm participado em vários eventos internacionais dedicados a Darwin. Um dos nossos alunos vai estar em Minorca. Outros, em Março, estiveram em Leipzig, a apresentar estudos sobre os Açores. Tivemos outros investigadores no México. E, de 19 a 23 de Setembro, o professor Frias Martins reúne investigadores locais com investigadores internacionais para demonstrar o valor dos Açores como laboratório de investigação na área da Biologia.
Diz-me que o ‘boom’ da investigação científica açoriana ocorre com a Universidade dos Açores. Neste momento, qual o ponto de situação no estudo da biodiversidade açoriana?
Os Açores, neste momento, em muitas áreas, estão no mesmo patamar de muitas outras áreas do planeta, nomeadamente Canárias, Norte da Europa, Madeira, Galápagos, Havai. Ou seja, em termos de estrutura e de cientistas, já atingimos um nível qualitativo idêntico a esses locais. Por exemplo, se consultar muita literatura científica recente, encontrará muitos trabalhos que comparam os Açores a outros arquipélagos. E noutros aspectos estamos na vanguarda. Por exemplo, o Portal da Biodiversidade dos Açores é, neste momento, único nos arquipélagos semelhantes. Apesar do projecto, conceptualmente, ter sido criado e desenvolvido nas Canárias, nós passamos da simples colocação de dados para a comunidade científica para a divulgação ao grande público. O sítio, neste momento, tem mais de duas mil visitas diárias, tem recursos enormes e recebe visitas de cientistas, de escolas, de cidadãos interessados. Além de cooperar com várias instituições governativas. Portanto, atingimos com este projecto uma dimensão educativa, científica, popular e de apoio governamental ao nível de gestão do Ambiente.
Portanto, toda a exposição conseguida com esse projecto é da responsabilidade da Universidade dos Açores, muitas vezes tida como uma instituição de segunda linha…
A Universidade dos Açores é responsável pelos conteúdos e pela investigação que os originam. Mas, não nos podemos esquecer, que sem o apoio incondicional de várias entidades governativas, não era possível a concretização quer deste projecto quer dos estudos científicos que vão sendo desenvolvidos. Por isso só, a academia não tem capacidade para realizar investigação. Sem o esforço único – que não é comparável ao que acontece na Madeira ou nas Canárias – que as entidades governativas regionais têm desenvolvido, não tínhamos chegado a este patamar.
Que leitura faz desses apoios?
Entendo-os como parte de uma estratégia concertada de promoção turística dos Açores como zonas sustentáveis da natureza. Têm vindo a ser aprovados os parques de ilha, por exemplo, que mais não são do que formas de promover as ilhas como belezas naturais, como zonas ‘wilderness’, em oposição ao turismo madeirense que não comporta a vertente de natureza selvagem, digamos assim.
Qual o grau de conhecimento nos Açores da sua biodiversidade?
Depende dos grupos taxionómicos. Por exemplo, ao nível das plantas, sabemos quase 90 por cento; os artrópodes, saberemos 60 a 70 por cento…
Qual a área menos conhecida?
Os insectos. Onde existem vários grupos mal estudados. Embora nos últimos cinco anos já se tenha aumentado o conhecimento que publicamos em livro em 2005.
É possível que se venham a conhecer espécies novas no arquipélago?
Sim. Ainda recentemente foram publicados artigos revelando dez novas espécies de aranhas e oito novas espécies de escaravelhos. Ao nível das plantas e dos musgos, há sempre descobertas a acontecerem. Tudo isto deriva do facto de existir uma equipa em trabalho contínuo, em investigação permanente. E, ao mesmo tempo que se descobrem novas espécies, descobrem-se também os factores que as põem em risco.
Qual a principal ameaça à biodiversidade açoriana?
Pelo que conhecemos, o perigo maior resulta das espécies invasoras. Felizmente, o Governo Regional tem um projecto em curso de combate às espécies invasoras (incenso, conteira, hortênsia, etc.) em zonas críticas.
O homem é ou será um perigo para a biodiversidade açoriana? Numa Região que pretende explorar o turismo de natureza…
Acho que não. Aliás, felizmente, o clima dos Açores está a protegê-lo de um turismo de massas. Parece-me que, nesse aspecto, a ilha que possa correr mais riscos é São Miguel…
As restantes não podem vir a sofrer com uma intensificação turística?
Não me parece, porque não me parece viável que essa intensificação ocorra. O tipo de turista que visita os Açores, se for bem coordenado, não representará qualquer perigo para a biodiversidade do arquipélago. Por exemplo, nas Galápagos, que têm um turismo mais agressivo, as autoridades locais conseguem minimizar essas presenças.
Dos estudos que tem realizado, têm sido feitas descobertas que, de certa forma, ponham em causa algumas das ideias que se têm sobre os Açores? Dou-lhe o exemplo da declaração de Eduardo Dias, professor da academia açoriana, que revela que o arquipélago vive uma segunda Primavera no Outono…
Sim. Há vários exemplos. Relativamente a esse que me dá, comprovamos que, ao nível dos musgos, existem dois picos de crescimento: na Primavera e entre Setembro e Outubro, no Outono. Há como que duas zonas de alegria e dinâmica das florestas derivadas do nosso clima. A nível dos artrópodes, há espécies – caso das moscas – que, no Outono, se desenvolvem também. Nas térmitas, o período de enxameamento vai de Maio a Outubro. Portanto, muitos dos estudos provam que as nossas condições ecológicas permitem novidades, nomeadamente ao nível da fisiologia dos indivíduos. Além disso, o facto de os Açores serem um arquipélago com diferentes idades de surgimento, é-nos possível propor novas teorias sobre a evolução e a colonização dos organismos dos Açores. Ou seja, estas ilhas, pelas suas características, são muito interessantes para estudar Evolução, Ecologia, Conservação da Natureza, Dinâmica das Espécies Invasoras, etc.
A comunidade científica internacional tem demonstrado interesse nessas matérias?
Sim. Muito. Recentemente, tivemos quatro projectos da Fundação da Ciência e Tecnologia aprovados com questões ligadas à problemática das ilhas, nomeadamente ecológicas e evolutivas. E foram projectos considerados pelo painel de avaliadores internacionais de grande importância.
Que mais-valias se retiram desses estudos, nomeadamente para o cidadão comum?
Estamos aqui a falar de investigação pura, que tem impacto sobretudo no avanço da Ciência internacional. Para o cidadão comum pode não haver impacto directo. Mas a Região, num primeiro momento, pode beneficiar do interesse de mais cientistas estrangeiros, que ao virem para os Açores significam rendimento, nomeadamente ao nível do turismo científico. Recentemente, por exemplo, tivemos cá cinco alunos da Universidade de Oxford a fazerem investigação. O que demonstra que o meio científico internacional vê potencial nestas ilhas, quando poderia centrar atenção noutras zonas do globo.
Percebo das suas palavras que a Universidade dos Açores se encontra incluída nas redes científicas internacionais, granjeando aí sucesso. Contudo, dentro de portas, a academia continua a não ser vista como um pólo de excelência. Porquê?
Falta as gerações suficientes de estudantes açorianos que, ao estudarem aqui, percebam e reflictam para o exterior essa importância. Esta academia tem 30 anos. E a dimensão científica e de investigação da Universidade dos Açores tem menos de 20 anos. Ou seja, ainda não houve tempo suficiente para a universidade ganhar, digamos assim, estatuto internamente e garantir à Região um conjunto vasto de quadros.
Como é possível, em pouco mais de dez anos, o conhecimento gerado na Universidade dos Açores ter aumentado tanto?
Há dez anos atrás, o número de doutorados nesta universidade era diminuto. Eu e os meus colegas, entramos aqui na década de 80/90 e fomos tirar os nossos doutoramentos no estrangeiro, ligando-nos a equipas internacionais de vanguarda. E aí, começamos a colocar os Açores no mapa da comunidade científica. Depois, é o efeito da bola de neve. A capacidade científica que leva tempo a formar, no caso dos Açores, encontra-se no auge neste momento, porque esses doutorados estão na melhor fase da sua produção. Daí este crescimento.
A Universidade dos Açores, na sua opinião, tem condições para produzir fornadas de doutorados que mantenham este ritmo na investigação local?
Acho que sim. No meu grupo, temos cinco alunos de doutoramento. Outros grupos têm também alunos desse nível. E esses alunos vão trabalhar na Região ou fora dela, potenciando a nossa investigação. Reconheço que para a população em geral, estas coisas não são visíveis, até porque, se calhar, a economia açoriana é muito baseada na agro-pecuária e a investigação de ponta da Universidade dos Açores não é muito nessa área, mas sim nos fundos submarinos, na climatologia ou na biotecnologia, assim como na biodiversidade, vocacionada para o eco-turismo e o turismo científico. Ou seja, enquanto a população em geral luta nos sectores económicos tradicionais, a Universidade dos Açores trabalha a nível da investigação científica pura e dura, que terá impacto na Região em outras vertentes.
A produção científica da Universidade dos Açores poderá alavancar outro patamar económico regional, centrado, por exemplo, no conhecimento?
Acho que não será possível sustentar um sector com grande impacto, por exemplo, ao nível do PIB. Mas será possível potenciar um impacto indirecto, nomeadamente ao nível da visibilidade dos Açores no exterior, que poderá atrair investigadores e turistas científicos. Agora, tenho dúvidas que isso signifique um pilar económico como, por exemplo, a Agricultura.
Na sua opinião, qual é o próximo passo que a Universidade dos Açores deve dar em termos de investigação?
Acho que agora é altura de dar tempo para que a Universidade dos Açores possa alcançar um patamar idêntico ao de outras academias nacionais, europeias e internacionais. Parece-me que esse é o caminho. A não ser que se decida investir fortemente na criação de centros de excelência, capazes de atrair investigadores de renome…
Acha que os Açores têm condições para consolidar esses centros de excelência?
Por que não? Recentemente foi criado, no DOP, um centro de observação do mar, que é um espaço de excelência. É um exemplo de que houve um interesse político imediato e que resultou num investimento nesse sentido. Há outras áreas onde isso pode acontecer. Por exemplo, na Terceira, podemos conseguir um grupo de excelência ao nível mundial para o estudo da ecologia e biodiversidade das ilhas. Estamos a trabalhar nesse sentido. Se conseguirmos continuar a cativar os orçamentos necessários, poderemos alcançar esse objectivo dentro de alguns anos. No entanto, reconheço que a nossa área de actividade não terá impactos económicos como, por exemplo, o centro de observação e investigação do mar, criado no DOP.
Mas podem produzir conhecimento fundamental, por exemplo, para a gestão do território?
Claro. Temos vindo a produzir investigação que auxilia os decisores. Lideramos o combate às térmitas, orientamos um mestrado de Educação Ambiental e promovemos o Portal da Biodiversidade. Ou seja, participamos em projectos que, no fundo, contribuem para a Região em termos concretos. Penso, assim, que estamos no caminho certo para demonstrar que os Açores têm valor como laboratório natural, algo que Darwin não reconheceu.
Os açorianos estão despertos e sensíveis à biodiversidade que os rodeia?
Os mais novos, sim. Os mais velhos, ainda continuam agarrados a alguns mitos ou ideias antigas. Aliás, prova disso, é a Região continuar a ostentar como símbolo uma planta invasora, a hortênsia. Quando temos a azorina, uma planta lindíssima e que é endémica. Mas, aos poucos, os açorianos vão despertando para estas temáticas. E, nesse aspecto, as escolas têm vindo a desenvolver um excelente trabalho na divulgação e promoção da biodiversidade insular.
Em termos de investigação científica, daqui a uma década, em que patamar deve estar a Universidade dos Açores?
Gostaria que, daqui a dez anos, tivéssemos capacidade para, por exemplo, publicar artigos científicos em revistas de grande dimensão, caso da Nature ou da Science. Neste momento, publicamos em revistas que não têm a dimensão de exposição destas.
Por que ainda não chegaram a esse patamar?
Já enviamos trabalhos para essas revistas, mas eles não passaram nas comissões de análise. Publicar nessas revistas implica ter uma experiência e um conjunto de dados acumulados de muitos anos para se descobrir detalhes e pormenores científicos únicos e inovadores em determinadas áreas. A nossa investigação ainda não atingiu essa dimensão temporal.

(in Diário Insular)

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