Homenagem a João Ângelo é tributo à cultura açoriana
JOSÉ ELISEU: “Os improvisadores devem orgulhar-se ao verem o decano a ser galardoado”.João Ângelo recebe hoje das mãos do Representante da República nos Açores uma medalha de mérito. Ficou surpreendido?
Não, não fiquei. Já o disse diversas vezes que João Ângelo foi o cantador popular que nos últimos 30/40 anos conseguiu projectar os cantares de improviso para além da esfera rural. A finura com que elabora as suas cantigas satíricas levou-o ao trono de cantador mais emblemático da ilha Terceira e até dos Açores. Este galardão acaba por ser um prémio de carreira. E justíssimo. João Ângelo pelos lugares que passou deixou um rasto de simpatia, seriedade e qualidade no repentismo, onde ele é mestre. Apesar de já idoso, consegue encantar todas as faixas etárias. Ele bem pode gabar-se de ser autor de “velhas” eternas. Aquelas estrofes que permanecerão na memória popular pelo menos por mais 100 anos.
Acha que este galardão terá reflexos no futuro das cantigas ao improviso e das “velhas”?
Repare, reconhecer João Ângelo é valorizar a arte popular e por arrastamento os que a divulgam, neste caso os cantadores. Os improvisadores devem orgulhar-se ao verem o decano a ser galardoado. Porque acrescenta nobreza a uma arte até há poucos anos considerada rústica e com pouco impacte nas elites pensadoras. Além de que jovens que tenham propensão genética para o improviso, sentir-se-ão motivados para experiências públicas e com isso aumentarem o quadro de cantadores que continua curto. No que concerne às “velhas”, parece-me que todos os que cantam esta moda têm a consciência de que João Ângelo é insubstituível. Foi o melhor de todos os tempos. Sem dúvida nenhuma. E eu falo por experiência própria. Uma conjugação de factores, de gestos, de voz, de expressão, de conteúdos, faz com que as “velhas” de João Ângelo sejam cantadas em todo o lado por quem as plagia. Eu próprio, comecei a cantar “velhas” dele.
Por que é que João Ângelo é uma pessoa…especial?
Simplesmente pela simplicidade. Ele é genuíno, indisfarçável. É sincero, coerente e não bajula. Como ele próprio costuma dizer, “o que tem na montra, tem no armazém”. Ele é mestre na sua arte mas nunca assoberba nem tenta tirar proveito próprio da fama. Agora falo por mim: quando iniciei esta actividade de cantador, muito mais do que hoje, era de recursos muito limitados. Aos meus colegas exigia-se paciência e solidariedade; e ele teve-as sempre comigo. Fica aqui o meu agradecimento público.
Há dedo de João Ângelo nas características de José Eliseu, cantador?
Há, sim senhor! Primeiro deixe que lhe diga que João Ângelo foi o colega com quem mais convivi, cantei e viajei. Com ele aprendi a moldar o meu cantar conforme a ocasião e o ambiente envolvente. Tornei-me mais versátil. Tenho uma vertente cómica que tem forte influência de João Ângelo sem que talvez ele o saiba. Por um lado por contágio e por outro por mecanismos que encontrei de provocação para que ele explorasse todo o seu potencial cómico. Penso que todos os terceirenses e os cantadores, particular, sentem-se lisonjeados porque o Governo da República vai homenagear uma das figuras mais carismáticas dos cantadores e da cultura açoriana.
(in Diário Insular)
Etiquetas: Alunos, Condecorações, cultura, Dia de Portugal

O parlamento açoriano decidiu ainda atribuir a Insígnia Autonómica de Reconhecimento a Machado Pires e Vasco Garcia, antigos reitores da Universidade dos Açores, Costa Neves, ex-líder do PSD/Açores, e a Medeiros Ferreira, ex-deputado à Assembleia da República, entre outras personalidades. Nas cerimónias do Dia da Região serão também atribuídas insígnias autonómicas de Mérito Cívico a vários cidadãos açorianos que se distinguiram e ainda a instituições como a Banda de Música da Zona Militar dos Açores, as Casas dos Açores de Winnipeg, Ontário e Quebeque e o Fayal Sport Club, que acaba de comemorar 100 anos de existência. Serão também homenageados pelo parlamento com a insígnia de Mérito Profissional vários empresários, enquanto a insígnia de Mérito Industrial será atribuída às empresas Cofaco Açores e Sociedade Correctora, Lda.
O Grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique será entregue a Daniel de Sá, um escritor açoriano da freguesia micaelense da Maia. Além da imposição de condecorações, as comemorações do 10 de Junho, nos Açores, incluem uma celebração eucarística, uma recepção no Solar da Madre de Deus, na ilha Terceira, e a actuação da filarmónica "Recreio Serretense", do grupo folclórico "Os Bravos" e do grupo "Violas da Ilha Terceira". 