Trítio na chuva dos Açores na década de 60 pode ajudar a explicar as taxas de cancro no arquipélago
Os açorianos que tem hoje 35 ou mais anos (desde que tenham nascido antes de 1963) apresentam uma maior vulnerabilidade à contracção de cancro devido à ingestão de água com elevados teores de trítio.
Em 1963 choveram isótopos radioactivos de trítio sobre os Açores. As medições feitas então pela Agência Internacional de Energia Atómica revelavem teores desse isótopo próximo das 1400 unidades de tritio em 1963, sendo que no ano seguintea situação nos Açores e mantêm anormal com um dos valores mais elevados registados nas estações de monitorização do Atlântico Norte.
A água da chuva segue nos Açores directamente para as nascentes, através das bacias hidrográficas. Uma vez que a rotação da água nesses aquíferos é de cerca de seis meses, isso significa que as populações beberam trítio radioactivo, uma vez que o período de meia vida do isótopo é de 12,3 anos.
As leituras de trítio na água da chuva nos Açores continuaram altas durante vários anos, sendo agora normais, segundo análises que tem sido realizadas periódicamente.
Os números da Agência Internacional de Energia Atómica, permitem prever a probabilidade de incidência de cancro no arquipélago. O trítio na água da chuva dos Açores resultou, de acordo com Félix Rodrigues, docente do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, do lançamento de bombas atómicas pelos norte-americanos sobre o Japão no fim da II Guerra Mundial, bem como de testes nucleares a céu aberto durante a Guerra Fria.

As contas de Félix Rodrigues apontam para uma potencial incidência de cancro, derivado da ingestão de trítio entre 1963 e 1973, em cerca de 1200 casos na ilha Terceira e cerca de 2600 casos em S. Miguel.
Os açorianos estiveram expostos nesse tempo a doses de radiação por ano elevadas, capazes de produzir sequelas ao nível da composição do sangue e mutações genéticas.
A inexistência de séries fiáveis sobre incidência de cancro nos Açores limita a confirmação destes dados a partir das estatísticas.
(In RDP-Açores, Diário Insular, Correio dos Açores)
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