quinta-feira, agosto 06, 2009

Espécies endémicas em risco de extinção

Metade das plantas endémicas dos Açores correm risco de extinção. Trata-se de uma situação poderá ter implicações no ciclo da água de algumas ilhas.
Cerca de metade das 32 espécies endémicas dos Açores em risco de extinção podem desaparecer em pouco tempo se não forem tomadas medidas para as proteger. De acordo com estudos científicos, essa possibilidade de extinção é cada vez mais evidente devido a alterações verificadas nas áreas onde as espécies endémicas ainda existem. “Houve uma alteração profunda da ocupação do solo com o aumento progressivo das áreas de pastagem e com situação das águas superficiais das lagoas e ribeiras, que tem levado a uma quebra profunda da extensão dos habitats naturais”, refere o investigador da Universidade dos Açores, Eduardo Dias. Assegura que algumas das plantas endémicas que estão referenciadas como estando em perigo estão tecnicamente extintas porque apenas restam alguns exemplares. Entre as plantas que correm grande perigo de extinção estão a Marsilea azorica, Prunus azorica, Euphasia grandiflora e Ammi trifoliatum. Eduardo Dias manifesta a sua apreensão com o facto de não haver planos de recuperação das espécies em risco de extinção, uma vez que não existe nenhum impedimento técnico para que isso aconteça. “Existe capacidade para se criar planos para restaurar espécies que estão em alto risco de extinção”, afirma. Caso perca algumas das suas plantas endémicas, a Região fica a perder não só no que se refere à preservação da sua flora, como também nos recursos hídricos. De acordo com Eduardo Dias, “uma parte importante dessas espécies estão relacionadas com a manutenção dos aquíferos superficiais e da regularização da água. A sua extinção implica perca de capacidade de controlar o meio ambiente e obriga a investimentos avultados para podermos ter água”.
Medidas em curso
Por seu turno, o secretário regional do Ambiente e do Mar, Álamo Meneses, garante que estão a ser tomadas medidas para proteger a flora endémica. Álamo Meneses reconhece que “é necessário fazer mais”, mas assegura que está a ser feito “um grande esforço” para repor a vegetação endémica em algumas ilhas. “Estamos a criar reservas naturais em todas as ilhas que envolvem acções que vão no sentido de proteger as espécies endémicas”, acrescentou.
(in Diário Insular)

Etiquetas: , , ,

quarta-feira, dezembro 24, 2008

CONSERVAÇÃO E RESTAURO - Novo atelier abre portas em Santa Bárbara

Embora em actividade desde 1999, só agora Paulo Brasil decidiu abrir o seu primeiro atelier de conservação e restauro, na freguesia de Santa Bárbara, concelho de Angra do Heroísmo.
Mas as conquistas desse restaurador açoriano não ficam por aqui.
Foi seleccionado para integrar uma equipa de profissionais destacada para trabalhar na conservação e restauro do Arcano Místico de Madre Margarida do Apocalipse, actualmente no coro alto da Igreja da Matriz da Ribeira Grande, em São Miguel.
“Têm surgido muitas encomendas o que me levou a ter que aumentar o meu espaço de trabalho”, resume Paulo Brasil.
Os seus principais clientes contemplam a Diocese de Angra, o Governo Regional e coleccionadores particulares sobretudo de São Miguel. E é exactamente nessa ilha que reside o próximo desafio na carreira do restaurador natural de Velas de São Jorge, mas radicado há muito na Terceira. “Sou o único açoriano da equipa, os restantes são do continente. Passei já algum tempo na Ribeira Grande a fazer levantamento do trabalho que iremos efectuar a partir de 2009”, revela. E acrescenta: “A obra tem muito valor histórico, artístico e cultural, e a autarquia local já propôs à Direcção Regional da Cultura a classificação do Arcano Místico como Tesouro Regional. Curiosamente, segundo ouvi dizer, a pintora Paula Rego considera essa obra muito inspiradora”.
O Arcano Místico, móvel organizado em três divisões verticais, traduz um relato bíblico e de escritos apócrifos, com esculturas em miniatura, em diferentes materiais, representando os Mistérios mais importantes do Antigo e do Novo Testamento.
As solicitações para conservação e restauro em pintura e escultura, esta última a vertente de especialização de Paulo Brasil, surgem praticamente durante todo o ano, havendo peças de arte que levam meses ou anos de trabalho, um processo que classifica “minucioso”. “Por isso quando iniciamos um trabalho sentimos sempre alguma ansiedade. No final é gratificante, uma glória, pois as diferenças são grandes e para melhor”, afirma.
No entanto, apesar de o sentimento de “glória”, frisa que “cada obra é um caso único” e que “a aprendizagem é contínua”. “Aprendemos com todos os trabalhos e para a próxima é preciso fazer ainda melhor. É impensável tratar duas peças de arte do mesmo modo”, defende Paulo Brasil.
Quanto ao preço dos materiais e utensílios de trabalho na área de conservação e restauro, o profissional considera os custos elevados em Portugal se comparados com outros países da Europa. “Compro tudo em Espanha, conseguem ser 50 por cento mais baratos e o tempo de entrega tem a duração máxima de 15 dias”.
A dedicação e o gosto pelo conhecimento são notórios em Paulo Brasil, sendo que o seu currículo indica uma série de participações em seminários, conferências e acções de formação realizadas nos Açores, continente e estrangeiro, entre muitos trabalhos efectuados e actividades desenvolvidas. Destaque para o primeiro lugar atribuído pelo Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do plano de Apoio para a Recuperação e Valorização do Património Artístico, relativo ao ano de 1998, com o projecto de Conservação de Restauro de nove bustos relicários, pertencentes à Igreja do Colégio de Angra do Heroísmo.
Começou com o curso técnico profissional de Conservação e Restauro de Pintura, nos Açores, entre 1992 e 1994, prosseguiu estudos superiores, bacharelato e licenciatura, em Lisboa, respectivamente entre 1994 e 1998 e 2000 e 2002, entretanto com um estágio de especialização em Escultura, em Bruxelas, nos anos de 1998 e 1999.
Porém, recorda, o primeiro passo foi dado naturalmente durante o ensino secundário, ainda que em criança se interrogava como seriam feitas as imagens dos santos expostas nas igrejas.
“Tomei o gosto a propósito de uma visita de estudo na disciplina de História ao antigo Centro de Restauro em Angra. Mas a verdade é que com quatro e cinco anos de idade ia à igreja com a minha mãe e observava, curioso, as imagens dos santos”, sublinha.
Passados 33 anos, Paulo Brasil, actualmente docente na Universidade dos Açores, Campus de Angra do Heroísmo, a ministrar a disciplina de Levantamento de Patologias e Propostas de Intervenção, integrada no curso de Conservação e Restauro de mobiliário e artefactos, revela de facto saber muito mais que os “segredos” de construção de uma imagem de arte sacra.
No entanto, pretende prosseguir com as suas conquistas pessoais e profissionais. “Gostava de apostar mais na minha formação, talvez fazer mestrado na área. Há sempre algo a aprender”, conclui.

(In Sónia Bettencourt - sonia@auniao.com em A União)

Etiquetas: , , , , ,