Novos ambientes de cura
Jean Watson, professora de enfermagem Jubilada pela Universidade do Colorado, USA, e fundadora do “Center for Human Caring” partilhou em presença o seu vasto conhecimento com os profissionais açorianos na Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo (ESEnfAH) da Universidade dos Açores, Campus de Angra do Heroísmo.

Em vez de um enfermeiro ministrar analiticamente um tratamento a um doente, quer-se que o técnico de saúde saiba comunicar, interagir, conhecer para então depois proporcionar o cuidado necessário. O objectivo é a cura global do paciente e a satisfação do prestador de ajuda. Este é o ponto de partida para as muitas teorias criadas, e já colocadas em práticas por todo o mundo, de Jean Watson. A enfermeira sénior encontrou também na ilha Terceira exemplos da aplicação do modelo de enfermagem pós-moderno de “Cuidar-Curar”.
Depois de ter proferido a conferência “Post-Modern Nursing Model” (“Modelo de Enfermagem Pós-Moderno”), a investigadora orientou dois workshops para meia centena de professores e alunos sobre o assunto, numa iniciativa da ESEnfAH, inserida no projecto ICE.

Jean Watson mostrou-se surpreendida aos jornalistas pela disseminação dos seus estudos, explicando que, no fundo, o que se perspectiva neste novo paradigma “é saber responder às necessidades de cada doente, é ter de recorrer a um complexo e altamente criativo processo para encontrar as melhores soluções”. Soluções que, exemplificou, nos EUA tem levado departamentos e mesmo hospitais a adoptarem novos comportamentos por parte do seu corpo de enfermeiros: “há quem tenha transformado quartos em verdadeiros santuários de meditação para os enfermeiros; tem-se ritualizado com espiritualidade a lavagem de mãos; são afixadas mensagens positivas nos quartos dos doentes; há quem recorra à música para agradar os pacientes; são feitas massagens com pedras relaxantes; etc”. Assim, a enfermagem, conta-nos, é vista como uma disciplina científica, como ciência e arte e como uma profissão centrada no humanismo. Ela personifica o desenvolvimento de uma consciência de cuidado presente na prática, no ensino, na teorização e na pesquisa: “tem de haver uma prática reflexiva da enfermagem”. A preocupação com uma mudança de valores, fá-la apontar para uma visão mais abrangente acerca do cuidado, unindo racionalidade e sensibilidade e tornando a enfermagem num processo interactivo entre quem cuida e quem é cuidado. Jean Watson afirma que não se pode dissociar a prática da enfermagem sem outras áreas de conhecimento como a filosofia, a teologia, a educação, a psicologia ou a antropologia. A perspectiva humanística do cuidado quer abandonar “o modelo do diagnóstico da doença e buscar a humanidade da cura”, equacionando-se as suas dimensões psicológicas, espirituais e sócio-culturais. Encontrar o equilíbrio, “o centro”, como diz, entre corpo e mente deverá ser a meta de qualquer intervenção em saúde. Nesta fulcral profissão de cuidar-curar, o enfermeiro assume um papel ainda mais importante: “o enfermeiro detém a única profissão em que acaba por ser o elo de ligação entre o hospital, os médicos e a família”. Uma vez que o seu modelo de cuidados transpessoais tem configurado a prática de milhares de enfermeiros em todo o mundo, Jean Watson advoga uma maior atenção e investimento nesta abordagem da enfermagem. Depois de conquistados os progressos tecnológicos da medicina da era moderna, a enfermagem precisa de redescobrir a sua essência e devolver, às suas práticas, “a arte de cuidar”. “É preciso interromper o actual padrão de funcionamento da enfermagem. É preciso encontrar novas formas de cuidar. É preciso criar um novo ambiente de cura”.

(In Humberta Augusto em A União)
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