A sorte de varas

A reintrodução da sorte de varas nos Açores tem efeitos privados, que interferem apenas com os que oferecem e procuram o espectáculo, e tem porventura efeitos públicos pois caso contrário não havia grande necessidade de intervenção e debate público.Os que são a favor argumentam que as varas são o primeiro instrumento da lide de gado bravo no campo, não só para a sua selecção mas também para o seu maneio; referem que a transposição dessa lide para os espectáculos de Praça é consistente com todas as outras formas de arte que tentam sublimar aquilo que é a vida quotidiana dos povos; continuam justificando que a sorte de varas melhora a qualidade artística do toureio apeado; e terminam dizendo que a tauromaquia tem um papel fundamental na educação das pessoas não só porque as interliga com o campo mas também porque lhes estimula virtudes de coragem, amizade e frontalidade.É natural que quem não tenha ligação à lide de gado bravo no campo veja as corridas de touros como um espectáculo bárbaro semelhante ao de um circo. Pode também acontecer que certos idealismos possam querer sonhar e querer impor um mundo onde a ligação com o campo e com o meio ambiente é feito de forma asséptica ficando todos os processos de vida e de morte abstraídos num qualquer modelo científico. Não é também improvável que alguns espectadores disfuncionais prefiram ver mais o sofrimento do animal do que entenderem a vida do touro. É finalmente possível existir um ou outro estrangeirado que em vez de perceber a diversidade e riqueza das tauromaquias opte por uma visão redutora da relação do homem com o campo, advogando a superioridade do toureio apeado.Seja como for julgo que, embora não seja possível perceber e respeitar a tauromaquia sem entender a relação do homem com o campo, não creio que seja aceitável que quem não percebe e respeite essa actividade possa negar aos outros aquela ligação nas suas diversidades de espectáculo. Em suma, mesmo os que estão contra devem ponderar se têm o direito de negar aos outros uma actividade que não percebem e, porventura, não respeitam.
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