Salvar os cagarros… e as estrelas
Por esta altura do ano decorrem nos Açores diversas campanhas e actividades organizadas de salvamento de cagarros. Estas são sem dúvida actividades meritórias, mas não deveríamos também intervir na causa do problema? É sabido que a principal causa da desorientação destas aves é a poluição luminosa. Esta poluição resulta principalmente de iluminação pública e particular mal direccionadas. A iluminação deverá iluminar apenas as áreas pretendidas, em vez de o fazer para os lados ou, pior ainda, para cima. Esta incorrecta iluminação deve-se à má concepção ou orientação de candeeiros e projectores que emitem luz muito para além da zona pretendida, sem qualquer efeito útil.
Há várias consequências nefastas deste tipo de poluição. A mais imediata é levar a um desperdício de energia e de dinheiro, de cerca de 40%, que sai do bolso de todos os contribuintes. Depois, afecta vários animais por todo o mundo como diversos anfíbios, mamíferos (inclusive o próprio Homem), répteis, insectos, e aves.
Uma outra consequência da má orientação da iluminação é impedir-nos de ver o céu. Quem não fica maravilhado ao ver um céu com milhares de estrelas e a nossa Via Láctea? Gradualmente, ao longo das últimas décadas, perdemos o hábito de olhar o céu. E a razão principal é a poluição luminosa que nos deixa ver cada vez menos estrelas. Este é um problema que preocupa os astrónomos profissionais e amadores mas que nos afecta a todos.
Algumas localidades com uma maior consciência do problema já tomaram medidas, como é o caso da cidade de Calgary, no Canadá, que ao substituir o seu sistema de iluminação pública consegue economizar mais de um milhão de euros por ano. Medidas que levam à preservação do céu nocturno são também um grande emblema turístico havendo alguns parques, reservas e comunidades distinguidas e alvo de reconhecimento internacional por este cuidado.
Nos Açores é importante que os diferentes órgãos de decisão estejam conscientes deste problema. Igualmente necessário é que os arquitectos e designers tenham presentes estas questões no momento de conceber ou escolher os sistemas de iluminação. Em particular, é urgente repensar a iluminação pública e privada nas proximidades do Observatório Astronómico da Ribeira Grande para que este possa funcionar para o objectivo com que foi construído durante muitos anos. Alterar os sistemas de iluminação pública nas proximidades dos locais mais importantes de nidificação de cagarros seria uma importante experiência piloto que deveria ser realizada sem necessidade de grandes recursos financeiros.
Os Açores têm apostado no turismo e desenvolvimento sustentável, com importantes investimentos na protecção de ambientes marinhos e terrestres. É fundamental estender esta protecção ao céu nocturno, que é um património da Humanidade a preservar. Daqui, sairiam benefícios sociais, económicos, turísticos e culturais. Em cada nova rua, praça ou porto construída ou remodelada dever-se-á ter em atenção não apenas a componente estética mas também o de minorar os impactos da poluição luminosa. Os que se fascinam com a maravilha que é contemplar um céu estrelado, ou ouvir um cagarro agradecem. É de imaginar que os cagarros também agradeçam.
Cagarros (foto de Paulo Henrique Silva)
Exemplo de iluminação fonte de poluição luminosa e de desperdício de energia nos Açores.
Reserva internacional do céu estrelado do parque nacional de Mont-Mégantic, Québec, Canadá.Etiquetas: Ano Internacional da Astronomia, Cagarro, Miguel Ferreira

Filipe Borges, fundador do grupo “O Contador de Histórias”, estará presente na feira entre 05 e 09 de Novembro, das 10 às 14H00, recebendo os visitantes mais jovens com actividades de animação de leitura. No dia 05 do próximo mês, pelas 10H00, apresentará o livro infantil “O menino do não-quero no país das birras gerais”, de São Melo.
O livro pretende ser um material lúdico que simultaneamente sensibilize para a preservação de uma espécie cuja maioria da população mundial nidifica no arquipélago dos Açores. Bernardo Carvalho foi o ilustrador convidado, tendo em conta a sua enorme experiência em produção de material didáctico. De facto, os cagarros (também conhecidos como cagarras ou pardelas) são aves marinhas, bem conhecidas dos açorianos pelo seu canto característico de difícil definição: um gato a miar, um bebé a chorar, um sapo a coaxar são algumas das comparações que se procuram para um tipo de vocalização única e incomparável. Na história infantil idealizada por Carla Goulart Silva e Filipe Lopes, o personagem principal é uma cria de cagarro, o Zeca. Este vai ser confrontado com algumas das dificuldades que surgem aos juvenis da espécie: os progenitores voam para os mares do sul deixando os jovens cagarros até que estes tenham capacidades físicas de iniciar a viagem. Em terra, procurando orientar-se pelas estrelas, os cagarros são atraídos pela luz artificial, fazendo com que alguns sejam atropelados nas estradas, enquanto procuram o mar e o início da migração. O conto procura alertar para estes problemas e para como é possível, até para os mais pequenos, fazer algo para a sua preservação. Nas entrelinhas da história ficam também alguns valores que devem estar presentes na vida das famílias (humanas ou não): o amor, a compreensão, a tolerância, a solidariedade. A abordagem escolhida permite também fazer um paralelismo com um fenómeno bem conhecido dos açorianos: a emigração e o retorno à terra natal. Destinado a crianças entre os 3 e os 12 anos, “A História do Zeca Garro” será lançado no mês de Setembro, acompanhando o início das campanhas de informação que se estendem até ao final de Novembro, período em que se desenrolam as migrações a partir dos Açores. A obra inclui algumas sugestões de trabalho para os pais e educadores que queiram potenciar o conteúdo do livro.
Realizar-se-ão também algumas oficinas formativas em diversas ilhas. Os Montanheiros é uma Organização Não Governamental de Ambiente, presente nas ilhas Terceira, Pico e S. Jorge. Inicia uma colaboração a nível editorial com "O Contador de Histórias" a partir da colecção “Histórias em Erupção”, que pretende abordar temas relacionados com a protecção ambiental, de forma descontraída, para os mais novos. Para os autores é a primeira experiência em livro. Filipe Lopes é editor e está habituado a contar histórias dos outros. Carla G. Silva também trabalha regularmente com crianças tendo surgido da sua experiência a necessidade de criar uma forma alternativa de tratar o tema com os mais pequenos, que são, afinal, aqueles que muitas vezes podem ajudar a mudar as atitudes.