sexta-feira, janeiro 30, 2009

Carta aberta a Gonçalo Pereira Director da National Geographic Portugal

João Pedro Barreiros
Caro Gonçalo Pereira Rosa,
Antes de mais deixe-me dizer-lhe que foi com muito agrado que li a carta, hoje publicada no Diário Insular, e que teve a amabilidade de me dirigir.
Permita-me então tentar esclarecê-lo, ponto por ponto, pois, infelizmente para si, voltou a demonstrar, publicamente, que está mal informado – algo no mínimo inconveniente para um jornalista – voltando a demonstrar ignorância. Note-se que ignorância nem sequer implica um insulto mas sim a mera constatação de que alguém, por uma ou múltiplas razões, desconhece algo – afinal, todos somos ignorantes sobre alguma coisa ou sobre uma miríade de assuntos – embora o problema, aqui, resida no facto de o Sr. Gonçalo Pereira ser Jornalista e Director de uma importante revista e, portanto, se não sabe do que fala pode, e deve, tentar sempre instruir-se antes de desencadear tempestades porque não fez o trabalho de casa.

Na entrevista que deu início a toda esta troca de “mimos” afirmou falsidades sobre a Universidade dos Açores sem antes se ter informado e agora tece considerações sobre a minha pessoa repetindo o mesmo erro, ou seja: não procurou informar-se sobre mim, algo de minimamente básico quando se pretende atingir alguém.
Por exemplo: quando diz “chegar à minha idade”, talvez insinuando que sou bastante mais velho que o Senhor desconhece, talvez, que tenho 44 anos. Eu não faço a mínima ideia de qual é a sua idade, mas imagino que deva rondar os 35.
Quando escreve “Conhecendo o seu currículo” é óbvio que não o conhece minimamente. No entanto, pode consultá-lo através da minha chave pública de investigador (J004514L551) na página da FCT, pois é demasiado volumoso para o desenvolver neste breve texto. No entanto, faço questão de lho enviar por e-mail e assim, caso o leia, deixará de ser ignorante, também, neste assunto.
Quando escreve que “destilo ódio por tão pouco” confunde ódio com ironia pois, para que pudesse destilar esse tal ódio, era preciso que o conhecesse, que sentisse algo por si, ou até que tenha sido seu amigo e, por alguma razão, tivesse deixado de o ser.
A minha “incontinência verbal”, como refere, é resultado de um estilo de escrita que sempre usei e do qual gosto particularmente pois o que escrevi também lho diria pessoalmente ao vivo e a cores, caso tivesse tido essa oportunidade.Quanto à solidariedade que o Gonçalo indica de “gente da sua própria faculdade” fique também sabendo que muitos houveram que me elogiaram pela crónica de opinião que a si lhe dirigi. Ah! Cá vem de novo a sua ignorância: a Universidade dos Açores não está organizada em Faculdades. Além disso, quem pede “desculpas em nome da Instituição”, ou seja quem representa a Instituição, é o Reitor ou alguém por ele mandatado pelo que também me custa a entender essa parte da sua missiva. De resto, o meu texto sobre si, publicado na edição do dia 18 p.p., foi escrito na minha qualidade de cidadão e emitindo uma opinião pessoal. Ora se assim foi, se não representei oficialmente a UA nem sequer com ela me identifiquei directamente, não vejo por que razão há “gente da minha faculdade” a pedir-lhe desculpas pelo que então escrevi.
Se entendeu o meu texto como “berros de homens-das-cavernas” isso é um problema que resulta da sua imaginação e interpretação e se pretendeu atingir-me errou completamente pois nada tenho contra “berros de homens-das-cavernas” e, como o Homo neanderthalensis, o estereótipo do tal homem-das-cavernas, se extinguiu há cerca de 30.000 anos, nem sequer podemos saber se, de facto, berravam ou não.
Se a caricatura que desenhei da sua pessoa o incomodou o problema é seu: caricatura implica precisamente exagerar, no retrato, os traços mais marcantes do caricaturado. Se o Gonçalo tivesse uma verruga com pêlos no nariz pode ter a certeza de que a teria desenhado. Muita gente até se sente honrada em ser caricaturada e eu próprio já o fui num esplêndido desenho em que a minha pré-calvície é o aspecto mais evidenciado pelo desenhador.
Diz o Gonçalo que “João Pedro finalmente realizou em Abril as suas provas de agregação” e eu pergunto – E daí? O que é que isso tem a ver com este duelozinho? Será que, com o seu “finalmente”, quer insinuar que passei anos a tentar chegar a Agregado? Para sua informação doutorei-me em 21/09/2001 e terminei as referidas provas em 08/04/2008 – já agora pergunto-lhe se, por acaso, sabe o que implica chegar ao título de Agregado?
Diz também o Gonçalo que – “não sou eu o responsável pela sua lenta progressão na carreira”?!? - Lenta? Doutorado com 36 anos e Agregado aos 43 é lento? E com serviço militar pelo meio? E adianta “Não sou eu o responsável pelo desconforto que os grupos de investigação nacionais sentem quando têm de cooperar consigo num projecto” ao que eu respondo: Desconforto? Conhece os meus projectos? Mais uma vez tenho de o remeter ao meu CV que, pelos vistos, ignora mesmo completamente. Além disso, também no meu CV, poderá constatar que a maioria dos meus projectos são internacionais.Depois ainda comenta que “Não sou seguramente eu o culpado por, no café, o olharem de soslaio, sem os salamaleques a que gostaria de ter direito, como professor universitário” ao que eu sou forçado a afirmar que esse comentário é capaz de ser, simultaneamente, dos mais hilariantes e disparatados que li, até hoje, a meu respeito. Mais ainda quando o Gonçalo afirma que “não sou eu o responsável por o Departamento de Oceanografia e Pescas ter projecção internacional” desconhecendo por completo (cá está de novo à vista a sua ignorância) que eu sou investigador do ImarAçores e, portanto, estreitamente ligado ao DOP publicando e trabalhando regularmente com colegas daquele Departamento desde 1989 logo sendo eu próprio um dos que contribui activamente para essa projecção internacional de que fala.Mais à frente ainda se atreve a insultar o Diário Insular reduzindo-o a um “pasquim” mas esquecendo-se que teve a honra de ser entrevistado por esse mesmo jornal e com lugar de destaque na revista de Domingo. Insinua também que tenho inveja de colegas – nem imagina como esta sua tirada me fez rir – quando inveja é um sentimento que desconheço completamente, embora confesse que gostava de conseguir tocar piano como Glenn Gould ou como Oscar Peterson.Se vesti a “camisola da Universidade” como diz, foi porque o Senhor insultou a Instituição, o seu Reitor e todos os seus Professores, Investigadores, Funcionários e Alunos. E repare bem que esperei quase um mês por escrever o que escrevi na esperança de que o Senhor, ao ter-se dado conta das asneiras que afirmou sobre a UA, se retratasse. Como não o fez, senti-me na obrigação moral de defender a minha “camisola” e de tentar esclarecer a opinião pública.
Ao afirmar que “Não lhe devolvo a caricatura por manifesta falta de tempo” depois ainda confessando “fiquei intrigado com a capacidade de um indivíduo que, pago a tempo a inteiro para investigar, ainda encontra tempo, entre o café, as guitarras e os arpões, para aprimorar o traço” o Gonçalo demonstra que não sabe o que é uma pessoa polivalente (e isto, se quiser dar-se ao trabalho, também encontra no meu CV). Primeiro presume que passo tempo no café (o que por acaso não é verdade mas se fosse até posso lembrar-lhe que muitas e importantes obras de vários géneros foram escritas em mesas de café), depois fala das guitarras desconhecendo a minha formação musical e do “traço” sem saber que sou artista plástico, representado em colecções privadas e públicas em Portugal e no estrangeiro, e ilustrador científico membro do Guild of Natural Science Illustrators. Aquela sua tirada dos arpões é que me deixou na dúvida sobre se quis referir-se, metaforicamente, a um estilo tipo “As Farpas” ou à caça submarina. Se foi à primeira hipótese igualmente lhe confesso que me delicio com esses extraordinários textos de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão, se foi à segunda hipótese posso informá-lo que a caça submarina, para além de ser uma forma única de estar no mar e trazer petiscos para casa, me permitiu publicar vários trabalhos científicos, com algumas espécies nunca antes estudadas, precisamente por ser uma forma de pesca que permite selectividade – presumo que saiba que trabalho em Biologia Marinha, nomeadamente em Ictiologia…
Rematando – Diz o Gonçalo, já no fim, o seguinte: “Mesmo assim, feliz da instituição que se ufana de ter um biólogo tão multifacetado entre os seus quadros” ao que eu só lhe posso, muito sinceramente, agradecer o elogio.
Um abraço do João Pedro
Angra do Heroísmo, 25 de Janeiro de 2009

(In Diário Insular)

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quarta-feira, janeiro 28, 2009

DIREITO DE RESPOSTA A JOÃO PEDRO BARREIROS

Gonçalo Pereira Rosa

Meu caro João Pedro Barreiros,
Um dia, quando chegar à sua idade, espero ter desenvolvido um sentido agudo de juízo e bom senso, aptidões que, infelizmente, não se compram na botica, embora alguns pareçam necessitados de doses cavalares.Conhecendo o seu currículo, cuidei que teria juízo para não travar as batalhas dos outros ou deixar-se enlamear por uma causa que não é sua. Esperaria uma atitude destas, mais própria de um moço de recados do que de um docente universitário, de um aluno ou de um professor em início em carreira. Num professor auxiliar, com a carreira salvaguardada, parece-me mais difícil de perceber que destile ódio por tão pouco.No final, João Pedro, você sai mal na fotografia, passa por incontinente verbal depois de uma grosseria que produziu um efeito que nunca esperei - a solidariedade de gente da sua própria faculdade que, concordando ou discordando com a opinião que emiti, teve a amabilidade de me pedir desculpa em nome da instituição.Vamos então ao contraditório. No sítio de onde venho, normalmente, as ideias debatem-se. Um indivíduo propõe uma tese; o outro contesta com uma tese alternativa. E, do debate que se segue, emerge porventura uma versão mais completa e mais abrangente. No entanto, se ao primeiro sintoma de discordância, reagirmos aos berros, acusando os outros de incompetência, ignorância e tiroidismo (finíssimo, o seu dichote, finíssimo!), parece-me que não temos debate. Temos gritaria e silogismos próprios dos homens das cavernas, com os quais o João Pedro está seguramente à vontade, mas o debate esconde-se, envergonhado. Se quer contestar ideias, vamos a isso. Se não tem nada para apresentar, parece-me mais prudente encostar-se a um canto e deixar os senhores que conseguem debater sem berrar participar.Dizem-me de Angra que o João Pedro finalmente realizou em Abril as suas provas de agregação. Folgo em tomar conhecimento de uma notícia há tanto atrasada. Imagino que então terá posto em prática a capacidade de raciocínio e a continência verbal que lhe parecem faltar noutras ocasiões, onde, garanto-lhe, perde mais do que ganha. Para que fique claro e não me guarde rancores, não sou eu o responsável pela sua lenta progressão na carreira. Não sou eu o responsável pelo desconforto que os grupos de investigação nacionais sentem quando têm de cooperar consigo num projecto. Não sou seguramente eu o culpado por, no café, o olharem de soslaio, sem os salamaleques a que gostaria de ter direito, como professor universitário. E, afianço-lhe, não sou eu o responsável por o Departamento de Oceanografia e Pescas ter projecção internacional, com natural expressão nos meios de comunicação que abordam a ciência, enquanto ao João Pedro estão guardadas as páginas sempre disponíveis (e, neste caso, tristemente disponíveis) do “Diário Insular”. Fica-lhe mal esse desconforto quando lê elogios aos colegas. Afinal, se vestiu a camisola da universidade para sentir as suas dores, deveria ficar radiante com o reconhecimento público de um dos seus melhores departamentos. Agradeço-lhe o cuidado com a saúde da edição portuguesa da National Geographic. Felizmente, embora não o conte como leitor, a revista está bem e recomenda-se. Chega a 400 mil pessoas todos os meses (dados do último Bareme da Marktest) e, folgo em dizê-lo, relata frequentemente a actividade científica válida do arquipélago dos Açores. Não tivemos ainda oportunidade de relatar um dos seus projectos, é verdade, mas aguardarei pelo próximo artigo de etnografia e folclore para colmatar essa falha.Ao longo dos anos, escutei críticas bem fundamentadas de colegas seus, queixando-se da falta de acesso aos media para comunicar e divulgar ciência. Vejo, por este caso, que é necessário algum pudor antes de abrir o espectro mediático a qualquer docente universitário. Imagino aliás que os papás e as mamãs dos seus alunos terão ficado encantados com a elegância e trato de quem educa os seus filhos. Infelizmente, verifica-se que o privilégio do acesso à educação não gera necessariamente adultos bem educados.Não lhe devolvo a caricatura por manifesta falta de tempo, mas confesso que fiquei intrigado com a capacidade de um indivíduo que, pago a tempo a inteiro para investigar, ainda encontra tempo, entre o café, as guitarras e os arpões, para aprimorar o traço.Ah, se a sua desenvoltura na produção escrita acompanhasse esse ritmo, que investigador o país não teria! Mesmo assim, feliz da instituição que se ufana de ter um biólogo tão multifacetado entre os seus quadros.Espero sinceramente que este triste assunto termine aqui. Não vejo necessidade de gastar mais tempo e espaço com assuntos que, com reflexão, poderiam nunca ter saído do tinteiro, sem envergonhar quem neles participa.

(In DI-Revista)

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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Crítica a Gonçalo Pereira do National Geographic

João Pedro Barreiros

Na revista do DI publicada no passado dia 21 de Dezembro surge, na íntegra, a anunciada entrevista com o insigne Director da National Geographic Portugal, o Sr. Gonçalo Pereira. Umas semanas antes, durante a apresentação dos trabalhos do Sr. Paulo Henrique Silva, o CD-ROM e a inauguração da exposição de fotografias – belíssimo ensaio estético sobre as Ilhas Selvagens – a que assisti na Galeria do IAC, foi com um misto de expectativa e descrença que esperei pelas palavras com que Gonçalo Pereira iria presentear a assistência. Ao fim da primeira frase percebi que o dito Gonçalo Pereira, sob a capa emblemática da National Geographic, apenas teceria algumas banais considerações, nas quais demonstrou não fazer a mínima ideia dos conceitos com que quis “embelezar” a sua fala. De facto, Gonçalo Pereira falou de ambiente sem saber o que isso é, de ecologia pensando em ecologistas, de mudanças climáticas com a leviandade ignara de quem atribui à camada de ozono e ao degelo na Groenlândia a perda de uma colheita de melões porque caiu granizo em Agosto e de biodiversidade quando deveria dizer riqueza, fala de espécies quando nem deve saber lá muito bem o que é, de facto, uma espécie, e debita outros dislates disparatados de quem tenta dissertar sobre algo que, profundamente, desconhece. A culpa não é dele, é de quem o convenceu de que ele até sabe de alguma destas coisas porque um dia foi nomeado Director da NG Portugal.
Mas depois veio a entrevista e aí, Gonçalo Pereira demonstra, preto no branco, que se Chris Johns, o Editor in Chief da revista “Mãe”, o tivesse lido estaria o pobre Gonçalo a estas horas à procura de outro emprego, de preferência um em não fosse autorizado a abrir a boca. Talvez como estátua humana ou mimo na Rua Augusta.
Para além dos sucessivos disparates com que explica os critérios que devem ou não levar à publicação de um artigo sobre este ou aquele tema, às vezes roçando um ou outro absurdo mais mercantilista, atreve-se o pobre Gonçalo a disparatar ainda mais sobre a Universidade dos Açores e o seu Reitor.Começa por se referir à perda de alunos insinuando que a UA está na cauda dos que mais perdem quando é precisamente ao contrário e estamos neste momento no ano lectivo em que há mais alunos na UA. Depois ataca a tripolaridade sem se ter dado ao esforço de fazer um pouco do trabalho de casa e sem sequer imaginar o que é de facto a tripolaridade – futura multipolaridade – da UA. Refere-se ao DOP, às geociências e ao Dpt. de Biologia como aqueles departamentos que “têm investigadores com provas dadas” – aqui tenho mesmo de fazer um parêntesis para tentar deixar bem claro que o Sr. Gonçalo Pereira não faz a mínima ideia nem sequer do que é fazer ciência quanto mais opinar sobre “investigadores com provas dadas” – e culmina com uma crítica ao Reitor, que só pode ser efeito de uma espécie de alucinação, insinuando que o facto de o mesmo não ser da área, como ele diz, das “Ciências da Natureza” lhe dará uma menor percepção para as oportunidades de investigação!O Sr. Gonçalo Pereira, encovando o pedunculado berlinde que lhe serve de apêndice nasal na bojuda papada que lhe prolonga os beiços e o queixo, não tem qualquer tipo de competência e/ou conhecimento, como foi escrito pelo Reitor da UA, para opinar sobre nenhum Reitor de nenhuma Universidade. A este ponto eu acrescentaria que também não a tem para opinar nem sobre um Vice-Reitor, nem sobre um Pró-Reitor, nem sobre o contínuo que distribui o correio.
Sou assinante da National Geographic desde 1980 e, pontualmente, compro um ou outro número da edição portuguesa ou de outras edições por esse mundo fora. É uma revista importante, emblemática e uma referência mundial de divulgação científica. Porém, essa capa não pode nem deve abrigar personagens que debitam boçalidades como as frases que Gonçalo Pereira babou. Gonçalo Pereira mostrou ser indigno de estar associado a uma revista com aquele nome ou então a National Geographic Portugal não sabe (ou não consegue) encontrar um Director digno desse cargo.

(In DI-Revista)

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terça-feira, dezembro 16, 2008

Opinião do Director da National Geographic sobre a Universidade

Universidade dos Açores não está a aproveitar as oportunidades disponíveis no campo da investigação na área das Ciências da Natureza. Quem o diz é o director da edição portuguesa da revista National Geographic, Gonçalo Pereira, que acredita que muita da responsabilidade passa pelo actual reitor da academia açoriana.
Os Açores têm condições para ser o “laboratório” do país?
Em muitas áreas já o são, com a Oceanografia e Pescas logo à cabeça. Agora, a Universidade dos Açores têm muitos problemas, que conhecem melhor do que eu. Ainda assim, existem duas ou três áreas em que isso já acontece.
Na sua opinião quais são os principais problema da Universidade dos Açores?
Por onde é que eu começo? A perda de alunos é um sintoma enorme. Há várias instituições pelo país fora a perder alunos, fenómeno relacionado com questões demográficas, mas nenhuma com a percentagem com que isso está a acontece na UA. Penso que isto deve fazer tocar a sineta de alarme. E a questão dos pólos é, imagino, muito pouco prática.
Tem-se defendido que os três pólos são uma forma de descentralizar…É claro que sim, obviamente, mas causam problemas de concertação de esforços, de sobrecusto e, muitas vezes, até de duplicação de informação. Os pólos têm também muito pouca autonomia financeira. Esse é o terceiro principal ponto: A questão financeira, que começa, imagino, a reflectir-se na própria produção científica. Uma vez mais o Departamento de Oceanografia e Pescas teve um enorme mérito, sobretudo por se ter conseguido destacar, mas também por se conseguir alhear um pouco do financiamento estatal português e ir buscar financeiro europeu e internacional. Isso tornou este departamento um órgão à parte.
Pode-se dizer que há o Departamento de Oceanografia e Pescas e depois a Universidade dos Açores?
Eu diria que sim. Com todo o respeito pelas geo-ciências ou pela biologia, que têm investigadores com provas dadas.
Como se podiam solucionar esses problemas?
Faz-me alguma confusão que o reitor de uma universidade tão marcada, pelo menos na visão que tenho dela, pelas Ciências da Natureza, não venha dessa área. Acho que isso provoca uma menor percepção para as oportunidades que a investigação em Ciências da Natureza permite. O balanço que faço deste reitor não é particularmente favorável. Não disponho de todos os elementos, e isso é importante que seja frisado, mas acho que há muito pouca sensibilidade para as oportunidades no campo da investigação, nos vários ramos das ciências da natureza.
O que é que a Universidade dos Açores podia ser idealmente? O motor para que os Açores se transformassem no “laboratório” de que falávamos?
Podia estar mais ligada à sociedade civil e ter um relacionamento mais estreito com a comunidade empresarial, dedicando-se a projectos de ciência aplicada mais frequentemente. Há aqui no Departamento de Ciências Agrárias coisas que são muito interessantes. Aí, se calhar, para não ser injusto, são as Ciência Agrárias, no aspecto da ligação com a comunidade empresarial, de longe que dão cartas. São os únicos que parecem integrar essa importância de produzir ciência também em função da sua aplicabilidade. O pólo da Terceira, com exemplos muito evidentes, tem feito essa ponte que outros departamentos não fazem, ou fazem pouco. Embora exista margem para fazer ciência pura, claro... Não estou a sugerir que toda a ciência seja aplicada. Agora, numa universidade que se quer moderna e relativamente recente no contexto português, com umas meras três décadas, é relevante articular-se melhor com a sociedade civil.
(In Diário Insular)

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