domingo, maio 08, 2011

Organizar a universidade



Candidato a reitor da Universidade dos Açores, Jorge Medeiros defende uma nova organização da academia, que a adapte às mudanças trazidas por Bolonha. Por isso propõe uma nova estrutura, novos cursos, a aproximação da sociedade e a aposta na investigação.



É vice-reitor da Universidade dos Açores (UAç) há uma década. Porque é que decidiu candidatar-se agora a reitor?Conforme é sabido a Universidade dos Açores foi criada em 1976, há 35 anos. Eu iniciei a minha vida de docente universitário na UAç em 1977, após dois anos, como monitor, no Instituto Superior Técnico. Nessa altura, o número de docentes era diminuto e praticamente não existiam instalações. No meu caso, no Laboratório de Ecologia Aplicada, do então Instituto Universitário dos Açores, foram ocupados uns armazéns que tinham sido cedidos pela Estação Agrária. Não há dúvida que os três anteriores Reitores: José Enes, Machado Pires e Vasco Garcia e o atual, Avelino Menezes, souberam, com conhecimento, sabedoria, bom senso, tenacidade e elevado sentido do dever, tomar as resoluções mais corretas implementando e dando corpo à UAç. Hoje, a universidade é constituída por três campi, modernos e todos dotados com as infraestruturas necessárias. Seguindo o lema da construção da unidade no respeito pela diversidade, organizou-se em 12 unidades orgânicas de ensino e investigação. Atualmente, 95% do corpo docente universitário já está doutorado e no Ensino Superior Politécnico existe uma grande percentagem de docentes que estão a terminar o doutoramento. A UAç torna-se, agora, numa das universidades portuguesas com maior percentagem de docentes universitários doutorados. Encerra-se assim um ciclo. Carece agora de um novo impulso. É essa a razão de eu apresentar a minha candidatura, com uma experiência acumulada de dez anos como vice-reitor e com o intuito de dar uma nova visão à Universidade dos Açores.
Aponta a sua experiência como vice-reitor como uma mais-valia. No entanto, o candidato adversário também é pró-reitor há oito anos. O que é que distingue a sua candidatura da apresentada por Alfredo Borba?Independentemente dos outros possíveis candidatos, eu candidato-me porque tenho um projeto para a “nova” Universidade dos Açores. É com o intuito de a transformar numa verdadeira universidade do século XXI, numa universidade que contribua para a formação de uma sociedade do conhecimento e da inovação, que me apresento como candidato a reitor, pois, estou certo que agora é a altura certa para encontrar novas estruturas mobilizadoras, novos métodos de trabalho, novas modalidades de relacionamento com a comunidade, novas estratégias nos domínios da produção científica, novas capacidades para mobilizar outros públicos, novos eixos para a transformação social e tecnológica e novas ideias para intervir numa sociedade que continua a entender a universidade como o promotor principal da qualificação, da inovação e da criatividade. Há assim que inovar e projetar a universidade para novos desafios. Inovar, passando necessariamente pela reorganização da estrutura organizativa da UAç, de maneira a adaptá-la a esta nova dinâmica e projetar, pois há a necessidade de promover, através do aproveitamento de todas as capacidades e competências instaladas, a concretização de uma maior abertura à comunidade científica, o fomento da mobilidade dos estudantes, investigadores e professores, a consolidação da internacionalização na formação, na investigação e na transferência de conhecimento e a ampliação das relações com a região, as empresas, as instituições e a comunidade. Candidato-me, porque ao longo dos anos, fui acumulando uma experiência, conhecendo a realidade de uma universidade instalada nos Açores, frequentando vários eventos sobre gestão universitária, a nível nacional e internacional, que me permitem agora apresentar um programa de ação audacioso e que se traduz nos seguintes itens: A Inovação na Universidade dos Açores (que engloba reestruturar a organização; promover a imagem e a atratividade; melhorar a oferta educativa; reforçar a investigação; apoiar os docentes, os investigadores e os funcionários não-docentes; e diversificar e coadjuvar os estudantes), a internacionalização, a contribuição para o desenvolvimento da sociedade e do conhecimento, aumentar a autonomia institucional e garantir a sustentabilidade financeira e novas áreas de desenvolvimento.
Defende também um reforço da oferta letiva. O grande desafio na área do ensino é assimilar na sua plenitude os conceitos introduzidos pelo Processo de Bolonha. Há que atender a questões mais conceptuais relacionadas com o desenvolvimento curricular, com as tipologias de contacto estudante-professor, ou com o reconhecimento de aprendizagens anteriores (formais, não formais ou informais) ou, até mesmo, com a melhoria de condições para o acesso de novos públicos. Eventuais alterações curriculares deverão ter sempre em conta a opinião dos empregadores e dos diplomados, a carência de formação em empreendedorismo e as chamadas competências transversais essenciais à boa inserção no mercado de trabalho. A oferta letiva apresentada pela UAç deverá ser sempre de espetro largo, isto é, uma oferta que inclua cursos de especialização tecnológica (CETs), 1º, 2º e 3º ciclos. Quanto aos CET’s importa estar atento às necessidades constantes de reformulação, adaptando-os às pretensões da sociedade e dos empregadores. Relativamente aos cursos de 1ºciclo, embora esta questão dependa de inúmeros fatores, intrínsecos e extrínsecos, há que ter em conta que quer a UAç, quer todas as outras universidades públicas, têm uma escassa possibilidade de aumentar a sua oferta curricular como resposta a variações da procura e o mesmo se passa quanto à criação de novos cursos. Contudo, há toda a conveniência em que os cursos de 1º ciclo sejam divididos em dois tipos diferentes, ou seja, por um lado, considerar os existentes, de “banda estreita”, e apenas direcionados para um único curso de 2º ciclo que lhe dá continuidade e, por outro, os cursos de “banda larga” que, tal como o nome indica, facultam uma formação abrangente ao aluno, dando-lhe a oportunidade de poder futuramente inscrever-se numa gama de cursos muito diversificada em qualquer universidade nacional ou estrangeira. A adequação dos cursos dos 2º e 3º ciclos às necessidades da sociedade e às áreas de investigação desenvolvidas pelos docentes é outra das orientações. Por seu turno, a aprendizagem ao longo da vida pode assumir múltiplas formas, desde cursos de atualização para profissionais, com o apoio das respetivas Ordens, até ações de formação destinadas a cidadãos que se mantêm ativos e abertos aos progressos do conhecimento. Há, assim, que assegurar uma arquitetura de oferta, incorporando uma estrutura por módulos com programas e graus, horários e outras condições de frequência adequados, e vias flexíveis de transição entre programas, que permita alargar o leque de perfis dos alunos da UAç. A oferta de cursos livres, frequentados por estudantes seniores, deve estender-se progressivamente a todas as ilhas, em cooperação com entidades regionais e locais.
Esse aumento da oferta letiva significa também um aumento do número de docentes?Atendendo ao grande esforço desenvolvido pelas várias reitorias até ao presente, a UAç possui atualmente um reconhecido capital intelectual que lhe permite desenvolver uma diversidade de áreas do saber, quer sejam nas Ciências Exatas, nas Ciências Naturais, nas Ciências da Saúde, nas Ciências da Engenharia e Tecnologias, nas Ciências Sociais ou nas Artes e Humanidades. Sendo assim, não vejo a necessidade de aumentar significativamente o número de docentes.
As dificuldades económicas da academia poderão ser agravadas no futuro. Defende a aposta noutras fontes de financiamento, que colmatem a dependência do Estado. Quais?Realmente, a UAç tem que reduzir a dependência do orçamento do Estado, marcado sempre por lógicas essencialmente reativas a medidas impostas pelo Estado e que são ainda muitas vezes ditadas por ciclos políticos curtos. Nesse sentido, há que aumentar o leque de participações e o leque de atores sócio-económicos, com especial incidência nas relações ciência-sociedade. A promoção de meios de cooperação internacional, nas áreas tecnológicas, humanísticas e culturais deverá também traduzir-se noutros meios de financiamento. A internacionalização da universidade torna-se, assim, numa perspetiva de desenvolvimento que pensamos ser obrigatória e englobando atividades de formação, de investigação científica, de parceria estratégica, de transferência de tecnologia e de afirmação social e cultural.
Portanto é preciso apostar mais na investigação?O desenvolvimento de investigação com qualidade, quer seja de cariz fundamental, quer aplicado, induz uma projeção da universidade permitindo, como consequência, uma maior procura de colaborações por parte do tecido empresarial, uma superior eficácia na angariação de projetos nacionais e europeus, uma maior atração por investigadores do exterior e uma maior atração de estudantes, nacionais e estrangeiros. O desenvolvimento de projetos de investigação pluridisciplinares também deve ser facilitado. Esta interdisciplinaridade, com fortes mecanismos de interação, colaboração e sinergia, torna-se fundamental para desenvolver projetos de maior dimensão, necessários na geração de novos avanços do conhecimento e em aplicações no setor empresarial ou em questões prementes da sociedade atual. Daí ser imprescindível encontrar um equilíbrio entre as prioridades e a necessária diversidade disciplinar. Nunca se poderá também esquecer que a UAç está inserida numa Região que tem os seus problemas específicos, muitos dos quais requerem intervenções de grande nível científico, baseado em várias áreas do saber, e em que a participação da universidade, quer diretamente, quer como facilitadora, é necessária.
Concorda com a fusão das duas escolas de enfermagem numa escola de saúde?Um dos objetivos essenciais deste programa de ação reitoral consiste, em colaboração estreita com o Conselho Geral, instituir uma nova tradição de organização universitária, que se adapte à nova realidade. Nesse sentido, pretende-se que, com a mesma dignidade, unidades orgânicas direcionadas para o Ensino Universitário, Ensino Politécnico e Investigação Científica possam desenvolver sinergeticamente as suas atividades em cada uma das áreas científicas existentes, privilegiando, sempre que possível, a cooperação e a multidisciplinaridade. O Ensino Politécnico, na área da saúde, é precisamente uma das áreas que nos preocupa e que, após auscultação das várias unidades orgânicas, atualmente a desenvolverem atividades na área, após os necessários estudos de mercado e diretivas do Governo da República relativamente ao desenvolvimento do Ensino Politécnico, será proposto ao Conselho Geral, que na nova estrutura organizativa seja incluída a melhor solução.



(In Diário Insular)