segunda-feira, agosto 20, 2007

Competitividade das cadeias de valor do leite

Quando escrevo sobre a competitividade das cadeias de valor de leite dos Açores, naquilo que estudei de forma aprofundada há doze anos atrás e tendo em atenção notícias recentes, há sempre alguém de São Miguel que tem a amabilidade de me enviar uma mensagem dizendo que o oligopsónio que eu assumo existir na Ilha de São Miguel já não é tão efectivo como era há uma década atrás. Na verdade, enquanto que na década de noventa as industrias de transformação de leite na Ilha de São Miguel conseguiam combinar entre si os preços da matéria-prima a pagar produtor, esse mesmo cartel já é menos efectivo nos dias de hoje havendo alguma concorrência entre as unidades fabris através do preço. O resultado mais palpável é que, de acordo com um estudo feito por um técnico de uma associação de agricultores da Terceira, o preço do leite ao produtor da ilha pago pela Unicol é 1,5 cêntimos mais barato do que o preço do mesmo tipo de leite pago pela Unileite em São Miguel. Assim, os lavradores da Ilha Terceira estão a perder por ano cerca de1,5 milhões de euros. E como essa verba fica arrecadada por agentes externos à ilha, é toda a ilha que perde os efeitos multiplicadores de rendimento que aquela verba adicional representaria para a economia da Ilha.Em suma, pelo facto de haver monopsónio na recolha de leite da Terceira a economia desta ilha perde por ano cerca de cinco milhões de euros o que equivale a cerca de cem euros por residente. A responsabilidade desta perda é atribuível a alguns de nós. Não à Pronicol que faz a sua função de ganhar dinheiro face às condições em que opera, mas a alguns outros que ao longo de várias décadas foram cometendo erros graves para a competitividade da lavoura terceirense e para o desenvolvimento da ilha. Os principais responsáveis são naturalmente os lavradores. Primeiro, já no princípio da década de noventa, porque não souberam exigir a melhor gestão para a sua união de cooperativas acabando por ter de vendê-la a empresários externos sem grandes condições para negociar uma quota maior na empresa que foi criada. Segundo, já quando se avizinhava o alcançar do limite da quota leiteira, não souberam exigir do Governo mais quota junto da Europa mesmo que essa Europa enviasse menos verbas para projectos meio inúteis que o Governo gosta de apregoar. É que, como agora vêm, a existência de quota em regime de monopsónio provoca o abaixamento do preço do leite e não o seu aumento. Terceiro, já depois de assumida a existência de uma quota limitadora, e quando era aconselhável organizar o mercado da quota e do seu aluguer, preferiram tornar-se mendigos da quota a distribuir pelo Governo ou comerciantes no mercado subterrâneo e ineficiente da quota leiteira. O segundo responsável pela perda de cinco milhões de euros anuais é o Governo Regional. Por um lado, ainda nos anos noventa, quando favoreceu uma cooperativa ineficiente e penalizou uma empresa privada mais eficiente. Reparem que se a ELA se tivesse mantido e a Unicol acabado, também se verificariam os preços baixos do monopsónio mas ao menos os industriais continuariam a ser terceirenses e não externos à ilha. Por outro lado o Governo também falhou quando não soube negociar mais quota para os Açores, mesmo que houvesse menos transferências de verbas europeias para as Ilhas. E, finalmente, porque preferiu ser o bonzinho corrupto que distribui a quota excedentária com critérios mais ou menos dúbios e alteráveis, em vez de organizar como é seu dever o mercado da quota de leite, mesmo que fosse dentro de cada ilha. Os terceiros responsáveis são os empresários da Ilha que, com excepção de um ou outro que aposta nas exportações, todos os demais vivem dos pequenos monopólios e oligopólios internos.

(Prof. Tomaz Dentinho em A União)

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