sábado, outubro 18, 2008

Algar do Carvão: Um Algar Classificado

A espeleologia açoriana não se pode dissociar do Algar do Carvão. A história de "Os Montanheiros" desenvolveu-se a par das iniciativas empreendidas nessa cavidade. A única gruta classificada no Arquipélago dos Açores, que aguarda a protecção das suas congéneres.
A vulcano-espeleologia surgiu, no arquipélago dos Açores, em finais do século passado e encontra-se profundamente ligada ao Algar do Carvão. Situado na ilha Terceira, este algar começou a ser explorado a 26 de Janeiro de 1893. A prospecção foi empreendida, entre outros, por Cândido Corvelo e José Luís Sequeira. Em 1934, Didier Couto efectuou a segunda descida e elaborou o primeiro esboço (perfil) da cavidade. A primeira topografia do Algar do Carvão é da autoria de Montserrat e Romero (1983). O algar foi descido pela Sociedade de Exploração Espeleológica "Os Montanheiros" em Agosto de 1963 (ano da sua fundação).

Américo de Lemos Silveira, fundador de "Os Montanheiros", dirigiu as operações, que envolveram numerosos participantes. As obras de abertura de um túnel de acesso à gruta processaram-se de 28 de Maio de 1965 a 28 de Novembro de 1966. A entrada e a primeira escadaria no interior da cavidade foram edificadas em 1968. Nesse mesmo ano, a 1 de Dezembro, verificou-se a abertura ao público. Na década de 70 foi instalada luz eléctrica (1970), construída a actual escadaria (1977) e a casa-abrigo (1978). Os anos 80 viram o reconhecimento do valor da cavidade, com a sua classificação (1987) e a inauguração da nova instalação eléctrica (1988).
O Algar do Carvão foi classificado como Reserva Natural Geológica pelo Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A. Dentro da área da reserva, definida pela linha que dista 100 metros da base dos cones que suportam o algar, são proibidas, sob pena de multa, quaisquer alterações no terreno, fauna ou vegetação.

Um geomonumento
O Algar do Carvão situa-se no interior da Ilha Terceira, perto do pico do mesmo nome (639 m), na Caldeira de Guilherme Moniz, a cerca de 1300 metros do Tentadero de Sto. Antão e a 14 quilómetros de Angra do Heroísmo. A melhor forma de chegar a essa “jóia da espeleologia açoriana” é através do ramal da ER5-2ª. Existe uma placa na estrada indicando a localização da cavidade.
O Algar do Carvão está associado ao Complexo Vulcânico do Pico Alto, correspondendo a uma chaminé vulcânica e desenvolvendo-se sob dois cones de escórias (bagacina). Estes cones de piróclastos assentam sobre rochas compactas, de natureza andesítica a traquítica, ricas em sílica. O algar é constituído por um troço subvertical de 45 metros de altura e dá acesso a três salas de dimensões consideráveis. Na zona mais interior, a cerca de 90 metros de profundidade, encontra-se um pequeno lago, alimentado pelas águas de infiltração.
Segundo "Os Montanheiros", as águas de precipitação que se infiltram facilmente através das escórias não consolidadas do cone vulcânico, ao penetrarem nas rochas compactas e muito fissuradas, de composição andesítica a traquítica, adquirem uma progressão mais lenta favorecendo a dissolução de sílica. Deste modo, depositaram-se, ao longo das fracturas, diversas estalactites de sílica. De facto, o tecto e as paredes da abóbada central estão decoradas por inúmeras estalactites, algumas de grandes dimensões, e no chão desenvolvem-se estalagmites maciças e dispersas que não apresentam grande altura. As paredes da sala mais interior estão recobertas de estalactites de lava e obsidiana (ou vidro vulcânico). Esta rocha que se caracteriza por arrefecimento rápido da lava é extremamente rara no interior das grutas. Devido à entrada de luz natural, as paredes da chaminé, encontram-se revestidas por povoamentos vegetais, surgindo desde espécies arbóreo-arbustivas, a fetos, musgos, líquenes e algas, nas zonas mais profundas.
Rosalina Gabriel, do Departamento da Ciências Agrárias do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, efectuou da distribuição das comunidades vegetais do Algar do Carvão. O facto de não haver zona afótica nesta cavidade faz com que em toda a sua área surja flora mais ou menos desenvolvida. No primeiro troço da chaminé, as comunidades correspondem a uma extensão da vegetação potencial, a floresta húmida macaronésica. Ai dominam as espécies arborescentes como o Azevinho (Ilex perado), a Urze (Erica azorica) e o Loureiro (Laurus azorica). Segue-se outra zona onde os povoamentos se assemelham aos estratos herbáceos da floresta húmida açoriana. Nessa zona destacam-se as pteridófitas e, abaixo, ocorrem extensos povoados de briófitas. Na base do algar predominam as algas verdes. Saliente-se que o algar apresenta também fauna cavernícola. O Algar do Carvão encontra-se aberto ao público. Para o visitar basta contactar Os Montanheiros. Uma forma de descobrir as belezas encerradas nas grutas vulcânicas e aperceber-se da importância da sua conservação.
(In SPELAION)

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quinta-feira, junho 19, 2008

Gap dynamics and regeneration strategies in Juniperus-Laurus forests of the Azores Islands

Rui Bento Elias & Eduardo Dias

We asked the following questions regarding gap dynamics and regeneration strategies in Juniperus-Laurus forests: How important are gaps for the maintenance of tree diversity? What are the regeneration strategies of the tree species? Thirty canopy openings were randomly selected in the forest and in each the expanded gap area was delimited. Inside expanded gaps the distinction was made between gap and transition zone. In the 30 expanded gaps a plot, enclosing the gap and transition zone, was placed. In order to evaluate the differences in regeneration and size structure of tree species between forest and expanded gaps, 30 control plots were also delimited in the forest, near each expanded gap. In the 60 plots the number of seedlings, saplings, basal sprouts and adults of tree species were registered. Canopy height and width of adult individuals were also measured. The areas of the 30 gaps and expanded gaps were measured and the gap-maker identified. Juniperus-Laurus forests have a gap dynamic associated with small scale disturbances that cause the death, on average, of two trees, mainly of Juniperus brevifolia. Gap and expanded gap average dimensions are 8 and 25 m2, respectively.
Gaps are of major importance for the maintenance of tree diversity since they are fundamental for the regeneration of all species, with the exception of Ilex azorica. Three types of regeneration behaviour and five regeneration strategies were identified: (1) Juniperus brevifolia and Erica azorica are pioneer species that regenerate in gaps from seedlings recruited after gap formation. However, Juniperus brevifolia is a pioneer persistent species capable of maintaining it self in the forest due to a high longevity and biomass; (2) Laurus azorica and Frangula azorica are primary
species that regenerate in gaps from seedlings or saplings recruited before gap formation but Laurus azorica is able to maintain it self in the forest through asexual regeneration thus being considered a primary persistent species; (3) Ilex azorica is a mature species that regenerates in the forest.

(In Plant Ecology)

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domingo, abril 20, 2008

Pedreira destroi espécies protegidas

Cinco camiões carregados de pedra cruzam-se com o grupo de cerca de uma dezena de pessoas, nos poucos minutos que demoram a percorrer a pé o trajecto entre os automóveis e uma alegada pedreira ilegal, na zona dos Biscoitos. Ao longo do caminho de terra batida, é visível a destruição de diversas espécies endémicas protegidas, atropeladas pelas viaturas pesadas que todos os dias fazem aquele percurso. Mas a imagem pior escondia-se mais à frente. A visita de estudo, na qual participam pessoas ligadas à área do ambiente, representantes de associações ambientalistas e o BE/Açores, foi organizada por Adalberto Couto, licenciado em Gestão e Conservação da Natureza, e Mestrando também em Gestão e Conservação da Natureza do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, para denunciar uma situação que o “entristece”: a alegada extracção ilegal de inertes pelo Consórcio Mota-Engil, Zagope e Marques, SA, responsável pela obra da via-rápida Vitorino Nemésio. “Trata-se de uma extracção ilegal, sem qualquer licença e, como tal, sem qualquer estudo de impacto ambiental positivo ou negativo”, afirma, sublinhando que, sendo assim, “as pessoas fazem o que lhes apetece, sem a preocupação com a recuperação paisagística e com os cuidados a ter com o ambiente”. “É uma exploração selvagem”, acrescenta, tendo como ruído de fundo o roncar do motor de três camiões e de dois caterpillars, que escavam incessantemente a paisagem de pedra emoldurada pelo verde de diversas espécies protegidas. A Erica scoparia ssp. azorica (Urse), a Laurus azorica (Louro da Terra), a Juniperus brevifolia (Cedro do Mato) e a Myrsine retusa (Tamujo) são algumas das plantas endémicas alegadamente em perigo. “Existem aqui algumas espécies endémicas com estatuto de protecção, algumas nativas, e nada disso está a ser tido em conta”, refere. Depois de alertar diversas entidades com competência na matéria e de fazer uma queixa na GNR, sem qualquer sucesso, Adalberto Couto decidiu denunciar publicamente a situação. “Fui alertando algumas pessoas que poderiam ter alguma influência no sentido de parar a obra, fiz uma denúncia na GNR, pedi que me acompanhassem, mostrei o local, mas nada se passou e, como podem ver, as máquinas continuam a trabalhar a um ritmo deveras preocupante”, conta. “Não queria que as coisas tomassem estas proporções, mas visto que a obra continua decidi alertar os órgãos de comunicação social”, continua. Para além desta visita de estudo, Adalberto Couto decidiu promover também um abaixo-assinado dirigido a diversas entidades ligadas à área ambiental, exigindo a suspensão imediata da alegada extracção ilegal de inertes. “Estamos a recolher algumas assinaturas, para demonstrar a nossa preocupação e fazer avançar o processo de paragem das máquinas”, adianta. Sem esconder a tristeza no olhar perante o cenário de destruição à sua volta, Adalberto Couto admite, no entanto, não saber o que fazer mais para parar aquilo que considera ser um “crime ambiental”. “A partir daqui só se convocar uma manifestação e bloquear a entrada e saída dos camiões”, diz, com um visível sentimento de impotência. Contactado por DI, António Cardoso, responsável pela obra da via-rápida, preferiu não prestar declarações sobre esta matéria.

O que diz a lei

A extracção de inertes na zona dos Biscoitos pelo Consórcio Mota-Engil, Zagope e Marques, SA, responsável pela obra da via-rápida Vitorino Nemésio, viola, segundo Adalberto Couto, “todas as leis possíveis no que se refere à exploração de pedreiras”, nomeadamente o Decreto Lei n.º 270/2001, de 6 de Outubro. Adalberto Couto acrescenta, por outro lado, que “de acordo com uma leitura conjugada da alínea 1, do artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 316/89, de 22 de Setembro, alterado pelo Decreto-Lei n.º 196/90, de 18 de Junho, que procedeu à publicação da Convenção de Berna, e do disposto nos avisos n.º 74/92, de 7 de Março, e no Aviso n.º 205/95, de 8 de Agosto, são proibidas a colheita, apanha, corte ou arranque intencionais de espécies protegidas, assim como a deterioração intencional dos respectivos habitats”.

Gê-Questa apresenta queixa ao Provedor de Justiça

A Gê-Questa vai avançar com uma queixa ao Provedor de Justiça sobre a alegada extracção ilegal de inertes na zona dos Biscoitos pelo Consórcio Mota-Engil, Zagope e Marques, SA, responsável pela obra da via-rápida Vitorino Nemésio, garantiu quinta-feira o presidente da associação ambientalista terceirense. Durante uma visita de estudo ao local, Vasco Silva, doutorando do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e Presidente da Gê-Questa, adiantou que a associação vai também alertar a secretaria regional do Ambiente e do Mar e a Câmara Municipal da Praia da Vitória para o assunto.“Esperamos que esta situação melhore, nem que seja através da sua legalização”, afirmou o responsável, defendendo que “já que estão a extrair pelo menos tomem a iniciativa de fazer depois um plano de restauro ambiental desta área, para não ficar como muitas outras da nossa ilha e do arquipélago, que se encontram completamente ao abandono, com o chão nu, o que é propício à invasão de infestantes e outras situações problemáticas”.No entender do presidente da Gê-Questa, “há claramente questões ilegais aqui, o que não acontece por falta de conhecimento das autoridades”.“Sendo uma extracção de bagacina, tem de ter um plano de pedreira, que não tem, um plano de restauro ambiental, que não tem, e um estudo de impacto ambiental, que não tem, para além de não estar a cumprir questões de segurança laboral”, enumera.“Temos conhecimento de casos em que pequenos agricultores extraem pequenas quantidades nos seus terrenos e são penalizados fortemente por isso, o que achamos bem, mas depois grandes construtoras, por qualquer razão que não percebemos muito bem, fazem-no à vista de toda a gente e não são penalizadas”, acrescenta.Vasco Silva salienta que “ a lei é feita por alguma razão, é para todos e tem de ser cumprida”.


(In Diário Insular)

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quinta-feira, novembro 29, 2007

Florestas dos Açores

Aquando do povoamento dos Açores, 50% da Região era formada por florestas naturais. Destes 50%, apenas resta, na actualidade, 1%. As grandes responsáveis por este declíneo, admitiu Eduardo Dias, foram as árvores exóticas implantadas no arquipélago nos séc. XVIII, XIX e XX. "Pelas nossas contas, a floresta natural dos Açores na sua vertente mais selvagem e mais bem conservada compõe-se de apenas 1% do que existiu, o que constitui uma situação desesperante e periclitante para a remanescente", afirmou o professor do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, Eduardo Dias, no dia da floresta autóctone, que se assinalou a 27 de Novembro.
As grandes responsáveis pelo declínio, foram as árvores exóticas como, por exemplo, o incenso, ou faia do norte, o que é "extremamente agressivo nas áreas naturais, pois vai ganhando espaço, vai-se expandindo e destruindo as espécies que lá estão" - a laurissilva, entre outras. Outro é o caso da criptoméria, igualmente introduzida nos Açores, mas que constitui uma destruição consciente da floresta natural, assente na substituição, por plantação, das espécies existentes. "As exóticas têm um peso muito grande e a luta tem de ser estrategicamente definida". O docente afirmou não terem tido resultado, até agora, as tentativas de controlo das referidas espécies. Contudo, a alternativa apontada por Eduardo Dias, que trabalha há 20 anos em investigações relacionadas com a floresta natural dos Açores, sendo também coordenador do Gabinete de Ecologia Vegetal e Aplicada - GEVA -, é "eliminar, nas zonas virgens, os pés de incenso", ou seja, agir nos centros onde ainda há esperança de salvação para as florestas naturais. Deste modo, haverá uma maior eficácia na remoção dos incensos. Para além disso, o professor sublinhou que "há uma concepção errada sobre o que é a floresta natural dos Açores", facto que leva a que as pessoas aceitem facilmente a destruição da floresta autóctone - por desconhecimento. Assim, "é essencial que seja promovido, na Região, um processo educativo sobre a constituição da floresta natural". O docente, que ao longo dos anos tem desenvolvido trabalhos científicos centrados na biogeografia, ecologia e classificação da vegetação dos Açores, bem como na dinâmica dos sistemas insulares e conservação do património natural, foi o responsável pela equipa que desenvolveu as bases científicas e desenho da proposta técnica para os SIC´s terrestres da rede Natura 2000 dos Açores e pelos projectos "Life", pelos quais foi co-vencedor do prémio Henry Ford, em 1999.

(In Diários dos Açores)

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