ESPÉCIE INÉDITA NOS AÇORES Gorgulho do Eucalipto encontrado na ilha Terceira
Depois da descoberta recente de uma nova espécie de térmita subterrânea na ilha Terceira, surge outra revelação no estudo da biodiversidade dos Açores. Trata-se do Gorgulho do Eucalipto, de designação científica Gonipterus scutellatus Gyllenhal, 1834, uma espécie que desfolha essas árvores afectando o seu natural crescimento e a sua produção.
Em declarações ao nosso jornal, o responsável pela equipa de investigadores do Centro de Investigação e Tecnologias Agrárias dos Açores (CITA-A), da Universidade dos Açores (UAç), revela que o insecto tem se expandido por várias regiões do mundo, como África do Sul, Argentina, Itália, Califórnia, e que foi assinalado para as Canárias há 10 anos pelo entomólogo Antonio Machado Carrillo.
Paulo Borges revela ainda que nos Açores foi encontrado em Setembro deste ano na ilha Terceira na zona da Caldeira do Guilherme Moniz em Urze (Erica azorica). Mas, até ao momento, garante não haver motivos para alarmismos, apesar de o Gorgulho do Eucalipto já ter sido também encontrado em quintas particulares localizadas nas Bicas, freguesia de São Pedro, concelho de Angra do Heroísmo.
“Até agora não se registam queixas de floricultores ou particulares, o que pode indicar que os indivíduos não se alastraram”, diz o docente universitário, acrescentando que só dez por cento das espécies de insectos existentes “é que se tornam invasoras quando chegam a um novo local”.
Ao todo, refere, existem na Região cerca de 2400 espécies de insectos, das quais 1000 são exóticas. Contudo, não sendo o Gorgulho do Eucalipto considerado “perigoso” no arquipélago, ao contrário de outros lugares do globo, o especialista recorre ao exemplo da praga das térmitas, actualmente em estudo e análise para controlo da propagação nas nossas ilhas, no sentido de alertar as entidades e a comunidade em geral.
“As térmitas passaram a ser um problema”, recorda o responsável pelo CITA-A, defendendo, por isso, a necessidade de haver um maior controlo na entrada de produtos agrícolas e florestais nos Açores. “Este é um exemplo, aliás, das contrapartidas do livre-trânsito”, sublinha.
Em tom de conclusão, segundo Paulo Borges, “não se conhece ainda o seu potencial impacto nas plantas nativas dos Açores”, sendo que no que concerne ao continente português a eventual propagação da espécie, onde diz desconhecer a existência desse insecto, “não é menos preocupante”, tendo em conta haver muitas áreas de plantação de Eucaliptos.
Estudo nas Canárias
Entretanto, de acordo com um artigo de Antonio Machado Carrillo, publicado no “Diário de Avisos”, de Tenerife, em Julho de 1999, intitulado “O Gorgulho do Eucalipto nas Canárias”, pode-se ler que os Eucaliptos são árvores oriundas da Austrália que foram introduzidas em diversas regiões do mundo com propósitos industriais. O mesmo ocorreu nas Canárias, ainda que o cultivo florestal destas espécies exóticas sejam pouco extensas, pois naquele arquipélago espanhol não existe indústria de pasta de papel.
O entomólogo descreve no mesmo documento que até 1999 não se conhecia nas Canárias “nenhum bicho que metia os dentes nos eucaliptos”. Por isso reparou com atenção nas folhas tenras de várias árvores totalmente “comidas e perfuradas”. Um exame detalhado, conta, revelou a presença de “umas larvas – como pequenas babosas – de cor verde-esmeralda, cheia de pontos negros”.
Quantos aos adultos, continua, têm um tronco robusto da família dos gorgulhos, de cor castanho-avermelhado, que mede menos de um centímetro.
(In Sónia Bettencourt sonia@auniao.com, em A União)
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